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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Audiência do Boulevard - 24/02/2011

Não adiantou apresentar um projeto surreal: calçadas de grama, casas sem muros, uma associação de moradores (AMOHELENA - Associação de Moradores do Boulevard Santa Helena) que fiscalizaria o cumprimento das diretrizes do projeto. Beleza não põe mesa e o projeto não caiu nas graças da população presente no auditório do UNIFEMM.
As falas das entidades e das pessoas me surpreenderam. Não porque eu esperasse coisa diferente do que foi dito, mas pela certeza que brotou dentro do auditório e se consolidou no discurso de todos contra a insanidade do empreendimento. Abraço especial ao Paulinho do Boi e seus alunos de teatro. Fantásticos. Outro patrimônio público a ser preservado e ampliado.

A comunidade atenta às explicações do empreendedor. O projeto-conceito teve a atenção da plateia, mas não teve a aprovação.
Rituais à parte, a mesa que coordenou os trabalhos concedeu seu próprio tempo para a explanação do empreendimento. Não sei se é praxe, mas pegou mal demais. Principalmente quando, ao final, não me concedeu tréplica por ter sido citado nominalmente pelo Leonardo Pittela, responsável pela execução e apresentação do EIA/RIMA. 
Após a audiência, no estacionamento do UNIFEMM, conversei com o Leonardo e expus qual seria o teor da minha tréplica. Afirmei a ele que as minhas suposições sobre a incapacidade do aquífero em abastecer a população do pretendido empreendimento, gerando mais dano ambiental, era baseada na suposição citada no próprio RIMA a respeito do uso dos poços profundos ter sido a causa da perda das nascentes do córrego do Diogo e da Lagoa da Chácara. Portanto, se eu estava errado ao supor tal fato, mais errados estavam os técnicos ao colocar tal suposição no RIMA. Disse a ele também que o episódio de alguém ter comentado que ele feriu a ética durante sua fala deveu-se ao fato dele ter emitido juízo de valor ao afirmar que a cidade (população, prefeitura, quem seja) não teria condições de manter um parque natural naquela área. Ele reconheceu o deslize e pediu desculpas, prontamente aceitas. Elogiei, como fiz durante minha fala, o trabalho da equipe técnica e frisei que ele omitiu uma importante afirmação a respeito do tempo de pesquisa da herpetofauna (anfíbios e répteis). Em sua fala, Leonardo afirmou que surpreendentemente poucas espécies desses animais foram encontradas, indicando degradação da área, mas omitiu que tal pesquisa foi feita em apenas 4 dias.

Pegada do mão-pelada, Procyon cancrivorus, mostrada na apresentação do RIMA. Conforme o RIMA, uma das espécies de dieta especializada que habita o local e requer áreas de grandes extensões para sua sobrevivência (página 95).
A seguir, o texto da minha fala, conforme foi protocolizado junto à mesa. O trecho final nem foi lido, em respeito ao tempo que havia estourado.

"Aqueles que vão decidir sobre a concessão da licença ao empreendimento certamente leram e releram o relatório de impacto ambiental e, objetivamente - com sua experiência acumulada saberão distinguir entre enganação e realidade.
O mundo mudou. Não estamos aqui falando apenas de um loteamento. Esse palco é uma batalha de uma guerra muito maior. Mas é nossa batalha. Leis foram feitas com a preocupação de preservar alguma coisa, tentando resguardar um futuro para nós todos. Vamos obedecê-las, em reverência aos que lutaram para a sua aprovação e aplicação.
O empreendimento proposto está localizado em uma região onde são observados afundamentos do terreno provocados pelo abatimento do solo. A área em questão é uma área de recarga dos aquíferos e amortecimento das cheias do Córrego do Diogo. A grande absorção de água dissolve a rocha lentamente, provocando a formação de tais afundamentos. Não sabemos como se encontra o subsolo na região, mas sabemos o que é o carste. Convivemos há anos com essas palavras e seus pesadelos derivados: cavernas no subsolo, dolinas de abatimento, proibições e limitações.
Próximo às áreas mais baixas e alagadiças do terreno, onde a água brota a menos de um metro de profundidade, são propostos prédios de 7 a 10 pavimentos, enquanto - nas linhas e entrelinhas - o relatório de impacto ambiental afirma que sondagens não foram feitas, correndo por conta e risco do proprietário do lote.
Dolinas formadas recentemente estão em alinhamento com a Lagoa da Chácara, indicando o possível - para não dizer absolutamente certo - fluxo subterrâneo de água nesta direção. Tal faixa está destinada a “áreas institucionais”. Quem sabe construímos ali uma escola, um hospital ou a nova sede da prefeitura. Na dúvida, pode-se optar pela encosta da Serra de Santa Helena, a outra área indicada como “institucional”. Com uma declividade de mais de 45 graus, vamos remexer a terra e reeditar deslizamentos que até hoje deixam grotões na face da Serra.
Para abastecer uma população de 20.000 pessoas que se intenciona colocar na área, sugere-se um poço profundo para remover 5 milhões de litros de água por dia, mesmo sabendo e afirmando que a retirada de água pelos poços artesianos deve estar diretamente relacionada com a agonia das nascentes do córrego do Diogo e da Lagoa da Chácara.
O empreendimento é uma aula de “educação ambiental”, uma aula às avessas, um exemplo a não ser seguido. Mas certamente terá o apoio de muita gente interessada em fazer projetos para casas “de alto padrão”, vender areia, tijolos, cimento e aparelhos de ar condicionado. Venda de aparelhos de ar condicionado aliás passará a ser o empreendimento mais lucrativo da cidade nos próximos anos, não só nas grandes lojas do Boulevard Santa Helena - se a insanidade da licença prévia for concedida - mas em toda a cidade, que perderá sua maior área verde urbana."

 Ramon Lamar de Oliveira Junior

PS.: O Leonardo Pitella afirmou em sua fala a suspeita de que os poços profundos do SAAE, nos terrenos da Fazenda Arizona, não têm a outorga necessária para o funcionamento. Com a palavra, o SAAE.

21 comentários:

  1. Ramon, fiz todo o esforço para estar presente na Audiência, mas não consegui sair de Belo Horizonte a tempo de chegar. Meus compromissos aqui não permitiram sair no devido horário, desse modo, desisti de ir.

    Quanto aos poços do SAAE, se não me engano, no período do Lairson Presidente, as outorgas foram providenciadas. Os poços artesianos de Sete Lagoas, naquele período foram todos georreferenciados, mas como você mesmo disse, com a palavra o SAAE.

    Forte Abraço,

    Enio.

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  2. Professor

    Não sei o que escrever...
    Que a área da fazenda Arizona seja destinada ao povo de nossa terra em forma de um parque municipal, com estação ecológica e tudo mais a ser preservado na área...
    Que as pessoas, que decidem, ouçam o clamor público da audiência e decidam a favor da vida.

    "Todo mundo quer um parque municipal e Ninguém quer um Boulevard" (Trecho do texto elaborado pelos alunos da oficina de Teatro do Serpaf.)

    Ramom
    Que Deus abençoe você e tudo que representa para todos nós.

    Uma braço
    Paulinho do Boi

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  3. Bom dia Ramon,

    Tb estava presente e gostei.
    Já encaminhei o questionamento para o setor de engenharia e aguardo parecer.

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  4. "Brasil! Mostra a tua cara!"

    Analisei novamente os documentos do "futuro" Boulevard e fiquei realmente atônita.
    Na verdade, nutria alguma esperança de que as maiorias estivessem em sã consciência. Ledo (e eterno) engano juvenil?

    Perdi o sono.
    Mesmo.

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  5. Olá Ramon Lamar

    é realmente essa discussão do Parque Lagoa da Chácara
    se tornou uma aula em meio ambiente,mais é um absurdo a criação do dito parque e mais absurdo ainda se alguém liberar a criação,já foi um absurdo a Camara de Vereadores ter aprovado esse projeto.Como que pode construir em área de preservação ambiental esse Parque Lagoa da Chácara,que assinar e der autorização além de ser iresponsavel pode ser considerado um louco.

    Abraço

    Vereador Marcelo Freitas (Lico)

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  6. Ramon.

    Pra quem gostaria de ter estado na audiência e não pôde, qual é, afinal, o resumo da ópera?

    Há alguma chance de o empreendimento não vingar? Esta audiência tinha/tem algum poder de mudança real de decisão? Ou o excelente trabalho de vocês é para tentar sensibilizar alguém que realmente possa fazer algo? Podemos ter alguma esperança?

    Se não responder a nenhuma das minhas perguntas também entenderei. Afinal de contas, preservar a estratégia dos próximos passos pode ser muito importante e decisivo no momento.

    Abraços,

    Frederico Dantas.

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  7. Ramon, o post ficou ótimo, bastante esclarecedor.
    Como comentamos ontem sobre a correção do ENEM fiz um post no meu blog, se puder passe por lá e deixe o seu recado.
    Um abraço e parabéns pelo seu esforço!

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  8. Em primeiro lugar, agradeço a todos. Alguém me disse esses dias para trás, em relação a outro assunto, que "não deve nada a ninguém". Eu devo muito a vocês. Vocês são meu estímulo de continuar na batalha, com toda seriedade (apesar de uma ou outra pitada de humor, resultado da criança que ainda sou e não quero deixar morrer dentro de mim). Devo muito a vocês e a todos os meus professores. Devo muito aos meus pais e meus irmãos. Devo muito a meus amigos.
    Ao Frederico Dantas: o resumo da ópera é positivo. Objetivamente, não vejo outra decisão que não seja contra a Licença Ambiental. Mas existem outros caminhos além da FEAM/SUPRAM. O povo deu mostras disso ontem, fiquei deveras orgulhoso do povo da minha terra. Aí são as tais "cenas do próximo capítulo".
    Ao vereador Lico: creio que ocorreu um engano em sua postagem. Você me parece ser contra o Boulevard proposto e a favor do Parque Natural Municipal Lagoa da Chácara. Estou correto?
    Ao Ênio Eduardo: você tinha que ter visto a audiência. Sei que você iria se emocionar. O discurso do Tchó e a apresentação do teatro foram sublimes.
    À Carolina: vamos lá, querida! Vamos em frente!!!

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  9. Ramon

    realmente eu sou a favor da criação do parque lagoa da chácara e contra o boulevard proposto.

    abraço.

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  10. Penso que isso vai mesmo terminar é na Justiça. E ela tem que ser acionada, sem omissão da sociedade ou do Ministério Público.

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  11. Ramom.

    Você, com sua simplicidade e variado conhecimento, vai ganhando terreno...e adeptos. Infelizmente obtive a informação, Blog IMMAC, uma hora e meia após o início da audiência.

    Espero poder contribuir; através de artigos e da ação conjunta.

    Parabéns, colega.

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  12. Ramon, não tenho dúvidas de que foi emocionante os depoimentos que se sucederam na audiência. Creio que Sete Lagoas, através de todos vocês puderam formar uma opinião sobre a Lagoa da Chácara.

    Podemos dizer firmemente que todos nós queremos uma saída ambientalmente correta para o que existe de melhor em nossa paisagem.

    Através do seu blog quero dar os parabéns a todos vocês, sem distinções.

    O caminho agora é manter a concentração neste tema até o Parque acontecer de vez.

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  13. ótima participação popular!!!O público, em seu maioria, se mostrou contra a implantação do Boulevard Sta Helena.
    Fiquei maravilhado com a exposição do responsáveis pelo RIMA,apesar de cometerem alguns deslizes... eles conseguiram expor (e tentar vender) a ideia que a implantação do Boulevard Sta Helena é a única alternativa para a preservação da área, dá pra acreditar que o cara tentou nos fazer engolir que devastar a área seria uma atitude pra preservar?

    Não poderia deixar de citar a EMOCIONANTE apresentação do grupo de teatro, as sábias palavras do Tchó, as competentes palavras do Subcomitê e dos representantes do IMMAC, as palavras de uma prof. do Regina Pacis, as palavras de uma representante da Associação do Bairro vizinho ao empreendimento, e boa atuação do PV, e ADESA e por fim as palavras da prof. Alessandra Chimati (é assim que escreve?).
    Não poderia deixar de elogiar as palavras do prof. Ramom, claro né?
    Agora temos que continuar de olho em que resultado dará o licenciamento.

    Geraldo - aluno do UNIFEMM

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  14. sim au parque e nao au boulevard,

    piter hander um dos atores da apresentacao de teatro, na luta contra o boulevard abraço para todos.

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  15. Ramom
    Prazer em conhecê-lo,

    Pude acompanhar também a audiência pública e me emocionei com as palavras das pessoas sensibilizadas pela preservação do projeto inicial Bosque hoje, Parque, se entendi bem.
    O teatro do Serpaf na direção do Paulinho do Boi já está maduro o suficiente para ganhar o Brasil, poderia se tornar patrimônio público de Sete Lagoas sem sombra de dúvida ( as megas empresas da cidade pela Lei Rouanet poderiam apoiá-lo);
    a fala da Dra. Alessandra Lisboa, foi do coração, um desengasgo; da professora do Regina Pacis (me esqueci o nome) ecoou pelas nossas cabeças e consciências ali na platéia, o Sr. Tomás da Embrapa perfeita fala em nome dos animais, assim como da professora Alessandra Cazarim, emoção pura em nome de nossas árvores (afinal, supressão de 300.000 árvores ficou matelando na cabeça dos presentes), você professor Ramon, englobando um pouco de tudo numa fala suscinta e eficaz, parabéns!; o Tcho (assim que escreve) falou com propriedade de filosofia, religião e política na mistura da panela surpreendeu com o bobó de Preservação da Lagoa da Fazenda Arizona.
    Simplesmente me senti vingado no final da audiência. Disse inicialmente a minha esposa, que não iria para não ficar deprimido mas, vocês aliviaram meu peito foi como se eu desse um berro de alívio em saber que pessoas como vocês amam a cidade de Sete Lagoas acima de politicagem, bandidagem e tudo o mais e o que realmente importa é a sobrevivência com dignidade de todas as espécies.
    Parabéns mais uma vez em nome de todos os setelagoanos.

    Fernando Vespúcio Borges
    Boa Vista - Sete Lagoas

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  16. Fernando,
    receba um grande abraço. A luta ainda vai ser longa, mas contamos com o pensamento positivo que emana de cada um que sabe que é preciso dar chances à sobrevivência de todos no planeta: homens, plantas e animais.
    Obrigado pela visita.
    Sinto-me honrado.

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  17. Caro Fernando

    Obrigado pela referência.

    Todo artista só se sente completo quando sua arte desperta no outro um pensamento ou um questionamento. Assim conseguimos, aos poucos, transportar nossa platéia para a dimenssão proposta pelo fazer artístico. Foi isso que aconteceu naquela noite. Deparamos com uma platéia, a maioria, de pensadores do coletivo, pessoas de bem e que promovem o bem. Como você por exemplo...
    O Serpaf, eu e meus alunos nos sentimos totalmente validados e extremamente úteis, em relação ao nosso compromisso social, quando vemos pessoas dando depoimentos como o seu e de muitos outros que estavam presentes ali.
    Estamos de coração aberto para uma cultura de paz. Nos sentimos pacificados quando servimos a uma grande causa como a da instalação do parque Lagoa da Chácara.
    Que bom, que você e muitos outros desengasgaram naquela noite.
    Estamos cientes que ainda não vencemos a causa e que tem outras estâncias de lutas e debates...
    Agora é hora de unirmos vontades e forças, agregarmos mais, para continuarmos nessa jornada em favor da vida...

    "Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba e que ninguém tente complicá-la, porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer." Oswaldo Montenegro.

    Abraço
    Paulinho do Boi

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  18. Entendendo melhor o motivo da luta, garra e filosofia...

    "Havia, em algum lugar, um parque cheio de pinheiros e tílias, e uma velha casa que eu amava. Pouco importava que ela estivesse distante ou próxima, que não pudesse cercar de calor o meu corpo, nem me abrigar; reduzida apenas a um sonho, bastava que ela existisse para que a minha noite fosse cheia de sua presença. Eu não era mais um corpo de homem perdido no areal. Eu me orientava. Era o menino daquela casa, cheio da lembrança de seus perfumes, cheio da fragrância dos seus vestíbulos, cheio das vozes que a haviam animado." (Antoine de Saint-Exupéry)

    Agradeço a todos pelo carinho...
    Alessandra Casarim

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  19. um abraço a paulo do boi e um grade professor,que as pessas nos ajude a luta para um mundo menhor para todo , piter hander aluno de teato do serpaf.abraço amigos ....

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