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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A Força Nuclear Forte e a Contribuição de César Lattes

A Coesão do Núcleo Atômico: Um Desafio Fundamental
Dentro do núcleo atômico, existem prótons que, por possuírem carga elétrica positiva, deveriam repelir-se mutuamente devido à Força Eletromagnética. Essa repulsão é um desafio significativo para a estabilidade do núcleo. No entanto, os núcleos atômicos são estáveis, o que indica a existência de uma força ainda mais poderosa que atua para mantê-los unidos [1]. Essa força é conhecida como Força Nuclear Forte.

Características da Força Nuclear Forte
A Força Nuclear Forte é a mais intensa das quatro forças fundamentais da natureza, sendo aproximadamente 100 vezes mais forte que a força eletromagnética em curtas distâncias [2]. Suas principais características são:
• Natureza Atrativa: Ao contrário da repulsão eletromagnética entre prótons, a Força Nuclear Forte é atrativa, agindo entre todos os núcleons (prótons e nêutrons).
• Curto Alcance: Sua atuação é extremamente limitada, eficaz apenas em distâncias muito pequenas, da ordem de metros (femtômetros), que é o tamanho típico de um núcleo atômico. Fora dessa distância, sua intensidade cai rapidamente [1].
• Independência de Carga: Ela age igualmente entre próton-próton, nêutron-nêutron e próton-nêutron, não sendo influenciada pela carga elétrica das partículas [3].

O Papel dos Nêutrons
Os nêutrons desempenham um papel crucial na estabilidade nuclear. Embora não possuam carga elétrica e, portanto, não contribuam para a repulsão eletromagnética, eles participam ativamente da Força Nuclear Forte. Ao adicionar nêutrons ao núcleo, a força atrativa total aumenta sem o acréscimo da repulsão eletromagnética, ajudando a compensar a repulsão entre os prótons e a manter o núcleo coeso. É por isso que núcleos maiores tendem a ter uma proporção maior de nêutrons em relação aos prótons [3].

A Participação dos Mésons na Interação Nuclear
A compreensão da Força Nuclear Forte no contexto do núcleo atômico foi significativamente avançada pela proposta de Hideki Yukawa em 1935. Ele sugeriu que a interação entre os núcleons (prótons e nêutrons) era mediada pela troca de partículas, que ele chamou de mésons (especificamente, o píon). Assim como a força eletromagnética é mediada pela troca de fótons, a Força Nuclear Forte, em seu nível nuclear, pode ser vista como uma troca de mésons entre os prótons e nêutrons [4].
Essa troca de mésons cria uma força atrativa de curto alcance que “cola” os núcleons uns aos outros. É importante notar que a Força Nuclear Forte que atua entre os núcleons é, na verdade, uma manifestação residual de uma força ainda mais fundamental que atua entre os quarks (as partículas que compõem prótons e nêutrons). Essa força mais fundamental é mediada por partículas chamadas glúons [5]. No entanto, para o nível de compreensão do núcleo, a ideia da troca de mésons é uma excelente analogia e um modelo eficaz para explicar a coesão nuclear.

A Contribuição Fundamental de César Lattes
O físico brasileiro César Lattes (1924-2005) teve uma participação decisiva na descoberta experimental do méson pi (píon) em 1947, o que confirmou a hipótese de Yukawa e revolucionou a física nuclear e de partículas [6] [7]. Sua contribuição pode ser dividida em duas fases principais:

1. Descoberta em Raios Cósmicos (Bristol, 1947): Trabalhando na Universidade de Bristol, na Inglaterra, Lattes, em colaboração com Cecil Powell, Giuseppe Occhialini e Hugh Muirhead, utilizou emulsões fotográficas expostas a raios cósmicos em grandes altitudes. Foi Lattes quem desenvolveu uma técnica para identificar as trilhas deixadas pelos mésons pi, observando seu decaimento em múons. Essa foi a primeira evidência experimental direta da existência do píon [6] [8].

2. Produção Artificial em Acelerador (Berkeley, 1948): Em 1948, Lattes foi para a Universidade da Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos. Lá, ele liderou a equipe que conseguiu produzir artificialmente o méson pi em laboratório, utilizando o ciclotron de Berkeley. Essa produção controlada permitiu um estudo mais aprofundado das propriedades do píon e confirmou de forma inequívoca sua existência e seu papel como partícula mediadora da Força Nuclear Forte [6] [9].

César Lattes

A descoberta do píon por Lattes e sua equipe foi um marco, pois forneceu a prova experimental para a teoria de Yukawa, solidificando nossa compreensão sobre como o núcleo atômico se mantém unido. Essa conquista valeu o Prêmio Nobel de Física a Cecil Powell em 1950, embora Lattes, Occhialini e Muirhead não tenham sido incluídos, gerando debates sobre o reconhecimento de suas contribuições [10].

Resumo das Forças no Núcleo

A tabela a seguir resume as principais forças atuantes no núcleo atômico:

Força

Partículas Afetadas

Natureza da Interação

Alcance

Intensidade Relativa (no núcleo)

Força Nuclear Forte

Prótons e Nêutrons

Atrativa

Curto (fm)

Muito Alta (100x Eletromagnética)

Força Eletromagnética

Prótons (cargas elétricas)

Repulsiva

Infinito

Alta

Referências

[1] InfoEscola. Força Nuclear Forte. Disponível em: https://www.infoescola.com/fisica/forca-nuclear-forte/ 

[2] LibreTexts. 20.1: Estrutura e estabilidade nucleares. Disponível em: https://query.libretexts.org/Idioma_Portugues/Livro%3A_Quimica_-Atoms_First(OpenStax)/20%3A_Quimica_nuclear/20.1%3A_Estrutura_e_estabilidade_nucleares 

[3] Reddit. Como os nêutrons mantêm o núcleo de um átomo unido?. Disponível em: https://www.reddit.com/r/askscience/comments/11qc3h/how_do_neutrons_hold_a_nucleus_of_an_atom_together/?tl=pt-br 

[4] UOL Educação. Força forte: Coesão e estabilidade do núcleo atômico. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/disciplinas/fisica/forca-gravitacional-relacao-entre-forca-e-massa-segundo-newton-e-einstein.htm 

[5] Energy.gov. DOE Explains…The Strong Force. Disponível em: https://www.energy.gov/science/doe-explainsthe-strong-force 

[6] GHTC USP. César Lattes e os 50 anos do méson pi. Disponível em: https://www.ghtc.usp.br/meson.htm 

[7] Opera Mundi. 101 anos César Lattes, pioneiro da física de partículas. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/pensar-a-historia/101-anos-cesar-lattes-pioneiro-da-fisica-de-particulas/ 

[8] SciELO Brasil. a prática científica como objeto histórico César Lattes e as. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbef/a/VXNXYDxDm7qyzQch9DwdHvP/?lang=pt 

[9] SBFisica. A ascensão cósmica de César Lattes, um dos pais da física de partículas. Disponível em: https://www.sbfisica.org.br/v1/sbf/a-ascensao-cosmica-de-cesar-lattes-um-dos-pais-da-fisica-de-particulas/ 

[10] Wikipedia. César Lattes. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/C%C3%A9sar_Lattes

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Lavoisier e sua execução!

O Pai da Química Moderna tem toda uma outra história por detrás.
Vamos conhecê-la?

Lavoisier era um dos Tesoureiros do Rei da França?
Não exatamente. Lavoisier não era "tesoureiro do rei" no sentido literal. Ele era um fermier-général (coletor de impostos), participante de um sistema chamado Ferme Générale. Este era um sistema de arrecadação de impostos em que particulares ricos adiantavam dinheiro ao Tesouro Real em troca do direito de coletar impostos da população durante seis anos, ficando com os ganhos acima de uma cota estabelecida.
Para participar da Ferme Générale, Lavoisier precisou adiantar 1,5 milhão de libras ao Tesouro Real. Com recursos próprios e emprestados, conseguiu reunir 500 mil libras, adquirindo assim um terço de uma cota nesta associação de coletores.
Além disso, a partir de 1775, Lavoisier foi nomeado régisseur des poudres (diretor de pólvoras), dirigindo o Arsenal de Paris, o maior depósito e fábrica de pólvora da França. Nesta função, transformou a pólvora francesa, que era de péssima qualidade, em uma das melhores do mundo.

Qual Rei?
Durante a vida de Lavoisier, a França foi governada por Luís XVI (1774-1792), o rei que foi executado durante a Revolução Francesa. Lavoisier serviu à monarquia durante o reinado deste monarca.

A Execução: Não Foi Apenas por Ser Tesoureiro
A acusação principal contra Lavoisier durante o Tribunal Revolucionário foi a de ter servido à monarquia como fermier-général (coletor de impostos). Essa ocupação era considerada intolerável para os revolucionários, dado o caráter "literalmente revoltante" dos tributos extorquidos pelo Ancien Régime (o antigo regime monárquico).
No entanto, a execução de Lavoisier não foi consequência direta apenas de sua função como coletor de impostos. Vários fatores contribuíram para sua condenação:
  • Inimigos Políticos: Lavoisier tinha um ferrenho desafeto - um médico charlatão que havia tentado obter aprovação da Academia de Ciências para suas teses sobre magnetismo animal, mas foi impedido por Lavoisier. Este inimigo se converteu no poderoso panfletário Jean-Paul Marat, que atacava Lavoisier publicamente.
  • Incidentes com a Revolução:
    • Em julho de 1789, Lavoisier foi associado às muralhas de Paris (mandadas erguer pelo rei por sugestão dele para combater contrabando), que a multidão atacou durante a Revolução.
    • Houve um incidente em que a multidão ameaçou enforcá-lo em um lampião.
  • Ataques de Marat: Em fevereiro de 1791, Marat escreveu no jornal L'Ami du Peuple que Lavoisier era o "corifeu (líder) dos charlatães" e lamentava que ele não tivesse sido enforcado em um lampião.
  • Dissolução da Ferme Générale: Em maio de 1791, a Assembleia Nacional dissolveu a Ferme Générale e acusou os coletores de desvio de 32 milhões de libras.
  • O Período do Terror: Lavoisier foi preso em novembro de 1793, durante o Tribunal Revolucionário de Robespierre e Saint-Just, no auge do Período do Terror.
O Julgamento e a Execução:
Lavoisier foi julgado junto com 27 outros coletores de impostos. O julgamento foi extremamente rápido e injusto:
  • Os advogados de defesa tiveram apenas 15 minutos para falar com cada acusado antes do julgamento
  • Um dos advogados tentou ler um documento favorável a Lavoisier, mas teve a palavra cassada pelo juiz
  • A sentença foi proferida apenas 4 horas após a abertura da sessão
  • Lavoisier foi condenado à morte
Lavoisier foi guilhotinado na madrugada de 8 de maio de 1794, na praça da Revolução (depois denominada praça da Concórdia), juntamente com os outros coletores de impostos.

Reabilitação Posterior:
Um ano e meio após sua execução, Lavoisier foi completamente absolvido pelo governo francês. Em 1795, foi inaugurado um busto seu com a inscrição "vítima da tirania". Ironicamente, o promotor, o juiz e cinco dos doze jurados que o condenaram também foram posteriormente guilhotinados, assim como o próprio Robespierre.
O matemático Lagrange, amigo de Lavoisier, cunhou a célebre frase ao saber de sua morte: "Num instante cortaram-lhe a cabeça, mas outra igual talvez não surja na França num século".

Ramon L. O. Junior, com informações sobre a biografia de Lavoisier.

P.S1.: A acusação de que Marie-Anne Paulze Lavoisier, esposa de Antoine Lavoisier, teria agido contra o marido não encontra respaldo histórico sólido. Pelo contrário, as evidências indicam que ela foi uma colaboradora científica ativa e uma defensora de Lavoisier até o fim. Marie-Anne traduziu obras fundamentais de química, produziu ilustrações detalhadas dos experimentos, organizou manuscritos e participou intensamente da divulgação das ideias que sustentaram a chamada revolução química. Durante o período revolucionário, ela tentou mobilizar contatos e redigir petições em favor do marido, preso sobretudo por sua ligação com a Ferme Générale, instituição fiscal do Antigo Regime fortemente associada aos abusos do Estado.

Lavoisier e sua esposa Marie-Anne.

A execução de Lavoisier, em 1794, deveu-se essencialmente ao clima político radical da Revolução Francesa, que via antigos coletores de impostos como inimigos do povo, e não a qualquer ação de sua esposa. A imagem de Marie-Anne como traidora surgiu mais tarde, alimentada por leituras superficiais ou por preconceitos de gênero, que minimizaram seu papel científico e distorceram sua atuação histórica. Hoje, a historiografia reconhece que ela foi uma aliada fundamental de Lavoisier e uma figura central na preservação e publicação de sua obra após sua morte. 

PS2.: A ampla divulgação e preservação da obra de Lavoisier realizadas por Marie-Anne Paulze Lavoisier foram fundamentais para que seus escritos chegassem às gerações seguintes, incluindo John Dalton, embora não tenha havido contato direto entre eles.
Após a execução de Lavoisier, Marie-Anne empenhou-se em organizar, editar e publicar seus manuscritos, além de preservar edições e traduções de obras centrais como o Traité Élémentaire de Chimie (1789). Esse livro, que já havia circulado amplamente na Europa antes mesmo da morte de Lavoisier, tornou-se uma referência básica para o ensino e a pesquisa em química no final do século XVIII e início do XIX. Foi nesse contexto de consolidação da “nova química” — baseada na conservação da massa, na rejeição do flogisto* e numa nomenclatura racional — que Dalton teve acesso às ideias lavoisieranas.
John Dalton formou sua teoria atômica no início do século XIX (por volta de 1803–1808) apoiando-se em conceitos e dados experimentais herdados da química de Lavoisier, como a definição rigorosa de elemento químico e a abordagem quantitativa das reações. Assim, embora Dalton não tenha conhecido Lavoisier pessoalmente nem dependido exclusivamente da ação de Marie-Anne, o esforço dela em garantir a circulação, a clareza e a continuidade da obra do marido foi decisivo para que essa base teórica permanecesse disponível e influenciasse diretamente o desenvolvimento posterior da química moderna.

*A teoria do flogisto propunha que a combustão e a calcinação aconteciam pela liberação de um princípio material chamado flogisto, supostamente presente nos corpos combustíveis, mas essa explicação foi abandonada quando se demonstrou experimentalmente que esses fenômenos correspondem à reação das substâncias com o oxigênio do ar, frequentemente acompanhada de aumento de massa.

domingo, 28 de dezembro de 2025

NÃO FALTAVA MAIS NADA: A GALINHA AGORA É UM TIPO DE DINOSSAURO!!!

Pode parecer estranho à primeira vista (e realmente é), mas a afirmação de que as aves são um tipo de réptil é um consenso na biologia moderna e representa uma das descobertas mais fascinantes da ciência. Essa mudança de perspectiva não diminui as características únicas das aves, como suas penas e a capacidade de voar, mas enriquece nossa compreensão sobre a história da vida na Terra. Claro que isso também alimentou uma fábrica de memes!


Antigamente, os cientistas classificavam os animais com base em características externas e fisiológicas óbvias: os répteis tinham escamas, eram "de sangue frio" (ectotérmicos) e rastejavam, enquanto as aves tinham penas, eram "de sangue quente" (endotérmicas) e voavam. Essa separação parecia fazer todo o sentido, mas ela não contava a história completa da evolução desses grupos.

A grande virada nessa classificação veio com o avanço da paleontologia e de um método chamado cladística, que organiza os seres vivos com base em suas relações de parentesco evolutivo, ou seja, em sua ancestralidade comum. A cladística busca formar "grupos monofiléticos", que incluem um ancestral e todos os seus descendentes. Foi a descoberta de fósseis espetaculares, principalmente na China, que forneceu a prova definitiva da ligação entre aves e répteis. Fósseis de dinossauros terópodes, o mesmo grupo do famoso Velociraptor e do Tiranossauro Rex, foram encontrados com penas bem preservadas.


Além das penas, esses dinossauros compartilhavam inúmeras outras características com as aves modernas, como ossos ocos, a presença de uma fúrcula (o "osso da sorte") e a estrutura do quadril. Isso demonstrou que as aves não apenas evoluíram a partir dos dinossauros, mas que elas são o único ramo de dinossauros que sobreviveu à extinção em massa há 66 milhões de anos.

Portanto, para que o grupo dos répteis seja considerado um grupo natural e monofilético, ele precisa obrigatoriamente incluir as aves. A análise evolutiva mostra que os crocodilos, por exemplo, são parentes mais próximos das aves do que dos lagartos ou das tartarugas. Excluir as aves do grupo dos répteis seria como dizer que os seres humanos não são um tipo de primata, apenas porque temos características distintas.

Assim, a ciência moderna não vê mais "Répteis" e "Aves" como classes separadas e equivalentes. Em vez disso, vemos as aves como uma linhagem altamente especializada de répteis arcossauros, os dinossauros aviários que conquistaram os céus e continuam a prosperar em nosso planeta.

Ramon L. O. Junior


PS.: Sobre a fúrcula: A fúrcula tem relação com o voo, mas não é uma relação direta de ser essencial para voar. A fúrcula funciona como uma estrutura de suporte e amortecimento para os músculos do voo. Ela atua como uma "mola" que absorve e redistribui as forças geradas durante o batimento das asas, ajudando a estabilizar a caixa torácica e protegendo os órgãos internos durante o voo intenso. Além disso, a fúrcula serve como ponto de ancoragem para alguns músculos peitorais. No entanto, a fúrcula não é exclusiva das aves voadoras: dinossauros terópodes não-aviários, como o Velociraptor, também tinham fúrcula, mas não voavam. Isso sugere que a fúrcula evoluiu originalmente para outras funções (possivelmente relacionadas ao movimento dos membros anteriores) e depois foi "reutilizada" para auxiliar no voo quando as aves evoluíram. Portanto, embora a fúrcula seja uma estrutura importante nas aves modernas voadoras, sua presença não é determinante para o voo, e sua evolução provavelmente precedeu a evolução do voo nos dinossauros.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O Modelo Visionário de Jean Perrin: A Semente do Átomo Nuclear

No alvorecer do século XX, enquanto a comunidade física ainda se debatia para entender a natureza íntima da matéria, o francês Jean Perrin apresentou uma ideia audaciosa. Em 1901, em seu "Traité de Chimie Physique: Les Principes", ele propôs um modelo atômico que rompia radicalmente com as concepções vigentes. Longe da imagem de uma esfera homogênea ou do "pudim de passas" de J. J. Thomson, Perrin vislumbrou um átomo planetário: um pequeno núcleo central carregado positivamente, rodeado por elétrons em órbitas circulares, mantidos pela atração eletrostática. Era um sistema solar em escala infinitesimal.


Este modelo era notavelmente profético. Perrin sugeria que a maior parte da massa do átomo residia em seu núcleo e especulava que a luz poderia ser emitida pelas oscilações desses elétrons orbitais. Ele oferecia, portanto, uma arquitetura que explicava de forma elegante a neutralidade elétrica do átomo e apontava para uma explicação de seus espectros de emissão.

A Fatal Falta de Comprovação Experimental

Apesar de sua elegância e lógica, o modelo de Perrin permaneceu como uma brilhante especulação teórica. Esta foi sua principal e decisiva limitação. Perrin não possuía, naquele momento, dados experimentais capazes de invalidar o modelo dominante de Thomson ou de provar de forma inequívoca a existência de um núcleo compacto. A física da época carecia de um experimento crucial que pudesse "enxergar" dentro do átomo.


A situação mudaria radicalmente uma década depois, com o famoso experimento de Geiger-Marsden (1909-1911), orientado por Ernest Rutherford. Ao bombardear uma finíssima folha de ouro com partículas alfa (positivas), a maioria das partículas atravessava sem desvio, mas uma pequena fração – cerca de 1 em 8.000 – era repelida em ângulos grandes, algumas até mesmo refletidas de volta. Como Rutherford mesmo disse, foi "tão surpreendente como se você atirasse uma bala de canhão em um lenço de papel e ela voltasse para você."

Esses resultados eram incompatíveis com o modelo de Thomson. Uma esfera difusa de carga positiva não teria a densidade ou a força concentrada necessária para causar tais desvios dramáticos. O caminho estava aberto para uma nova interpretação.

A Conexão Perrin-Rutherford: Inspiração ou Confirmação Independente?

Aqui surge uma questão histórica fascinante: o modelo de Perrin serviu de inspiração direta para Rutherford?

É improvável que Rutherford, um físico experimental de primeira linha inserido nas discussões científicas da época, desconhecesse a proposta teórica de Perrin. A ideia de um centro positivo não era exclusiva do francês (Lord Kelvin também tinha ideias similares), mas foi Perrin quem a estruturou de forma mais clara como um modelo planetário.

A relação mais provável não é de cópia, mas de sinergia entre teoria e experimento. A ideia de Perrin fornecia um quadro conceitual alternativo pronto – uma possibilidade teória que aguardava comprovação. Quando os dados experimentais de seu próprio laboratório destruíram o paradigma de Thomson, Rutherford não precisou começar do zero. Ele tinha à mão uma hipótese alternativa que se encaixava perfeitamente nas observações: a única maneira de explicar os grandes desvios das partículas alfa era postular a existência de um núcleo minúsculo, denso e positivamente carregado, exatamente como Perrin havia imaginado.

A genialidade de Rutherford residiu em reconhecer a implicação dos dados e sintetizá-los em um modelo físico robusto. Ele deu à ideia de Perrin o que ela mais necessitava: comprovação experimental quantitativa. O modelo de Rutherford (1911) era, em sua essência arquitetônica, o modelo de Perrin, agora respaldado por evidências irrefutáveis.

Um Legado de Duas Metades

A história, portanto, atribui a Rutherford a descoberta do núcleo atômico, e com justiça, pois foi ele quem a demonstrou ao mundo. No entanto, cabe a Jean Perrin o crédito de ter previsto sua existência.

O episódio ilustra magistralmente o diálogo entre teoria e experimento. Perrin, com sua intuição teórica, plantou a semente. Rutherford, com seu rigor experimental, fez-na brotar e florescer. O modelo de Perrin permanece como um testemunho do poder da imaginação científica, que, mesmo quando não pode ser imediatamente provada, ilumina o caminho para aqueles que, munidos de novos instrumentos e métodos, podem um dia transformar visão em realidade. Ele foi a ponte necessária entre o átomo indivisível do século XIX e o átomo nuclear do século XX.

A relação entre Perrin e Rutherford

Após a publicação do artigo seminal de Rutherford em 1911 ("The Scattering of α and β Particles by Matter and the Structure of the Atom"), o modelo nuclear não foi imediatamente aceito pela comunidade científica. Muitos físicos, especialmente os de formação mais clássica ou aqueles ligados ao modelo de Thomson, eram céticos.

Nesse cenário, Perrin, que já havia concebido uma ideia similar, reconheceu imediatamente a importância e a veracidade do trabalho de Rutherford. Ele utilizou sua posição e influência como um físico renomado na França para promover e explicar o novo modelo.

A Divulgação e Defesa no Livro "Les Atomes" (1913)

A contribuição mais significativa de Perrin para a divulgação do modelo de Rutherford foi seu livro "Les Atomes" (Os Átomos), publicado em 1913.

  • Síntese da Evidência: Nesta obra, Perrin realizou um tour de force. Ele compilou e apresentou de forma clara e convincente todas as linhas de evidência independentes que apontavam para a realidade dos átomos e das moléculas: a teoria cinética dos gases, o movimento browniano (no qual ele era o maior especialista mundial), os fenômenos eletrolíticos, a dispersão da luz (teoria de Einstein-Smoluchowski) e, de forma crucial, os resultados experimentais de Rutherford sobre o espalhamento de partículas alfa.

  • Legitimação do Modelo Nuclear: Ao colocar o trabalho de Rutherford ao lado de outras evidências convergentes e sólidas, Perrin legitimou o modelo nuclear não como uma mera hipótese, mas como a conclusão lógica de um vasto corpo de dados experimentais. "Les Atomes" foi um best-seller científico e um texto extremamente influente, sendo traduzido para várias línguas. Ele foi fundamental para educar uma geração de cientistas e o público culto sobre a nova visão da matéria.

O Ironicamente Forte Suporte Experimental de Perrin

Aqui reside uma das maiores ironias e belezas desta história. Enquanto o modelo teórico de Perrin (1901) carecia de comprovação experimental direta, seu trabalho experimental posterior (pelo qual ele ganharia o Prêmio Nobel de Física em 1926) foi um dos pilares que sustentou todo o edifício da teoria atômica, incluindo o modelo de Rutherford.

  • Movimento Browniano e o Número de Avogadro: As experiências meticulosas de Perrin com o movimento browniano (publicadas principalmente entre 1908-1911) forneceram a primeira determinação precisa e convincente do Número de Avogadro por múltiplos métodos independentes. Ao provar, de forma irrefutável, que a teoria de Einstein para o movimento browniano estava correta, ele demonstrou a realidade física dos átomos e das moléculas. Ele mostrou que o Número de Avogadro era uma constante real, não um artifício teórico.

  • Como Isso Apoiava Rutherford: Provar a existência dos átomos e determinar seu tamanho e número era a base necessária para que o modelo de Rutherford fizesse sentido. Sem a certeza da estrutura atômica da matéria, discutir a estrutura interna do átomo seria colocar o carro à frente dos bois. O trabalho experimental de Perrin forneceu o alicerce sobre o qual Rutherford pôde construir sua teoria da estrutura nuclear.

Conclusão: Uma Relação de Mão Dupla

Portanto, a relação entre Perrin e o modelo de Rutherford foi simbiótica e de mão dupla:

  1. Perrin → Rutherford (Antes de 1911): A ideia teórica de Perrin de um núcleo central serviu como um precursor conceitual que pode ter inspirado ou preparado o terreno para Rutherford.

  2. Rutherford → Perrin (Depois de 1911): A comprovação experimental de Rutherford deu validade à intuição teórica de Perrin.

  3. Perrin → Rutherford (Após 1911): O trabalho experimental de Perrin (sobre átomos) e sua divulgação vigorosa (em "Les Atomes") forneceram a base e a plataforma de aceitação que o modelo de Rutherford precisava para triunfar.

Em resumo, Jean Perrin foi um dos principais arquitetos intelectuais e divulgadores do paradigma atômico moderno, atuando tanto no campo teórico (previsão do núcleo) quanto no experimental (prova da existência dos átomos) e no pedagógico (defesa e explicação do modelo de Rutherford). Escrever sobre Rutherford foi, para ele, uma forma de validar e completar sua própria visão do mundo físico.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A Evolução do Modelo Atômico de Thomson: Uma Visão para o Ensino Médio

No ensino médio, aprendemos que o modelo atômico de J. J. Thomson, proposto em 1897, é conhecido como o “modelo do pudim de passas”. Essa analogia é útil, mas simplifica uma ideia que evoluiu e foi importante para seu tempo. Vamos ver como isso aconteceu.

1. A descoberta fundamental: o elétron
Antes de Thomson, imaginava-se que o átomo era indivisível. Seu grande feito foi descobrir o elétron, uma partícula com carga negativa, muito menor que o átomo. Isso mostrou que o átomo tinha estrutura interna – era “quebrável”.

2. O primeiro modelo (versão inicial)
Thomson precisava explicar como o átomo, sendo eletricamente neutro, continha elétrons negativos. Ele propôs:

  • O átomo seria uma esfera positiva contínua (como uma massa de pudim).
  • Os elétrons estariam incrustados nessa esfera (como as passas no pudim).
  • A carga positiva e negativa se equilibravam, tornando o átomo neutro.

3. O modelo se sofistica (versão de 1904)
Thomson não parou. Ele percebeu que os elétrons, por se repelirem, não ficariam aleatoriamente distribuídos. Então, propôs que se organizavam em anéis ou camadas concêntricas, girando em órbitas dentro da esfera positiva. Essa foi uma tentativa de explicar propriedades químicas e a periodicidade dos elementos.

4. Por que o modelo de Thomson foi superado?
O modelo de Thomson era coerente com o conhecimento da época, mas tinha um problema grave: não explicava os resultados do experimento de Rutherford (1911), em que partículas alfa (positivas) eram desviadas fortemente ao atravessar uma fina lâmina de ouro. Se o átomo fosse apenas uma “nuvem” difusa de carga positiva, essas partículas passariam quase sem desvio. Os grandes desvios observados indicavam a existência de um núcleo pequeno, denso e positivo – algo que o modelo do pudim de passas não previa.

Como entender no ensino médio?

  • Não era um “erro”, mas um passo necessário. A ciência avança por tentativas e correções.
  • Thomson mostrou que o átomo não era maciço e indivisível – havia partículas subatômicas (elétrons).
  • Sua ideia de que cargas positivas e negativas coexistem no átomo estava correta, mas a distribuição que propôs era imprecisa.
  • O modelo foi importante porque estimulou novos experimentos – inclusive os de Rutherford, que o refutaram.

Em resumo: O modelo de Thomson representou a transição entre o átomo indivisível da Antiguidade e o átomo com estrutura interna. Sua evolução – da simples “esfera com elétrons presos” para uma tentativa de organização em anéis – mostra como um cientista ajusta suas ideias frente a novas descobertas. No ensino médio, estudá-lo nos ensina que a ciência é um processo dinâmico, em que cada modelo, mesmo superado, abre caminho para o próximo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Pessoas que ganharam mais de um Prêmio Nobel

Ganhar um Prêmio Nobel já é um feito extremamente raro. Ao longo de mais de um século de premiações, apenas cinco pessoas conseguiram ganhar o Nobel duas vezes, o que as coloca em um grupo absolutamente excepcional da história da ciência e da cultura mundial.

Madame Curie

A mais conhecida é Marie Skłodowska-Curie, que recebeu o Nobel de Física em 1903, por suas pesquisas sobre radiação, e o Nobel de Química em 1911, pela descoberta de novos elementos químicos, como o polônio e o rádio. Outro caso notável é o de Linus Pauling, vencedor do Nobel de Química em 1954, por seus estudos sobre ligações químicas e sua relação com a estrutura das proteínas, e do Nobel da Paz em 1962, por sua atuação contra testes nucleares e em defesa do desarmamento. Pauling é único por ter recebido dois Nobels individuais, sem divisão com outros laureados.

Também merece destaque John Bardeen, o único a ganhar duas vezes o Nobel de Física: em 1956, pela invenção do transistor, e em 1972, por suas contribuições à teoria da supercondutividade. Na área da Química, Frederick Sanger recebeu o Nobel em 1958, pelo sequenciamento de proteínas, e novamente em 1980, pelo desenvolvimento de métodos de sequenciamento do DNA. Mais recentemente, Karl Barry Sharpless entrou para esse seleto grupo ao conquistar o Nobel de Química em 2001 e em 2022, por contribuições à síntese assimétrica e à chamada click chemistry (estratégia química para unir moléculas de forma rápida, limpa, previsível e eficiente).

Além das pessoas, algumas organizações também receberam o prêmio mais de uma vez. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha ganhou o Nobel da Paz três vezes, enquanto o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) foi premiado duas vezes, ambos pelo trabalho humanitário em contextos de guerra e crises globais.

Esses casos mostram que, em situações raríssimas, o impacto de uma trajetória intelectual ou humanitária pode ser tão profundo que acaba sendo reconhecido mais de uma vez pela mais prestigiosa premiação do mundo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

CHARLES DARWIN

Charles Darwin nasceu em 12 de fevereiro de 1809, em Shrewsbury, Inglaterra, filho de Robert Darwin, médico respeitado, e Susannah Wedgwood, da famosa família de porcelanas Wedgwood. Era o quinto de seis filhos. Quando tinha apenas oito anos, perdeu a mãe, Susannah, em 1817, um evento que marcou profundamente sua infância. Apesar dessa perda, Darwin recebeu apoio dos tios e da família estendida, especialmente da família Wedgwood, que valorizava educação, curiosidade intelectual e incentivo às ciências. Esse ambiente familiar estimulante foi fundamental para o desenvolvimento precoce do interesse de Darwin pela natureza, mesmo sem a presença materna.

Darwin iniciou seus estudos em escolas locais e posteriormente na Shrewsbury School, onde se destacou mais por sua curiosidade natural do que pelo desempenho acadêmico formal. Em 1825, ingressou na Universidade de Edimburgo, para estudar medicina, conforme o desejo de seu pai, mas rapidamente percebeu que não se adaptava à prática médica. Achava as cirurgias traumáticas e pouco interessantes, o que desviou seu interesse para atividades intelectuais e científicas, especialmente a botânica e a história natural. Durante sua permanência em Edimburgo, Darwin participou de clubes de história natural, colecionou insetos e plantas, e teve contato com naturalistas que alimentaram seu gosto pela pesquisa.

Em 1828, Darwin transferiu-se para a Universidade de Cambridge, com o objetivo de se formar como clérigo da Igreja da Inglaterra, profissão respeitável e segura socialmente. Em Cambridge, frequentou cursos de teologia e filosofia, mas encontrou verdadeira paixão nas atividades de história natural. Foi nesse período que conheceu John Stevens Henslow, mentor fundamental que o introduziu à botânica, geologia e técnicas de coleta científica. Henslow também o recomendou para a viagem no HMS Beagle, que se tornaria decisiva para sua carreira científica.

Durante a viagem do Beagle (1831–1836), Darwin estabeleceu uma relação profissional e pessoal importante com o capitão Robert FitzRoy. FitzRoy, líder da expedição, era um homem disciplinado e de convicções religiosas fortes, mas reconhecia a competência científica de Darwin. Apesar de diferenças de opinião — FitzRoy era profundamente religioso e cético quanto às ideias evolucionistas —, os dois mantiveram um relacionamento de respeito. Essa convivência proporcionou a Darwin experiências práticas de coleta e observação em regiões diversas, desde a Patagônia e Chile até as ilhas Galápagos, consolidando sua capacidade de análise e percepção das variações entre espécies.

 
H.M.S. Beagle

Após retornar da viagem, Darwin se dedicou à análise de suas coleções e à escrita de artigos científicos. Em 1848, com a morte do pai, Robert Darwin, Charles ganhou independência financeira, o que permitiu dedicar-se inteiramente à pesquisa sem preocupações profissionais externas. Essa liberdade foi crucial para o desenvolvimento de suas ideias sobre seleção natural.

Em 1839, Darwin casou-se com Emma Wedgwood, sua prima de primeiro grau, membro da mesma família intelectual que o apoiou na infância. Emma era profundamente religiosa e preocupada com a moralidade e bem-estar familiar. O casamento, embora afetuoso, trouxe consigo algumas preocupações genéticas. Diversos estudiosos e biógrafos sugerem que alguns problemas de saúde de seus filhos possam ter sido agravados pelo casamento consanguíneo, uma prática relativamente comum na época entre famílias da elite. A família Darwin enfrentou trágicas perdas, incluindo a morte de alguns filhos ainda jovens, eventos que afetaram profundamente a vida pessoal de Darwin, embora ele continuasse seu trabalho científico com disciplina e dedicação.

Darwin, em 1854

A vida familiar de Darwin, incluindo o apoio de Emma e a convivência com filhos doentes, contrasta com sua intensa atividade científica. Ele conseguia manter a rotina de pesquisas, observações e correspondência com naturalistas do mundo inteiro, mesmo diante das dificuldades pessoais. Emma, embora profundamente religiosa, apoiava Darwin e administrava a casa, garantindo que ele tivesse tempo e estabilidade para sua pesquisa.


Entre 1836 e 1859, Darwin consolidou suas ideias sobre evolução. A correspondência com outros naturalistas, a análise meticulosa de suas coleções do Beagle e os estudos de variação em plantas e animais o levaram à formulação da teoria da seleção natural, culminando na publicação de A Origem das Espécies em 1859. A trajetória de Darwin evidencia a interação entre contexto familiar, apoio de tios e esposa, mentorias acadêmicas, independência financeira e experiências práticas de campo. Essa combinação permitiu que ele se tornasse um naturalista cuja obra transformou a biologia moderna.

Amigos, colegas e "discípulos"

Durante sua carreira, Charles Darwin não esteve sozinho em suas investigações científicas. Ele manteve uma extensa rede de amigos, colegas e correspondentes que contribuíram significativamente para o desenvolvimento de suas ideias. Muitos desses contatos eram cientistas renomados da época — naturalistas, geólogos, botânicos e biólogos — cujas observações ajudaram Darwin a fortalecer suas teorias.

Entre os amigos mais próximos estava Joseph Dalton Hooker, botânico britânico e confidente de Darwin, que ofereceu críticas construtivas e validou suas conclusões sobre a evolução das plantas. Outro grande aliado foi Thomas Henry Huxley, que se tornaria famoso como o “cão de combate” da teoria darwiniana, defendendo publicamente a evolução e formando uma geração de jovens cientistas interessados na biologia evolutiva.

Darwin também manteve uma amizade e intensa correspondência com Asa Gray, botânico americano que se tornou um defensor crucial da teoria da seleção natural nos Estados Unidos. Gray ajudou a interpretar a teoria de Darwin em termos botânicos e espirituais, conciliando ciência e religião para muitos leitores americanos, o que ampliou significativamente a aceitação de suas ideias.

Além desses, Darwin interagiu com inúmeros naturalistas e pesquisadores ao redor do mundo, como Alfred Russel Wallace, que independentemente chegou a conclusões semelhantes sobre a seleção natural, e Geoffroy Saint-Hilaire, Charles Lyell (geólogo), Richard Owen (anatômico), entre outros. A correspondência ativa e o intercâmbio de espécimes e observações transformaram Darwin em um verdadeiro núcleo de uma rede científica global.

Darwin também inspirou diretamente futuros “discípulos” que deram continuidade ao estudo da evolução, como os jovens naturalistas da Inglaterra, América e Europa que seguiram seu trabalho em diversas áreas da biologia, ecologia e paleontologia. Além dos grandes nomes, ele contou com a colaboração de amadores e naturalistas locais que coletavam espécimes e enviavam dados valiosos, antecipando uma forma de ciência colaborativa que se tornaria modelo no futuro.

Em resumo, Darwin não foi um solitário pensador; foi o centro de uma comunidade científica em expansão. Seus amigos, correspondentes e discípulos — de Hooker e Huxley a Gray e Wallace — garantiram que suas ideias sobre evolução e seleção natural alcançassem reconhecimento mundial e permanecessem influentes até os dias de hoje.

Darwin e a "perseguição" religiosa

Charles Darwin enfrentou, ao longo de sua vida, tensões religiosas consideráveis, embora falar em “perseguição” no sentido de ataques físicos ou legais não seja exatamente preciso. A oposição foi sobretudo intelectual e social, ligada ao choque entre suas ideias sobre evolução e os ensinamentos religiosos predominantes.

Darwin nasceu em uma família anglicana, embora pessoalmente tenha se tornado cada vez mais cético em relação à religião organizada ao longo de sua vida. Sua teoria da seleção natural, apresentada em A Origem das Espécies (1859), questionava a interpretação literal da Bíblia sobre a criação, o que gerou resistência da Igreja Anglicana, instituição dominante na Inglaterra vitoriana. Clero, estudiosos e parte do público religioso reagiram com críticas severas, considerando a ideia de evolução uma ameaça à moral e à ordem divina.

Alguns debates famosos ilustram essa tensão: por exemplo, o confronto público entre Thomas Huxley (defensor de Darwin) e o bispo Samuel Wilberforce na Oxford Debate de 1860, que se tornou símbolo do embate entre ciência e religião. Embora não tenha havido perseguição legal formal, Darwin evitou frequentemente discussões públicas sobre religião para proteger sua reputação e manter sua pesquisa em foco, mostrando sua prudência diante do clima religioso da época.

No entanto, é importante notar que a oposição não veio majoritariamente do catolicismo, que tinha menor influência na Inglaterra vitoriana, mas sim da anglicana e de setores protestantes conservadores. Darwin próprio manteve relações cordiais com alguns religiosos que aceitavam ou conciliavam a ciência com a fé, como Asa Gray, que via compatibilidade entre seleção natural e crenças religiosas.

O homem veio do macaco?

Charles Darwin começou a considerar a evolução humana de forma teórica já nos anos 1830–1840, durante e após a viagem do Beagle, mas publicou formalmente sobre o tema apenas em 1871, em seu livro A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo (The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex). Nesse livro, Darwin expandiu suas ideias da seleção natural para explicar a origem do homem, abordando aspectos físicos e mentais, e introduziu conceitos de seleção sexual para explicar características humanas, como diferenças entre sexos, comportamento social e capacidades cognitivas. Ele também tratou da origem das emoções humanas e da continuidade entre humanos e outros primatas, reforçando que o ser humano não ocupava uma posição separada da natureza, mas sim resultava de processos evolutivos semelhantes aos observados em outros animais.

Representações feitas por Darwin para uma "árvore da vida".

É nesse contexto que surge a famosa, mas simplificada e muitas vezes distorcida, “ideia do macaco”: a percepção popular de que Darwin teria afirmado que “o homem veio do macaco”. Na verdade, Darwin nunca disse que o homem descendia de macacos modernos, mas sim que humanos e macacos atuais têm ancestrais comuns. A confusão surgiu da forma como suas ideias foram interpretadas pelo público e pela imprensa da época, especialmente por críticos religiosos que queriam ridicularizar suas teorias.

Vale destacar que, embora a obra tenha causado enorme polêmica, Darwin já havia sugerido ideias sobre a evolução do homem de forma mais indireta em correspondências e notas, especialmente a partir da publicação de A Origem das Espécies (1859), mas evitou, naquele momento, entrar em detalhes explícitos sobre a espécie humana para não inflamar críticas religiosas e sociais.

E depois de Darwin???

As teorias de evolução não terminam com Darwin. Ele lançou as bases da compreensão científica da evolução com a seleção natural, mas o desenvolvimento da biologia evolutiva continuou por décadas e se expandiu com descobertas posteriores. Darwin propôs que as espécies mudam ao longo do tempo por meio da seleção natural: indivíduos com características vantajosas sobrevivem e se reproduzem mais. Ele também explorou a seleção sexual e a evolução humana em A Descendência do Homem (1871). No entanto, Darwin não conhecia os mecanismos genéticos precisos, pois Gregor Mendel ainda não havia sido redescoberto e a genética moderna ainda não existia.

A redescoberta dos trabalhos de Mendel em 1900 permitiu que pesquisadores como Hugo de Vries, Carl Correns e Erich von Tschermak confirmassem os princípios da herança genética, e a partir daí a evolução de Darwin começou a ser combinada com a genética mendeliana, dando origem à síntese moderna da evolução, consolidada nas décadas de 1930 e 1940 por cientistas como Theodosius Dobzhansky, Ernst Mayr, Julian Huxley e George Simpson. A síntese moderna integrava genética, seleção natural, paleontologia e sistemática, explicando como a variação genética dentro das populações é o combustível para a evolução e permitindo compreender adaptação, especiação e história evolutiva de forma quantitativa e rigorosa.

Um avanço decisivo nesse período foi a contribuição de Thomas Hunt Morgan, que estudou a herança genética utilizando a mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster). Morgan demonstrou experimentalmente que os genes estão localizados nos cromossomos e que mutações podem gerar variação hereditária dentro das populações. Seu trabalho forneceu evidências concretas de como as mudanças genéticas alimentam a evolução, reforçando e expandindo a síntese moderna ao conectar diretamente a genética clássica com os princípios darwinianos da seleção natural.

Com a descoberta da estrutura do DNA por Watson e Crick em 1953, a biologia molecular passou a influenciar a teoria evolutiva, permitindo estudar mutações genéticas, recombinação, deriva genética e migração com precisão. Surgiram campos como evolução de genes, epigenética, paleogenética e biologia evolutiva do desenvolvimento, conhecida como evo-devo. Hoje, a evolução é entendida como um processo dinâmico e multifatorial, envolvendo seleção natural, seleção sexual, deriva genética, cooperação, simbiose e mudanças ambientais rápidas.

Darwin continua sendo a base conceitual da teoria evolutiva, mas a compreensão moderna vai muito além de suas ideias iniciais, conectando ecologia, genética, paleontologia, biologia molecular e comportamento, e mostrando a evolução como um fenômeno contínuo e complexo que afeta todas as formas de vida na Terra.


Linha do Tempo de Charles Darwin

1809 – Nascimento

  • 12 de fevereiro: Nasce em Shrewsbury, Inglaterra, filho de Robert Darwin e Susannah Wedgwood, quinta de seis crianças.

1817 – Perda da mãe

  • Morte de Susannah Wedgwood.

  • Recebe apoio dos tios e da família Wedgwood, que incentivam a educação e a curiosidade científica.

1825 – Universidade de Edimburgo

  • Ingressa para estudar medicina, a pedido do pai.

  • Não se adapta à prática médica (cirurgias traumáticas).

  • Participa de clubes de história natural, coleciona insetos e plantas.

  • Desenvolve interesse por biologia experimental e botânica.

1828 – Universidade de Cambridge

  • Transfere-se para Cambridge para formar-se como clérigo da Igreja da Inglaterra.

  • Conhece John Stevens Henslow, mentor de história natural.

  • Participa de excursões botânicas e coleta científica, desenvolvendo habilidades de observação e registro de dados.

  • Começa a afastar-se do foco clerical, concentrando-se em história natural.

1831–1836 – Viagem no HMS Beagle

  • Participa como naturalista na expedição global liderada pelo capitão Robert FitzRoy.

  • Observa ecossistemas diversos, espécies endêmicas e variação entre populações.

  • Mantém uma relação de respeito e aprendizado com FitzRoy, apesar das diferenças ideológicas.

  • Coleta fósseis, plantas, animais e realiza anotações detalhadas que fundamentarão suas futuras teorias.

1836–1839 – Retorno e análise científica

  • Analisa minuciosamente coleções e dados da viagem.

  • Inicia correspondência com naturalistas e cientistas do mundo todo.

1839 – Casamento com Emma Wedgwood

  • Casa-se com sua prima Emma, membro da família Wedgwood.

  • O casamento é afetuoso, mas há preocupações com consanguinidade e saúde dos filhos.

  • A família enfrenta tragédias, incluindo a morte de alguns filhos em tenra idade, eventos que impactam emocionalmente Darwin, mas não interrompem seu trabalho científico.

1848 – Morte do pai, Robert Darwin

  • Darwin herda parte da fortuna familiar, conquistando independência financeira.

  • Ganha liberdade para se dedicar inteiramente à pesquisa, análise de dados e escrita científica.

1859 – Publicação de A Origem das Espécies

  • Depois de anos de estudo e elaboração de suas ideias sobre seleção natural, publica a obra que transforma a biologia.

Resumo da Trajetória

  • A trajetória de Darwin é marcada pela combinação de influência familiar, mentoria acadêmica, experiências de campo e independência financeira, permitindo-lhe unir observação prática e análise teórica.

  • Relações importantes:

    • Família Wedgwood e tios: incentivo à educação e ciência.

    • John Stevens Henslow: mentor acadêmico, recomendou o Beagle.

    • Capitão Robert FitzRoy: liderança da expedição e contato com perspectivas religiosas e científicas divergentes.

    • Emma Wedgwood: apoio emocional e familiar, gerenciando a casa e cuidados com os filhos.



terça-feira, 8 de julho de 2025

Por que ainda existem pessoas que acreditam que a Terra é plana?

Oi, pessoal!!!

Volto com um tema já abordado recentemente, mas que muito me intriga. Sendo professor, e da área das Ciências, fico deveras encucado com toda desinformação, desconhecimento e até má-fé em relação ao tema da "Terra Plana" X "Bola Molhada" (como gostam de dizer os terraplanistas).

Sim, em pleno século XXI, ainda há quem acredite que a Terra é plana. Apesar de todas as evidências científicas, imagens de satélite, observações astronômicas e até experimentos milenares, essa ideia absurda encontra defensores apaixonados — e, acredite, até lucrativos.

Mas como isso é possível? Por que tanta gente se recusa a aceitar que vivemos num planeta esférico? E mais: o que está por trás dessa crença?

Desconfiar virou regra — mesmo sem entender do que se trata

Muitos defensores da Terra plana não confiam em governos, cientistas, universidades ou qualquer instituição tradicional. Para eles, tudo pode fazer parte de uma grande conspiração global. Nesse tipo de mentalidade, acreditar que a Terra é plana vira quase um ato de “rebeldia” e “libertação”, mesmo que completamente sem base.

Entender que a Terra é redonda exige mais do que repetir o que está no livro

Pode parecer simples, mas aceitar a esfericidade do planeta exige compreender alguns conceitos básicos de física, geometria e astronomia. E isso nem sempre é fácil — ou ensinado de maneira clara. Veja alguns desafios que uma pessoa precisa superar para aceitar esse fato:

- Entender que a Terra é tão grande que sua curvatura não é visível a olho nu em pequenas distâncias;

- Compreender como as sombras mudam dependendo da posição do Sol (como na famosa experiência de Eratóstenes, há mais de 2 mil anos);

- Saber que corpos celestes massivos tendem a assumir a forma esférica por causa da gravidade;

- Notar que em diferentes partes do mundo vemos constelações distintas no céu noturno;

- E, claro: se a Terra fosse plana, por que o Japão está “embaixo” e os japoneses não caem?

E você? Já parou para pensar nisso? Se a Terra fosse plana, por que temos fusos horários? Por que os eclipses projetam sombras sempre circulares na Lua? Em algum momento não deveriam projetar um traço ou um retângulo comprido?

Mas a verdade é que tem gente ganhando dinheiro com a mentira

Por mais chocante que pareça, há pessoas que lucram defendendo a Terra plana. Isso mesmo: o terraplanismo se tornou um negócio lucrativo, sustentado por vídeos de YouTube, palestras, produtos e teorias conspiratórias. Veja como:

1. Canais monetizados: Vídeos com títulos como “A NASA mente para você!” ou “A Terra é plana e posso provar” atraem milhões de visualizações — mesmo que o conteúdo seja falso. Quanto mais engajamento, mais dinheiro o criador recebe das plataformas.

2. Venda de livros, camisetas e cursos: Alguns influenciadores vendem produtos como se estivessem “abrindo os olhos das pessoas”. Criam livros autopublicados, vendem cursos e até organizam eventos presenciais pagos.

3. Doações de seguidores: Eles criam uma narrativa de que estão “lutando contra o sistema” e recebem doações regulares de quem acredita na “causa”. Isso alimenta uma rede onde desinformação e lucro andam lado a lado.

Por que isso é perigoso?

Quando a mentira se transforma em produto, ela ganha força. O terraplanismo não é só uma crença errada — é parte de uma cultura de desinformação que enfraquece a ciência, a educação e a confiança em fatos verificáveis.

Mais do que isso: quem acredita nisso também tende a cair em outras ideias perigosas, como negar vacinas, duvidar do aquecimento global, rejeitar a evolução biológica... É um efeito dominó. Afinal, tudo faz parte da "farsa que é a Ciência".

O problema não é só a ignorância — é a resistência ao conhecimento

Hoje, não basta ensinar que a Terra é esférica. É preciso mostrar como se pensa cientificamente, como se valida uma evidência, e por que devemos confiar em métodos que foram testados, debatidos e aperfeiçoados ao longo de séculos.

Mais do que transmitir informação, a missão da educação científica é formar mentes críticas, que saibam perguntar, investigar e construir conhecimento com base em fatos, e não em boatos.

E você?

- O que pensa sobre esse assunto?

- Já conversou com alguém que realmente acredita que a Terra é plana?

- Por que você acha que essa ideia ainda se espalha, mesmo sendo tão absurda?

Se você acredita que o conhecimento é a melhor ferramenta contra a desinformação, compartilhe esse texto. Vamos continuar discutindo, aprendendo e fortalecendo o pensamento crítico.

Porque, sim: a Terra é uma esfera. Claro, não é uma esfera perfeitinha igual a uma bola de bilhar, mas as imperfeições do relevo e de outros efeitos são mínimas em relação ao tamanho do planeta. A ignorância não pode continuar girando solta por aí. 

segunda-feira, 23 de junho de 2025

O Acidente com o Césio-137 em Goiânia: Uma Tragédia Radioativa no Brasil

Em setembro de 1987, ocorreu em Goiânia (GO) o pior acidente radiológico da história do Brasil e um dos mais graves do mundo fora de usinas nucleares. O incidente começou quando dois catadores de materiais recicláveis, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, entraram nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), um hospital abandonado que havia deixado para trás um perigoso aparelho de radioterapia contendo césio-137, um material altamente radioativo.

Sem saber do risco, os catadores desmontaram o aparelho e levaram a cápsula metálica para casa. Dias depois, a venderam para um ferro-velho de propriedade de Devair Alves Ferreira. Ao forçar a abertura da cápsula, encontraram um pó azul brilhante, que os encantou. A substância era cloreto de césio-137, e o brilho se devia à intensa radiação. Devair compartilhou o pó com familiares, vizinhos e amigos. Muitas pessoas o manipularam com as mãos, passaram no corpo e o colocaram em ambientes domésticos, sem imaginar que estavam espalhando um veneno invisível.

O que é o Césio-137?
O césio-137 é um isótopo radioativo do elemento químico césio. Isótopos são átomos do mesmo elemento com o mesmo número de prótons, mas diferentes números de nêutrons. O césio-137 é instável e sofre decaimento radioativo, emitindo radiação gama, que é extremamente penetrante e perigosa ao organismo humano, podendo causar desde queimaduras até alterações no DNA celular.
Um conceito essencial nesse contexto é a meia-vida, que é o tempo necessário para que metade da quantidade de uma substância radioativa se desintegre naturalmente. A meia-vida do césio-137 é de aproximadamente 30 anos, o que significa que ele permanece perigoso por muito tempo.

As Vítimas da Tragédia
Mais de 600 pessoas foram contaminadas, muitas delas com sintomas graves. Dentre essas, quatro pessoas morreram em decorrência direta da radiação:

Leide das Neves Ferreira, 6 anos
  • Sobrinha de Devair e filha de Maria Gabriela Ferreira
  • Brincou com o pó radioativo, chegou a passar no corpo e ingerir alimentos contaminados. Morreu semanas depois com síndrome aguda da radiação.
Maria Gabriela Ferreira, 37 anos
  • Irmã de Devair e mãe de Leide
  • Manuseou diretamente o material radioativo dentro de casa. Desenvolveu sintomas severos e morreu em outubro de 1987.
Israel Baptista dos Santos, 22 anos
  • Funcionário do ferro-velho de Devair
  • Ajudou a desmontar a cápsula contaminada. Faleceu por exposição intensa à radiação.
Admilson Alves de Souza, 18 anos
  • Amigo dos catadores
  • Teve contato direto com o césio e morreu poucos dias depois, com falência múltipla dos órgãos.
E o que aconteceu com os catadores e com Devair?

Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira (os catadores que encontraram o aparelho)
  • Sobreviveram, embora tenham sofrido efeitos da exposição à radiação, como náuseas, feridas e queda de cabelo. Foram responsabilizados judicialmente, mas seus atos foram considerados sem dolo, pois não havia qualquer sinalização de perigo no local onde o equipamento estava abandonado.
Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho
  • Também não morreu diretamente por radiação. Teve sintomas severos e enfrentou grande sofrimento psicológico ao perder a irmã e a sobrinha. Morreu anos depois, com a saúde debilitada, mas não foi incluído entre as vítimas fatais imediatas do acidente.

Panorama Atual
Hoje, as áreas contaminadas foram descontaminadas, e a cidade de Goiânia é considerada segura. Os resíduos radioativos foram levados para um depósito permanente construído em Abadia de Goiás, onde são monitorados até hoje pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Mesmo assim, o impacto emocional, social e psicológico ainda é sentido por muitas pessoas envolvidas. Sobreviventes relataram sequelas duradouras e enfrentaram discriminação e estigmatização por parte da população, mesmo após receberem alta médica.

Medidas Preventivas Adotadas
Adotaram-se diversas medidas após o acidente, no Brasil e no mundo:
  • Normas mais rigorosas para uso, transporte e descarte de materiais radioativos.
  • Cadastro e rastreamento de todas as fontes radioativas no país.
  • Criação de centros de monitoramento e resposta a emergências radiológicas.
  • Campanhas educativas voltadas a profissionais da saúde, trabalhadores da reciclagem e ao público geral.
  • Estabelecimento de protocolos de segurança em clínicas de radioterapia e hospitais.
  • Em todo o mundo não se usa mais o material radioativo em pó, para evitar sua dispersão em possíveis acidentes desse tipo.

Conclusão
O acidente com o césio-137 em Goiânia mostrou como a desinformação, a negligência institucional e a ausência de controle sobre fontes radioativas podem levar a tragédias profundas. Estudar esse caso é essencial para que compreendamos os riscos da radiação, o papel dos isótopos, a importância da meia-vida e da ciência com responsabilidade.
A história de Leide, Maria Gabriela, Israel e Admilson serve como um lembrete comovente de que a tecnologia só deve ser usada com conhecimento, ética e fiscalização adequada — e que a ignorância pode ser fatal.