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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Biologia não é Matemática!!!

 Apesar da Matemática também ter suas "incertezas", como acontece por exemplo no óbvio estudo das probabilidades (qual a probabilidade de jogar um dado e sair o número 1?), a Biologia é lotada de incertezas e imprecisões. Aliás, convém lembrar que a Biologia não é uma "ciência pronta e acabada" pois não existe "ciência pronta e acabada". Ciência é dinâmica, não é dogmática. Quem acredita piamente em dogmas tem muita dificuldade de compreender a Ciência. 

 Nós, professores de biologia, somos até certo ponto culpados pois a carga horária limitada nos obriga a não entrar em detalhes e mais detalhes sobre todos os tópicos dessa ciência. E quando temos a consciência que "escola não é só biologia", evitamos de exagerar nas nossas palestras em sala de aula. Ainda bem que tenho esse visitadíssimo blog (estamos chegando perto de 2 milhões de acessos!) para expor outras ideias e refrescar cabecinhas ansiosas de informação.

 Surge agora a primeira confirmação de reinfecção por Covid-19 no Brasil. Isso não quer dizer que é uma regra geral. Como não é regra geral que "sarampo só ocorre uma vez". Só se pega tal doença uma vez se essa doença provocar a morte do infectado!!!

 As doenças causada por parasitas (não interessa se o parasita é um vírus, bactéria, protozoário, fungo, verme ou artrópode) são ditadas pelas características do parasita (onde existe variabilidade mesmo dentro da mesma "espécie") e do hospedeiro (onde também existe variabilidade). Bom lembrar de Darwin (e Wallace) com a concepção de que "existem variações entre os seres vivos da mesma espécie". 

 É bom lembrar também que "variação" ou "mutação" não implica necessariamente em piorar uma situação. Na relação parasita-hospedeiro, a maioria das mutações que ocorrem e são selecionadas (ou seja, perduram na população) são aquelas que diminuem a virulência (agressividade) do parasita.

 Então não é de estranhar e nem "fugir para as colinas" com informações como essa da reinfecção ou aquela notícia que conta que o "vírus sofreu mutação". Mas tenho certeza que essas notícias vão alimentar todo tipo de discussão e fake news.

 Como descobri recentemente, negacionismo vem em "combo": nega-se tudo num pacote só! Até "terra plana" virou discussão "global"!

 Vá entender a cabeça desse povo!

Ramon L. O. Junior

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Lagarta Lonomia é causadora de acidentes graves

Frequentemente vemos relatos sobre acidentes com lagartas peçonhentas. As famosas lagartas "cabeludas" ou taturanas. Algumas vezes ocorrem apenas reações locais que podem ser aliviadas com medidas simples (a medida mais simples é não coçar o local, para não liberar mais histamina e complicar o caso, podendo dar sintomas sistêmicos). Mas outras vezes o problema é sério e necessita de se recorrer a um hospital (não é posto de saúde, nem farmácia e nem UPA). Hospital mesmo, que é onde existe o soro específico contra a toxina. Estamos nos referindo, agora, à lagarta Lonomia.

Responsável por graves acidentes hemorrágicos, a lagarta da espécie Lonomia obliqua Walker, é a forma larval de um lepidóptero da família Saturniidae (uma mariposa). Esta lagarta, por meio de suas cerdas urticantes, libera uma toxina com propriedades anticoagulantes, que ao contato com a pele pode ocasionar desta irritação local a hemorragias subcutâneas chegando a hemorragias mais graves que atingem órgãos vitais. A substância de ação fribrinolítica presente nas cerdas das larvas, são registradas em apenas duas espécies do gênero Lonomia: Lonomia obliqua e Lonomia achelous.

 A espécie Lonomia obliqua é reconhecida como parasita do Araticum (Rollinia emarginata), do Cedro (Cedrella fissilis) e do Ipê (Handroanthus pulcherrimus), mas parece haver se adaptado a árvores frutíferas das regiões de ocorrência, como os pessegueiros, abacateiros, ameixeiras e outros.

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, por meio da Coordenação Estadual de Zoonoses, orienta a população em relação aos riscos de acidentes com lagartas. A Lonomia está presente em várias regiões do Estado e o veneno em suas cerdas, pode causar hemorragias e até mesmo o óbito, caso a vítima não seja tratada com o soro antilonômico. O soro está disponível nos principais hospitais de referência para atendimento das vítimas de acidentes com animais peçonhentos do Estado. Em Belo Horizonte o Hospital de Pronto Socorro João XXIII é de referência não só para esse animal, mas para peçonhentos em geral.

Diante da possibilidade de acidentes causados por Lonomia, recomenda-se que a vítima procure atendimento médico com urgência e se possível, leve consigo, em um recipiente seguro, o animal envolvido. A medida vale para todos os tipos de acidentes com animais peçonhentos, mas deve ser feita com cautela.

Acidentes com lagartas são frequentes nos meses quentes do ano. O contato com esses animais ocorre, geralmente, durante a realização de atividades que envolvem a manipulação de galhos, troncos, folhas e coleta de frutos. Por isso, recomenda-se atenção especial nessas ocasiões, principalmente com as crianças. A maioria desses acidentes tem evolução benigna.

A identificação da lagarta Lonomia obliqua pode ser feita por comparação de fotos. Elas possuem espinhos em forma de pinheiros e coloração marrom esverdeada com listras longitudinais escuras e manchas brancas em forma de “U”, ao longo do corpo, mas os padrões de coloração podem variar. Durante o dia ficam agrupadas em colônia nos troncos e galhos de árvores, mas também podem ser encontradas no solo debaixo de folhas secas. 

Foto: Ramon L. O. Junior

 

Foto: Wikipédia

Foto: Cecília Avelar Campolina.
Lonomia obliqua fotografada em fazenda 
próxima a Inhaúma (MG), novembro de 2020


 
Mariposa Lonomia obliqua.  Autor: Elton Orlandin (2015).  

Os principais sinais e sintomas são:

  • Edema, eritema, enfartamento ganglionar;
  • Prurido local, dor local intensa em queimação;
  • Náusea, vômitos, diarreia.

Entre 8 horas e 72 horas do contato com essa lagarta, a pessoa pode apresentar equimoses, hematomas de aparecimento espontâneo ou provocados por traumas ou em lesões cicatrizadas, hemorragias de cavidade mucosa, hematúria, sangramentos em feridas recentes, hemorragias intra-articulares, abdominais, pulmonares, glandulares e hemorragia intraparenquimatosa cerebral (HIC).

Os acidentes com a lagarta Lonomia, são classificados como:

  • Leves: presença de sintomas locais como dor em queimação e bolhas; exames de coagulação normais; ausência de sangramento. O tratamento é basicamente sintomático. Observar por até 72 h.
  • Moderados: sintomas locais presentes ou não, exames de coagulação prolongados ou incoaguláveis, com ou sem sangramento (gengivorragia, equimose). O tratamento é sintomático e específico com cinco ampolas de soro antilonômico.
  • Graves: presença ou não de sintomas locais, exames de coagulação prolongados ou incoaguláveis, manifestações hemorrágicas em vísceras (hematêmese, sangramento pulmonar, hemorragia intracraniana) e/ou com alterações hemodinâmicas. O tratamento é sintomático, de suporte e específico com 10 ampolas de soro antilonômico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Centro toxicológico esclarece sobre lagartas encontradas no DF, 18 de Maior de 2018, in <www.saude.df.gov.br/nota-informa-sobre-lagartas-encontradas-no-df/>

GARCIA, C. M.; DANNI-OLIVEIRA, I. M. Ocorrência de acidentes provocados por Lonomia obliqua Walker, no estado do Paraná, no período de 1989 a 2001. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 40(2), 242-246, 2007.

Saúde Estadual alerta para risco de acidentes com lagartas, 28 de Abril de 2007, in <www.saude.mg.gov.br/component/gmg/story/188-saude-estadual-alerta-para-risco-de-acidentes-com-lagartas-sesmg>