As opiniões emitidas neste blog, salvo aquelas que correspondem a citações, são de responsabilidade do autor do blog, em nada refletindo a opinião de instituições a que o autor do blog eventualmente pertença. Nossos links são verificados permanentemente e são considerados isentos de vírus. As imagens deste blog podem ser usadas livremente, desde que a fonte seja citada: http://ramonlamar.blogspot.com. Este blog faz parte do Multiverso de Ramon Lamar
Mostrando postagens com marcador odontologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador odontologia. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de janeiro de 2026

A Pilha na Boca: O Incomum Fenômeno Elétrico em Nossos Dentes

Em meio aos avanços da odontologia estética, com suas resinas e porcelanas, um fenômeno eletroquímico clássico ainda pode ocorrer em bocas que abrigam restaurações metálicas. É a formação de uma pilha galvânica bucal, que produz consequências diretas e perceptíveis para quem o vivencia.
Esse fenômeno reside na combinação de três elementos: dois ou mais metais com diferentes potenciais eletroquímicos (como uma antiga obturação de amálgama de prata e uma coroa de ouro), a saliva funcionando como um eficiente eletrólito condutor, e o contato entre esses metais, seja direto ou mediado pela própria umidade bucal. 


Quando essa tríade se completa, estabelece-se um fluxo de elétrons espontâneo. O metal menos nobre, como os componentes da amálgama (especialmente o estanho e a prata), assume o papel de ânodo, perdendo íons para a solução salina num processo de oxidação. Simultaneamente, o metal mais nobre, como o ouro, atua como cátodo, onde ocorre a redução de espécies presentes na saliva, como o oxigênio dissolvido. O resultado é uma corrente elétrica de baixa intensidade, mas capaz de percorrer os tecidos dentais e os receptores nervosos vizinhos.
As manifestações mais comuns incluem um sabor metálico ou salgado persistente, uma sensação desagradável e constante que altera o paladar. Em momentos de contato mais firme, como ao mastigar, pode-se experimentar uma sensação aguda e passageira de choque ou formigamento elétrico, frequente-mente descrita como um "curto-circuito" na boca. Em situações mais crônicas, alguns pacientes relatam uma dor difusa e de difícil localização na face, uma dor neuropática provocada pela estimulação elétrica contínua das terminações nervosas. Além do desconforto sensorial, há um dano material: a corrosão galvânica. A restauração que atua como ânodo sofre uma dissolução acelerada, liberando mais íons metálicos na boca e podendo levar ao escurecimento do dente, à falha nas margens da obturação e redução de sua durabilidade.
A intensidade desse fenômeno depende de vários fatores. A diferença de potencial entre os metais é primordial; amálgama e ouro formam uma dupla particularmente ativa. A acidez da saliva (pH) e sua composição iônica atuam como controladores da condutividade do meio. A proximidade e a frequência do contato entre as restaurações, como em dentes opostos que se tocam na mastigação, são o interruptor que liga e desliga a pilha momentaneamente.
Felizmente, o diagnóstico é relativamente simples para o dentista atento, baseado no relato característico do paciente. A solução, na maioria dos casos, é a substituição de pelo menos uma das restaurações metálicas por um material não condutor e biocompatível, como a resina composta ou a porcelana.