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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Troca de e-mails: As Unidades de Conservação em Risco (Parte 1)

(RECEBI POR E-MAIL E PEDI AUTORIZAÇÃO PARA PUBLICAR AQUI, SUPRIMINDO O NOME DAS PESSOAS E DAS UCs)

Colegas e amigos,
Por favor, vejam as mensagens abaixo vindas de gerentes importantes de Unidades de Conservação do Estado de Minas Gerais. Já havia me chocado com mudanças de gerência e exonerações sumárias em plena estação seca e em ano de El Niño. Nunca houve dúvida para mim que o intensidade das queimadas que nos assolaram foi devido à negligência do governo de Minas. Agora esta informação abaixo, é simplesmente chocante! Reflete o total abandono do Meio Ambiente mineiro.
Me pergunto, sinceramente, quantos proprietários que deixaram suas reservas legais queimarem vão conseguir converter o uso da terra para plantio. Vivemos um escândalo, e o silêncio da Academia será um gesto de cumplicidade.
Atenciosamente,
R.


Prezados senhores e senhoras:
Esse final de semana eu vi coisas surpreendentes que gostaria de compartilhar com vocês.
Eu vi funcionários queimando seus rostos e os seus calçados, diga-se de passagem, comprados por eles mesmos, para apagar um fogo em um Parque do Estado. Estes funcionários haviam assinado na sexta-feira dia 30 de setembro o seu aviso prévio que veio sem aviso! Os precederam sim rumores. De texto oficial, somente vi o próprio aviso prévio com data para 19/10/11. Não sei em qual parte dos fluxos de informação esta informação ficou retida, mas o fato é: Ficou!
Enquanto isso na rádio IEF se ouvia um jogo desleal: UC’s versus Fogo. Um arraso! Fogo dentro ou trazendo risco a todas as unidades de conservação da minha Regional: Fogo na APA das Águas Vertentes, próximo aos regularizados Pico do Itambé e Rio Preto, fogo a alguns metros da Estação Ecológica da Mata dos Ausentes, fogo na Serra do Intendente, fogo na Serra Negra, e é lógico, como de praxe: fogo no Biribiri.
Alheias as pessoas passavam e observavam o fogo como quem vê algo que não lhes afeta. Algumas tinham até um sorriso no rosto e diziam: “É... deram serviço pro IEF...” Eu comigo pensava, com a propriedade de cinco anos em frente de uma UC sem estrutura e com mais de 200 incêndios no currículo: Para quem será esse fogo? Será que é para essa turma de funcionários? Que perdem seus finais de semana e noites protegendo essa área que é de todos? Será para mostrar que, por mais trabalhos de integração junto à comunidade, ela não quer mesmo esse Parque? Será para o IEF, dito algoz do homem do campo e cerceador do desenvolvimento social? Será para o governo que criou essa unidade há treze anos e até hoje não adquiriu um único palmo de terra? Confesso que não sei. Acho que nunca saberei ao certo. Mas arrisco dizer que é um pouco para cada um dos citados.
No final de sete horas de combate, chamuscados pelas chamas e pelo sol escaldante, ainda não havíamos conseguido extinguir o foco. Estimavam-se mais de 150 hectares queimados dentro do Parque. E se programava nova investida às cinco da manhã do dia seguinte. Na turma, já não se observava aquela esperança de outros combates e frases como: “Vai melhorar amanhã!” “Tá fazendo jeito de chuva!” “Antes isso aqui era bem pior...” E outras mais que amenizam o sofrimento de quem está na frente do fogo. Os rostos estavam frios, e as frases se limitavam a angustiantes: “É... não é fácil...”
Só quem esteve em combate sabe o que é um incêndio florestal. Disso não tenho dúvida! Isso não é passado pela TV! Isso não é mostrado pelos gráficos! Ver seu trabalho de anos, tostar em minutos! Queimar a pele e sentir seco o corpo e a alma! Perder a fome? Sentir desconforto no estômago? Se ver impotente e frágil? A vontade é de chorar! E não escondo não, por muitas vezes nesses anos, mesmo sozinho, chorei sim. Findado nosso trabalho resta o rastro de destruição. 
O que se tinha de bom? Como se diz por ai: "Nossos companheiros!" Eram nosso alicerce, nosso porto seguro. Mas não mais!! Eles voltarão, dizem. Entretanto o que eu vejo são ótimos funcionários correndo atrás da sua vida, lógico! E graças a Deus, arrumando outro emprego, abrindo uma oficinazinha, se mudando para a capital. Dar-se-ão bem sim! São valorosos funcionários! No final de tudo quem perderá mais, mais uma vez é o Parque. É a queda worldtradecentrica do trabalho erguido tijolo a tijolo por cinco anos.
Nas rádios da Diamantina já tocou: “Extra, extra, os insuficientes funcionários do Parque foram demitidos!!! Atentos todos os incendiários, caçadores, garimpeiros, churrasqueiros e demais descumpridores de normas e leis de plantão! Sua oportunidade é essa!!!”
O que fazer agora caros amigos? Sinceramente, estou perdido. Isso aqui é também um pedido de ajuda! Não sei o que fazer com esse peso que já era grande a dezoito mãos e agora está apenas sobre seis.
É.. A previsão marcou chuva.. Pois que venha toda ela!! Caso contrário preparem seus gráficos!! Eles vão aumentar e muito. E eu que ouvi falarem em “Fogo zero no Estado”... Como estão suas projeções caros amigos gerentes? Não são boas as minhas..
Desculpem se enchi todos vocês com minhas baboseiras e lamúrias. Sei que estão tão desgastados e "endúvidados" como eu e às vezes nem podem se dar ao luxo de ler tantas linhas em um email...
Mas eu tinha que tirar essas palavras. Elas estavam presas, na minha garganta, nos campos queimados, no sol impiedoso e no semblante da minha turma.
Espero que todos tenham boa tarde!
Abraços!
F.


Nós, gerentes de unidades de conservação, estamos todos desesperados, desamparados.
Foram demitidos todos os funcionários das UCS e este desabafo do F. representa o sentimento da maioria dos gerentes.
No T. vão ser demitidos 08 funcionários, ou seja, vamos ter que fechar as portas.
K.


K.,
Eu compartilho seu desespero! Meu choque com o que está acontecendo começou quando cheguei no Rio Doce em agosto e descobri o que tinha acontecido com o O.! Após isto, eu já previa, para um ano de El Niño, o desastre que nos aplacou com o fogo. Eu acho que temos que iniciar um esforço de condenação do Estado de Minas Gerais no Ministério Público Federal pela negligência e cumplicidade com a destruição florestal de MG. Por este processo, passa claro o desmantelamento das gerências e a falta de treinamento de Corpo de Bombeiro capacitado e priorizando incêndios florestais.
É preciso uma ação iniciada no Ministério Público e um esforço de abaixo-assinado por trás [...] denunciar os absurdos ambientais de MG.
R.


Precisamos muito da ajuda das universidades e ongs, para cobrar do estado.
Estou hoje sem chão, está muito difícil.
Vou dar o aviso prévio a todos os funcionários do T.  amanhã.
Pessoas que  ajudaram tanto.
Nossa,  está muito desanimador e ainda ver que tudo que construímos no IEF ir abaixo. Eles vão fechar todas as UCS do Estado por falta de gente .
K.


(PS.: Leiam a Parte 2 clicando AQUI)

Um comentário:

  1. Ramon, eu só não estou chocado com o que li porque vivencio o mesmo desespero dos gerentes dos estados. Tivemos aqui na ADESA 02 projetos que foram por fogo abaixo. Perdemos todo o trabalho de 02 anos, no que diz respeito a conservação ambiental. O fogo na frente da serra ainda foi pior, pois perdemos 07 anos de trabalho. As erosões que cortam a serra já estavam se estabilizando e voltamos ao ponto zero novamente. Tudo por negligência das autoridades. Tínhamos um convênio com o próprio IEF para estruturação de uma brigada, mas infelizmente, devido ao ego das pessoas, que as vezes fala mais alto, não cumpriram sua parte. Mesmo com convênio firmado, não conseguimos um abafador se quer com o estado. Assim fica difícil de ter motivação mesmo. No ambiente municipal sofremos com o mesmo problema, a omissão de quem deveria dar o exemplo, no caso o poder público. as novos ares estão chegando, indo com a chuva, que tardia em vir. Mas aconteceram mudanças pontuais e importantes na gestão, tanto do IEF como da Secretaria de meio ambiente. Vamos ver se para o ano que vem mudamos as estratégias e que se faça valer as parcerias.

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