
(1) cenário bucólico: retrata as belezas da vida do campo, o dia a dia dos pastores e ovelhinhas, os costumes ingênuos, a tranquilidade do contato com a natureza, o rio de esgoto que passa em frente ao meu prédio, as nuvens de pó de carvão, o som bovinomotivo nas madrugadas...
(2) casas de veraneio dos ricos de Belo Horizonte: Sete Lagoas só tem pobres. As fazendas ou haciendas em torno dos nossos lagos são propriedades dos ricaços de Belo Horizonte, que, inclusive, voam para cá de helicóptero (já que a roça não tem sequer um campo de pouso).
(3) às margens dos seus lagos: lagos são resultantes da transformação em grande escala da superfície terrestre, ou seja, são muito maiores do que as lagoas. Exatamente o que temos aqui. O que está errado então é o nome da cidade, precisamos mudar para Sete Lagos, é mais grandioso e os ricaços vão se sentir mais valorizados!
(4) região balneária: região onde podemos realizar banhos. Aliás, a natação em nossas lagoas (ou lagos) é altamente recomendável e o sol em nossas praias é o melhor do país.
(5) frenesi do anel industrial: é grande a movimentação de veículos, principalmente grandes caminhões, carretas e bitrens ao redor de nossas siderúrgicas, da IVECO e da AMBEV. Tão grande que já se pensa em aumentar de 6 para 12 pistas de alta velocidade.
(6) Durante a última crise financeira internacional, essas empresas não só mantiveram viva a economia de Sete Lagoas como também ajudaram a absorver os 4000 desempregados da siderurgia: A última crise deve ser aquela dos Estados Unidos, né? Depois já teve a da Grécia e também dos tachos de cobre e alambiques. Na tal crise americana, a IVECO e suas associadas cortaram turnos de serviço, deixaram muita gente na mão-de-calango, deram férias coletivas, demitiram os mais novos de casa sumariamente. Foi um Deus-nos-acuda! Agora retomaram os turnos de trabalho e estão em pleno vapor. Não acredito que tenham empregado nem 100 dos alegados 4000 defenestrados da siderurgia. E se as siderurgias estão demitindo, não é por causa de crise nova. Isso é história antiga (sem minério, sem carvão e dolar em queda, o quê as siderúrgicas vão fazer aqui?).
(7) uma série de fornecedores que se instalaram nas imediações de suas plantas: bom, existem séries pequenas, né? E que plantas seriam essas? Coitados dos pequizeiros, cagaiteiras, paus-santos, paus-terras e paus-terrinhas!!!
(8) classe média com novas necessidades - e disposta a gastar com prazeres mais refinados: prazeres são necessidades? Até certo ponto eu diria que sim, mas alguns são apenas supérfluos e necessidade de autoafirmação. A maioria desses prazeres refinados resume-se à luta para comprar um carro em 72 vezes, regozijando-se em mostrá-lo em volta do Lago Paulino. É o glamour do carro, já identificado na década de 80 por um amigo nosso, infelizmente já falecido. O prazer de uma boa leitura, por exemplo, é coisa que poucos conhecem. Só temos duas livrarias para 220.000 habitantes. Em breve teremos uma no Shopping (vem aí o glamour do Shopping!), onde poderemos comprar livros de autoajuda e guias turísticos de New York e Paris.
(9) agência de babás que atende uma clientela de mães com agenda lotada de dia e ávida por desfrutar a noite: ficar com os filhos, curti-los, vê-los crescer... isso é uma parte fundamental do desfrutar a vida. Esse prazer não volta. Lamentável essa parte da matéria. Até entendo que babás são necessárias, mas não apenas para motivos fúteis. E se as mães setelagoanas estão com essas ideias, temo mais ainda pela ideia dos pais. É a igualdade de direitos, né? "Se ele pode ir pro boteco e exibir carro, eu também posso... cadê a babá que não chega?"
(10) uma enoteca: sem comentários, aliás, apenas um. O negócio agora é saber saborear um vinho mesmo que detestável. Vinho bom é aquele que cada um gosta. Eu gosto de vinho tinto suave (doce mesmo). Se não tiver, prefiro um refrigerante.
(11) elite nascente é ávida, naturalmente, por condomínios luxuosos. Construídos por empresários locais, eles exibem a riqueza de seus compradores e ajudam a aquecer a economia de Sete Lagoas: ué, os ricaços não eram os belorizontinos? Está aí aberta a possibilidade de transformar a Lagoa da Chácara em um megapluscondominioluxuoso. Dane-se o resto. O negócio é se exibir. (O Ministério da Saúde adverte: Esse trecho está com forte cheiro de matéria paga.) No fim das contas, estamos procurando é apenas isso? Ter e mostrar que tem? Não seria melhor Ser, apenas?
Ah, e tem o título da figura que ilustra a linha de produção da AMBEV: DINHEIRO ATÉ A TAMPA. Socorro, reforcem a polícia setelagoana!!!




































