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domingo, 11 de janeiro de 2026

A Pilha na Boca: O Incomum Fenômeno Elétrico em Nossos Dentes

Em meio aos avanços da odontologia estética, com suas resinas e porcelanas, um fenômeno eletroquímico clássico ainda pode ocorrer em bocas que abrigam restaurações metálicas. É a formação de uma pilha galvânica bucal, que produz consequências diretas e perceptíveis para quem o vivencia.
Esse fenômeno reside na combinação de três elementos: dois ou mais metais com diferentes potenciais eletroquímicos (como uma antiga obturação de amálgama de prata e uma coroa de ouro), a saliva funcionando como um eficiente eletrólito condutor, e o contato entre esses metais, seja direto ou mediado pela própria umidade bucal. 


Quando essa tríade se completa, estabelece-se um fluxo de elétrons espontâneo. O metal menos nobre, como os componentes da amálgama (especialmente o estanho e a prata), assume o papel de ânodo, perdendo íons para a solução salina num processo de oxidação. Simultaneamente, o metal mais nobre, como o ouro, atua como cátodo, onde ocorre a redução de espécies presentes na saliva, como o oxigênio dissolvido. O resultado é uma corrente elétrica de baixa intensidade, mas capaz de percorrer os tecidos dentais e os receptores nervosos vizinhos.
As manifestações mais comuns incluem um sabor metálico ou salgado persistente, uma sensação desagradável e constante que altera o paladar. Em momentos de contato mais firme, como ao mastigar, pode-se experimentar uma sensação aguda e passageira de choque ou formigamento elétrico, frequente-mente descrita como um "curto-circuito" na boca. Em situações mais crônicas, alguns pacientes relatam uma dor difusa e de difícil localização na face, uma dor neuropática provocada pela estimulação elétrica contínua das terminações nervosas. Além do desconforto sensorial, há um dano material: a corrosão galvânica. A restauração que atua como ânodo sofre uma dissolução acelerada, liberando mais íons metálicos na boca e podendo levar ao escurecimento do dente, à falha nas margens da obturação e redução de sua durabilidade.
A intensidade desse fenômeno depende de vários fatores. A diferença de potencial entre os metais é primordial; amálgama e ouro formam uma dupla particularmente ativa. A acidez da saliva (pH) e sua composição iônica atuam como controladores da condutividade do meio. A proximidade e a frequência do contato entre as restaurações, como em dentes opostos que se tocam na mastigação, são o interruptor que liga e desliga a pilha momentaneamente.
Felizmente, o diagnóstico é relativamente simples para o dentista atento, baseado no relato característico do paciente. A solução, na maioria dos casos, é a substituição de pelo menos uma das restaurações metálicas por um material não condutor e biocompatível, como a resina composta ou a porcelana.

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