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quarta-feira, 20 de março de 2013

UFMG CEDE ÀS PRESSÕES PRÓ-SISU, ADOTA SÓ O ENEM E ACABA COM A SEGUNDA ETAPA

Sem uma boa base preparatória de matemática específica (matrizes, trigonometria, números complexos, sistemas lineares, geometria analítica), como os aprovados das áreas de exatas terão bom desempenho em Cálculo? Como os aprovados de Medicina e outros cursos da área biomédica se darão em Histologia? Como os biólogos irão se virar sem Botânica e Zoologia (porque praticamente nada é cobrado dessas matérias no ENEM)? 
E como todos se darão com a loteria das redações do trousse, da receita do miojo e do hino do Palmeiras?
Assim será o "Universidade Para Todos"?
Amanhã eu comento um pouco sobre o assunto nesse mesmo tópico.

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“É um dia histórico, de mudança social significativa, um avanço na uniformidade de tratamento para todas as pessoas, independentemente da região onde moram, da condição social; e mais: isto aqui é uma universidade pública, é um patrimônio do povo brasileiro”, disse o reitor Clélio Campolina. Durante mais de quatro horas, o Conselho Universitário se reuniu para decidir sobre a adesão da universidade ao Sisu. No fim da tarde, os conselheiros votaram: 40 foram a favor, dois contra e dois se abstiveram.
Segundo o reitor, foram feitos estudos para avaliar a eficácia do Enem como método unificado de seleção no país. Campolina considerou que o exame tem qualidade para selecionar os futuros alunos da federal, em uma avaliação que coincidiu com o dia em que a correção de redações de alunos contendo erros graves foi questionada nas redes sociais. Apesar das críticas, o representante da UFMG avaliou que o novo sistema não vai diminuir a qualidade dos profissionais formados pela instituição futuramente.
São 6.600 vagas, que no ano passado foram disputadas por cerca de 19 mil pessoas, em um processo que coleciona críticos e defensores ferrenhos e que agora deixa de existir. A previsão é de que, com o Sisu, esse número de concorrentes aumente, já que o sistema é aberto para todo o país e o aluno não precisa sair do estado de origem para pleitear uma vaga em Minas. A universidade, porém, ainda não estima em quanto essa disputa pode aumentar. Ao todo, são 96 cursos ofertados, alguns com turnos pela manhã e à noite. Apenas para os candidatos a música e ao curso de belas-artes e artes cênicas o Sisu não valerá, porque as provas de aptidão permanecem. Esses estudantes farão testes de habilidade específica na segunda etapa. “O Enem é uma prova muito bem feita e é uma forma democrática. Brasileiros de qualquer lugar terão a mesma oportunidade”, afirmou Clélio Campolina.
Comentando os três trechos grifados por minha conta e outras observações:

- O exame tem qualidade (?) apesar de provas de redação contendo erros como "trousse", "enchergar" e "rasoavel" conseguirem receber nota 1000. Redações conseguem 500 pontos ou mais mesmo contendo "receitas de miojo" e "hino do Palmeiras" em meio a um texto sofrível. O exame tem qualidade apesar de conter questões (como na última prova) fora do programa. O exame tem qualidade quando uma redação que havia recebido nota ZERO tem seu valor elevado para 800 após disputa judicial. O exame tem qualidade (?) frente a tantos problemas desde a montagem das provas, vazamento de questões e temas de redação até a aplicação questionável onde os fiscais ora são muito rigorosos, ora são muito permissivos (e até celulares são usados para postar provas em redes sociais).
- A universidade aceitou um modelo com 100% das vagas ofertadas pelo Sisu sem saber o quanto a disputa pelas vagas vai aumentar!!! A UFMG não sabe precisar quantos candidatos de outros estados são esperados? Acho que lá na UFMG ainda tem um Curso de Estatística. Seria bom procurar consultar esses dados antes de fazer mudanças. Qual será o número de candidatos chamados em segunda chamada para medicina agora em 2013 (em 2011 foram 109 e em 2012 foram 130)? E em 2014? Teremos aquela correria do Sisu por vagas em segunda chamada e lista de espera? Preocupação com a segurança do processo... ah... isso agora não é mais com a gente!
- Acredito que o Magnífico Reitor Clélio Campolina já deve ter se inscrito como candidato em alguma prova do NOVO ENEM, correto? Com certeza ele já se submeteu ao sistema de fazer 90 questões com caneta preta de material transparente em 4,5 horas já incluído o tempo de transcrever o gabarito. Também deve saber como é fácil fazer uma redação de qualidade (sem miojo) em uma hora e que precisará alcançar uma nota boa (acima de 850) se tiver pretensões mais altas em relação ao curso escolhido. Aliás, duvido que algum dos 44 membros do Conselho Universitário tenha participado de alguma edição do referido exame com nota suficiente para passar em 90% dos cursos ofertados pela UFMG. "Uma mentira repetida mil vezes, torna-se uma verdade!" Talvez sigam essa filosofia para acreditarem que o sistema é melhor do que o anteriormente usado pela UFMG. Ou então a preocupação é de cunho meramente financeiro (sem gastos para a instituição) e de comodidade (sem preocupação em períodos de férias de verão, logística de arrumação dos locais de provas e convocação de aplicadores e... distância da praia).

Resultados práticos dessa mudança, só veremos mesmo em 2020, quando se completar o ciclo que envolve a formação do alunos no ensino médio dentro dessa nova ótica (ou vocês acreditam que todas as escolas do ensino médio vão continuar explicando todos os Parâmetros Curriculares Nacionais se o que é cobrado no ENEM é muito menos?) e a maioria deles estiver concluindo os cursos superiores. Existirá o ENADE até lá? Ou o INEP encontrará uma fórmula nova e mágica para validar os resultados de engenheiros que tiveram profunda dificuldade em Cálculo, por exemplo, graças a uma seleção que deles não exigiu conhecimentos mais aprofundados ou afinidade com a área.
Aliás, percebamos que qualquer um hoje, nesse modelo, pode pleitear fazer um Curso de Medicina ou de Engenharia Aeroespacial mesmo sem ter a menor afinidade com a área (demonstrável nas provas específicas). Basta uma boa nota média no ENEM e sorte de ser agraciado com um corretor "miojo" para a sua redação. Isso é a verdadeira inclusão social: qualquer um pode se candidatar a um curso de altos salários (altos poderes e altas responsabilidades) mesmo que não tenha demonstrado sua aptidão. Uma palavra para isso? Adestramento! Adestramento passará a ser o futuro da educação brasileira.

Ramon Lamar de Oliveira Junior
Professor e Biólogo formado pela ANTIGA UFMG
2o  Lugar Geral do Vestibular UFMG 1982
(cursou 2 anos de Medicina e depois reoptou para sua
área de vocação maior: o ensino da biologia)
1o Lugar Geral do Vestibular  FCMMG 1982
1o  Lugar Geral do Vestibular  PUCMG 1982
Participante do Enem 2009, 2011 e 2012
Mestre em Biologia Celular pela UFMG

5 comentários:

  1. Este dia custou, mas chegou! R.I.P. UFMG... Só posso lamentar!

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  2. Muito prematura essa medida, sem o fortalecimento do ensino público em geral, vão apenas ocupar vagas , sem manter um nível bom dos alunos.

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  3. Sinceramente, como professor já me sentia desestimulado, imagine agora? Imagine nossos alunos???

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  4. Poderíamos até considerar que isso fosse um avanço se o ENEM fosse um exame mais sério e confiável e que no mínimo avaliasse a capacidade dos alunos realmente mais preparados... Mas o que vemos é realmente o contrário e com absolutamente nenhuma perspectiva de melhora ...

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  5. A UFMG parece ter entrado numa curva descendente em direção ao abismo ...

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