AULA DE SAMBA, AULA DE CIDADANIA!
(veja as imagens do post anterior para entender o acontecido)
Eu nunca tinha pensado que uma "escola de samba" fosse um lugar de aulas sobre assuntos muito além do samba. Claro que ali estão as crianças, e não são poucas, com um sorriso ou uma lágrima, aprendendo a sambar, aprendendo a desfilar para quem quiser ver que no mundo ainda existe espaço para a alegria.
Ontem, os poucos que estavam na feirinha (Praça Dom Carmelo Mota) assistiram a uma aula de cidadania. Os cidadãos do Santa Luzia ou Garimpo, não importa, mostraram que são feitos de carne, osso e muita fibra.
No momento, no meio do desfile, em que a escola foi interrompida pelos emissários da Secretaria de Cultura, com a notícia de que o samba deveria parar para que o concurso de fantasias fosse concluído, eu fiquei sem ação. Apenas ouvia as pessoas ao meu lado, pais e mães das crianças que desfilavam e mais outros que curtiam a empolgação da "escola que passava": - Absurdo! - Onde já se viu isso? - Só podia ser em Sete Lagoas mesmo! - Esse pessoal tá de gozação, só pode!
Olhei e registrei as interrogações no rosto da meninada. O misto de tristeza e desconsolo no olhar das passistas e dos integrantes da bateria. O peso aumentou nos ombros das baianas. Não era possível admitir que desceram para o centro (ah, o centro!) sob chuva, com crianças, fantasias, tambores e o pavilhão da "escola" para sofrerem esse tipo de humilhação. Era muito.
Por um instante, temi pelo pior, pela revolta e invasão do palco. Mas foi só um instante, um instante daqueles que nos soca o estômago e chama para a realidade. SAMBA É PAZ, MAS SAMBA É TAMBÉM UMA FILOSOFIA! O estrago já estava feito e só havia um jeito de fazer a tal "limonada", ou enxergar o copo como "meio cheio". Primeiro um, depois outro... vários integrantes foram se aproximando do Mestre Saúva: - Vamos voltar! - Vamos embora! - Não querem a gente aqui!
A decisão fica como um marco na história daquele povo. Seis de março de 2011, às margens da Lagoa do Mucury. O dia que o Garimpo, por meio de sua tropa de alegria e samba, declarou sua independência. "Eu sou garimpeiro... com muito orgulho... com muito amor...!!!" A escola optou por terminar o desfile com a bateria e o microfone em silêncio. Vez ou outra o grito de "Eu sou garimpeiro...". A plateia entendeu e aplaudiu. Os representantes da Secretaria de Cultura, na maior saia justa, tentavam explicar o inexplicável. Insensivelmente, tentavam jogar a culpa na Verde e Branco.
Acompanhei tudo, respirei o ar da humilhação que o samba havia sofrido. Mas também respirei e enchi os pulmões com a alegria do povo que retornava ao seio da sua comunidade. Pessoas nas calçadas, nas janelas, nos bares... admirando seus filhos, amigos e desconhecidos que subiam a rua e que a pouco começaram a escrever uma página nova no grande livro chamado Cidadania.
Parabéns, ESCOLA DE SAMBA IMPÉRIO VERDE E BRANCO! Não é mini-escola, é muito mais. Acho até que já podem pensar em pleitear o título de UNIVERSIDADE DO SAMBA.
Muitos vão perguntar: o quê que o Ramon estava fazendo lá? A resposta é, no mínimo, inusitada. Sou um dos autores da letra do samba-enredo apresentado pela escola. Fui convidado, ou melhor intimado, a comparecer para acompanhar o desfile. E digo uma coisa: valeu muito mais do que muitas aulas, muitas falas e muitos discursos que ouvi sobre cidadania, na universidade ou fora dela.
Alô, IMPÉRIO VERDE E BRANCO!!!
Ramon Lamar de Oliveira Junior
Biólogo, professor e co-autor de samba-enredo!