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domingo, 4 de agosto de 2013

Evolução, Deus, Religião e Religiosidade

(Texto publicado no blog originalmente em 24 de junho de 2012. Sendo republicado hoje para tentar nos trazer algum conforto ou entendimento.)

Com a publicação do vídeo sobre Seleção Natural (AQUI), é "natural" que alguns questionamentos sejam feitos. O principal deles é: - E Deus, como fica nessa história?
De forma semelhante ao Carlos Ruas, autor do referido vídeo, eu prefiro deixar a questão de "ser ou não ser por obra de Deus" de lado. Não se trata, pelo menos no meu caso, de uma negação dos aspectos relacionados à existência da divindade, do divino, do sobrenatural ou do espiritual. Trata-se apenas de uma questão prática: não é necessário recorrer a tais aspectos para se entender a evolução pelo mecanismo lento e gradual das mutações, recombinações, variações, luta pela sobrevivência, seleção natural e herança genética.
Particularmente prefiro discutir o ponto de vista filosófico sobre a participação do divino na origem da vida e na origem da alma do homem. Algo como o proposto pelo Papa Pio XII e pelo papa João Paulo II (confira o excerto abaixo, sugiro ler o link todo pois a opinião lá manifestada é bastante oposta a minha):
"O papa João Paulo II, no documento enviado à Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano em outubro de 1996, falou a favor da evolução. Na verdade, ele estava apenas reiterando a posição oficial do catolicismo. Considere os seguintes excertos: Em sua encíclica Humani generis [Sobre o Gênero Humano], de 1950, meu predecessor Pio XII já havia afirmado não haver oposição entre a evolução e a doutrina da fé a respeito do homem... Pio XII enfatizou este ponto essencial: se o corpo humano tem sua origem na matéria orgânica pré-existente, a alma espiritual é imediatamente criada por Deus... O exegeta e o teólogo precisam manter-se informados sobre... as ciências naturais... verdade não pode contradizer a verdade..."
Não tenho a menor dificuldade em conviver com a ideia e com as pessoas que admitem a intervenção de Deus na origem do primeiro ser vivo ou na origem da alma espiritual humana. Como conforto íntimo, ou conforto espiritual, são posições facilmente aceitas e compreensíveis. Conforto íntimo ou conforto espiritual é sempre necessário a nós todos (há os que acham que não, tudo bem... livre arbítrio). O complicado é querer desmontar a ciência com o uso da religião ou querer desmontar a religiosidade com o uso da ciência.
O que tenho observado, na verdade, é a luta em que se força por uma dicotomia artificial ciência x religião. Aliás, como disse no parágrafo anterior, observo nessa dicotomia o termo religião como sinônimo de "uma doutrina que lhe é oferecida pronta e acabada" e religiosidade como "o sentimento interior, íntimo, que cada pessoa pode ter em relação ao seu conforto espiritual".
A tal ideia de "doutrina pronta e acabada, dogmática" choca-se frontalmente com o entendimento de ciência onde a verdade é "a melhor explicação que temos para um determinado fato neste momento". A maioria dos textos anti-evolução cobram que não existe uma fórmula pronta, que Darwin isso e aquilo (puxa vida, Darwin morreu em 1882 e desde então muito foi acrescentado à sua teoria). Acho engraçado que diversos textos anti-evolucionistas venham falar de "elos não encontrados" e "evolução ao acaso".
Elos são encontrados todos os dias, a evolução do cavalo e até a evolução da baleia a partir de mamíferos terrestres hoje está superdocumentada.


Fósseis de ancestrais humanos então, nem se fala. É difícil passar um mês sem que um novo fóssil ou uma nova interpretação surja no estudo da evolução anatômica e cultural humana. Mas ainda insistem na fraude do "Homem de Piltdown" (sugiro ler AQUI para entender sobre o assunto; no meu entender essa fraude envolve muito mais uma questão de "superioridade racial" ou racismo, como preferirem, do que questões legitimamente científicas) e se esquecem de tantas fraudes cometidas em nome das religiões, no passado negro das Guerras Santas ou da Inquisição, ou no presente.
Quanto ao "acaso", basta lembrar que as mutações ocorrem sim ao acaso, mas são selecionadas na luta pela sobrevivência. Se um chimpanzé digitar aleatoriamente letras num computador, mas do lado dele existir alguém selecionando as melhores sílabas, é possível sim construir um poema em alguns anos. Essa é a questão: seleção natural não é ao acaso! E também não ocorreu em uma semana, mas tem ocorrido ao longo de 3,5 bilhões de anos. Somos (todas as espécies) o produto das possibilidades de adaptação às constantes mudanças sofridas pelo planeta, aos constantes nichos ecológicos que aparecem e desaparecem. Observem que frisei o "possibilidades de adaptação", pois nem sempre a adaptação é possível... aí extinção é um caminho real. Aliás, nem é bom entrar aqui no assunto de extinções, dinossauros e trilobitas. Ainda há aqueles que acreditam que é tudo isso é pura invencionice da ciência.
Finalizando, gostaria de deixar o seguinte: é importante que entendamos a ciência da evolução (com todas as suas vertentes atuais alicerçadas nos estudos do material genético, ancestralidade e sistemática), mas também é importante que se compreenda que as pessoas têm a liberdade de cultivar sua crença pessoal, sua religiosidade, seu conforto íntimo e espiritual. Não sei a fórmula, mas convivo muito bem com as duas vertentes em meu interior.
É necessário refletir sobre essas coisas e procurar o entendimento de que ninguém tem o direito de subjugar o outro usando do peso da ciência ou do peso da religião, não quero crer que esse seja o objetivo das coisas. A sincera religiosidade está no íntimo de cada um, ali é o templo sagrado onde a nossa verdade se manifesta em estado puro.

Ramon Lamar de Oliveira Junior

Já que o assunto começou por culpa do Carlos Ruas (ih... sobrou para você!), nada melhor do que terminar de forma bem humorada com uma tirinha dele.

Carlos Ruas, in http://www.umsabadoqualquer.com/wp-content/uploads/2009/03/650x401xtirinhas88.jpg.pagespeed.ic.eU6mdrn3jo.jpg

Um comentário:

  1. Ramon, acho que existe uma interpretação errônea dos textos bíblicos com relação à origem da humanidade, do universo. Não vejo o menor motivo para tal conflito e falo como católico. A existência de Deus não conflitua, com a ciência em nenhum ponto, ao contrário, depois de 3 anos, que estudei biologia à fundo, quando fiz veterinária na UFMG, só me fez ter mais fé, acho impossível tamanha perfeição, tanta complexidade sem a existência de um criador, na minha opinião, impossível chegarmos onde estamos sem a mão divina, não somos obra do acaso, mas de um universo orquestrado pelas mais maravilhosas leis .

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