Radônio: o gás radioativo invisível que pode causar câncer de pulmão
O papa Leão XIV não é fumante e foi operado de câncer no pulmão. Como assim?
O recente diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar do papa Leão XIV trouxe à discussão uma questão importante: o câncer de pulmão não é uma doença exclusiva dos fumantes. Em 13 de outubro de 2026, o pontífice, de 71 anos, foi submetido a uma cirurgia para a retirada do lobo inferior do pulmão direito, após a identificação de um tumor maligno. O procedimento foi considerado bem-sucedido e, segundo as informações divulgadas, sua recuperação evolui favoravelmente. Embora o tabagismo seja o principal fator de risco para o câncer de pulmão, Leão XIV não possui histórico conhecido de tabagismo. Entre os fatores ambientais capazes de provocar a doença está um agente pouco conhecido pela população: o radônio, um gás radioativo natural que pode se acumular dentro das próprias residências.
É importante esclarecer, desde o início, que não existem informações públicas que permitam atribuir o câncer do papa à exposição ao radônio. O diagnóstico, entretanto, oferece uma oportunidade para conhecer melhor esse agente carcinogênico, classificado entre as principais causas de câncer pulmonar em pessoas que nunca fumaram.
O que é o radônio e de onde ele vem?
O radônio, representado pelo símbolo químico Rn, é um elemento de número atômico 86, pertencente à família dos gases nobres da tabela periódica. É incolor, inodoro e insípido, características que tornam impossível perceber sua presença pelos sentidos humanos. Apesar de apresentar baixíssima reatividade química, o radônio possui uma propriedade perigosa: todos os seus isótopos são radioativos.
O isótopo mais importante para a saúde humana é o radônio-222, originado naturalmente do decaimento radioativo do rádio-226, que integra a cadeia de transformação do urânio-238. Como o urânio está presente, em diferentes concentrações, nas rochas e nos solos, a produção de radônio é um fenômeno natural e contínuo. Durante o decaimento do rádio-226 ocorre a emissão de uma partícula alfa (núcleo de um átomo de Hélio), formando-se o radônio-222:
²²⁶₈₈Ra → ²²²₈₆Rn + ⁴₂He
Diferentemente de muitos elementos radioativos que permanecem incorporados aos minerais, o radônio é gasoso e pode migrar através dos poros e das fissuras do terreno. Ao alcançar a superfície, mistura-se ao ar atmosférico, onde geralmente apresenta baixas concentrações devido à dispersão. O problema surge quando penetra em locais fechados, como casas, escritórios, escolas, cavernas e minas subterrâneas, especialmente em ambientes pouco ventilados.
Nas residências, o gás pode entrar por rachaduras nos pisos, fissuras nas fundações, juntas de construção e aberturas ao redor de tubulações. Sua concentração depende de fatores geológicos, das características da edificação e das condições de ventilação. Portanto, não é necessário morar próximo a uma usina nuclear ou a uma instalação que utilize materiais radioativos para estar exposto ao radônio.
Como o radônio provoca câncer?
O principal caminho de entrada do radônio no organismo é a inalação. Ao respirar o ar contendo esse gás, parte dele chega aos pulmões e posteriormente é eliminada pela expiração. Entretanto, o radônio-222, cuja meia-vida é de aproximadamente 3,8 dias, sofre decaimento radioativo e origina outros elementos, como polônio-218 e polônio-214. Esses produtos de decaimento podem aderir a partículas de poeira e aerossóis, que acabam depositados no revestimento das vias respiratórias.
O radônio e alguns de seus descendentes emitem partículas alfa, constituídas por dois prótons e dois nêutrons, equivalentes a núcleos de hélio. Embora essas partículas tenham baixo poder de penetração — uma folha de papel ou a camada superficial da pele consegue barrá-las —, apresentam elevado poder de ionização. Quando emitidas nas proximidades de células do tecido pulmonar, podem provocar danos importantes às moléculas biológicas, especialmente ao DNA.
Entre as consequências estão alterações nas bases nitrogenadas e rupturas em uma ou nas duas fitas da molécula de DNA. Se essas lesões não forem corretamente reparadas, podem surgir mutações que afetam genes responsáveis pelo controle do ciclo celular, pela reparação do material genético ou pela morte celular programada. O acúmulo dessas alterações pode favorecer a multiplicação descontrolada de células e o desenvolvimento de tumores malignos.
Trata-se, portanto, de um caso em que o perigo não está na toxicidade química do gás, mas na radiação ionizante produzida durante o decaimento radioativo. É um exemplo particularmente interessante porque mostra que um gás nobre, praticamente inerte do ponto de vista químico, pode ser biologicamente muito perigoso.
O que dizem os estudos epidemiológicos?
A relação entre a exposição ao radônio e o câncer pulmonar foi inicialmente reconhecida em trabalhadores de minas subterrâneas, especialmente mineradores de urânio. Posteriormente, estudos envolvendo populações expostas ao gás em suas próprias residências demonstraram que o risco não se limita às atividades profissionais.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que o radônio seja responsável por aproximadamente 3% a 14% dos casos de câncer de pulmão, dependendo das concentrações ambientais do gás e da prevalência do tabagismo na população considerada. Em muitos países, ele é apontado como a segunda principal causa de câncer pulmonar, atrás apenas do cigarro, e como uma das principais causas da doença entre pessoas que nunca fumaram.
O risco está relacionado à concentração do radônio no ar e ao tempo de exposição. Como os efeitos carcinogênicos podem aparecer muitos anos depois, uma pessoa pode permanecer exposta ao gás durante décadas sem apresentar sintomas. Além disso, a associação entre tabagismo e radônio é particularmente perigosa: a exposição simultânea aos dois agentes aumenta substancialmente a probabilidade de desenvolvimento de câncer.
Adenocarcinoma pulmonar: o tipo de câncer diagnosticado no papa
O adenocarcinoma é o subtipo mais frequente de câncer de pulmão e pertence ao grupo dos carcinomas de não pequenas células. Geralmente se desenvolve nas regiões periféricas dos pulmões, a partir de células epiteliais com diferenciação glandular, incluindo células relacionadas às estruturas alveolares. Uma característica importante é sua ocorrência relativamente frequente entre pessoas que nunca fumaram. Esse fato não significa que o tabagismo deixe de ser um fator de risco: significa apenas que existem outras causas e condições capazes de contribuir para o desenvolvimento da doença.
A exposição ao radônio está associada ao aumento do risco de diferentes tipos histológicos de câncer pulmonar, incluindo o adenocarcinoma. Entretanto, não existe uma alteração celular exclusiva que permita identificar, pelo simples exame do tumor, que determinado câncer foi provocado pelo radônio. Da mesma forma, não seria cientificamente correto concluir que o câncer de Leão XIV foi causado pelo gás apenas porque o pontífice não possui histórico conhecido de tabagismo. Outros fatores ambientais, como a poluição atmosférica e a exposição passiva à fumaça do cigarro, além de fatores genéticos e mutações espontâneas, também podem participar do processo de carcinogênese.
É possível evitar a exposição ao radônio?
Sim. Como não possui cheiro, cor ou sabor, a presença de radônio nos ambientes precisa ser identificada por equipamentos específicos. Sua concentração é medida em becqueréis por metro cúbico (Bq/m³), unidade que expressa a quantidade de decaimentos radioativos por segundo em determinado volume de ar.
A OMS recomenda que os países adotem, sempre que possível, o nível de referência de 100 Bq/m³ para ambientes internos. Quando esse valor não puder ser alcançado nas condições locais, recomenda-se que o nível de referência nacional não ultrapasse 300 Bq/m³. Esses valores não representam uma fronteira absoluta entre segurança e perigo, pois o risco de câncer pulmonar aumenta progressivamente com a exposição, mesmo em concentrações relativamente baixas.
Entre as medidas preventivas estão a vedação de fissuras nas fundações e nos pisos, a melhoria da ventilação e, nos imóveis com concentrações elevadas, a instalação de sistemas capazes de retirar o gás acumulado sob a construção antes que ele alcance os ambientes internos. Em determinadas regiões, características geológicas podem favorecer a liberação de maiores quantidades de radônio, tornando especialmente importante a realização de medições.
Um risco invisível que merece atenção
O diagnóstico de câncer pulmonar do papa Leão XIV chama a atenção para um problema que vai muito além do tabagismo. Ainda que não exista qualquer evidência pública de que a doença do pontífice esteja relacionada ao radônio, seu caso oferece uma oportunidade para discutir um carcinógeno ambiental silencioso, presente naturalmente no planeta e capaz de penetrar nos locais onde vivemos e trabalhamos.
A história do radônio também demonstra como conhecimentos aparentemente distantes podem se relacionar. Um elemento estudado na tabela periódica, produzido por transformações radioativas que acontecem no interior das rochas, pode chegar aos pulmões pela respiração e provocar alterações moleculares capazes de desencadear um câncer. Química, Física, Geologia e Biologia encontram-se, nesse caso, para explicar um problema concreto de saúde pública.
O radônio nos deixa uma lição importante: nem todos os riscos ambientais podem ser percebidos pelos sentidos, mas muitos deles podem ser identificados, compreendidos e reduzidos com o conhecimento científico.
Comentários
Postar um comentário
Clique em "Participar deste site" e siga o blog para sempre receber informações sobre atualizações. O seu comentário será publicado após ser lido pelo administrador do blog.