Editora Abril (Veja + Exame) e a eleição de 1994: coincidência editorial ou provocação política?
Duas capas publicadas na mesma semana, às vésperas da eleição presidencial de 1994, produziram uma combinação visual que permanece em minha memória há mais de três décadas. Teria sido apenas uma coincidência ou existiu uma intenção política por trás daquela composição?
Em 28 de setembro de 1994, a apenas cinco dias do primeiro turno da eleição presidencial brasileira, duas revistas da Editora Abril chegaram às bancas com capas bastante diferentes, mas que, quando colocadas lado a lado, produziam uma associação visual surpreendente.
A revista Exame, edição nº 567, apresentava uma grande fotografia de Fernando Henrique Cardoso, acompanhada da manchete: “Por que Fernando Henrique é melhor”.
Na mesma semana, a Veja, edição nº 1359, trazia a chamada “O elo perdido”, ilustrada com a reconstrução da aparência de um antigo representante da linhagem evolutiva humana, então denominado Australopithecus ramidus, atualmente classificado como Ardipithecus ramidus.
Capas das revistas Exame e Veja, datadas de 28 de setembro de 1994. A associação visual entre Fernando Henrique Cardoso e a reconstrução de um antigo hominínio motivou esta investigação histórica. Veja: edição nº 1359 — “O elo perdido”. Exame: edição nº 567 — “Por que Fernando Henrique é melhor”.
Uma lembrança de setembro de 1994
Lembro-me perfeitamente de ter observado aquelas duas revistas expostas lado a lado em mais de uma banca de jornais.
A disposição das imagens produzia um efeito curioso: Fernando Henrique Cardoso (à direita) parecia olhar para a reconstrução do antigo hominínio barbudo (à esquerda), cuja fisionomia, naquela representação, lembrava a de Luiz Inácio Lula da Silva, seu principal adversário na disputa presidencial. Ao mesmo tempo, ambos encaravam os frequentadores da banca de jornais.
A associação era especialmente provocativa porque uma das capas (e conteúdo) exaltava explicitamente Fernando Henrique, enquanto a outra apresentava uma figura que poderia ser interpretada, naquele contexto político, como uma caricatura depreciativa de Lula. Minha lembrança é também de que essa combinação teria provocado comentários na imprensa da época.
Mas existe uma diferença fundamental entre recordar um episódio e conseguir documentá-lo historicamente. Principalmente pela quase inexistência de arquivos digitais ou digitalizados da época. É justamente essa documentação que estamos tentando recuperar.
O que encontramos até agora?
Iniciamos uma investigação em arquivos jornalísticos, trabalhos acadêmicos e publicações sobre a cobertura da eleição presidencial de 1994.
Alguns achados merecem destaque.
1. As duas capas realmente existiram e foram publicadas na mesma data (28/09/1994).
Conseguimos identificar as edições, suas manchetes e reproduções das imagens. Portanto, não se trata de uma lembrança equivocada quanto à existência das capas.
2. A capa da Exame tinha conteúdo eleitoral explícito.
A manchete “Por que Fernando Henrique é melhor” não deixava dúvidas sobre a preferência expressa pela publicação naquele momento decisivo da campanha.
3. A capa da Veja já era comentada na imprensa em 26 de setembro de 1994. (Pois a data de capa é, em geral, uma data futura da semana.)
Um achado particularmente interessante foi localizado na Folha de S.Paulo, edição de segunda-feira, 26 de setembro de 1994. Na coluna intitulada “Vote no elo perdido!”, o humorista José Simão fazia referência direta à capa da Veja, brincando com a reconstrução do antigo hominínio e sua fictícia candidatura à Presidência da República.
Logo na abertura, escreveu:
“Finalmente na reta final a ‘Veja’ deu apoio explícito à minha candidatura: deram capa pro macaco.”
O humorista prosseguia associando a imagem à própria figura e, mais adiante, comentava os candidatos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
Essa publicação confirma que a capa da Veja, embora datada de 28 de setembro, já era conhecida pelo menos dois dias antes, como era habitual na circulação das revistas semanais. A referência é particularmente valiosa porque demonstra que a imagem já havia ingressado no universo do humor político durante a campanha presidencial. Entretanto, José Simão não menciona a capa da Exame nem a disposição conjunta das revistas nas bancas.
4. Há registros da utilização eleitoral da capa da Exame nas bancas.
No livro Batalhas Eleitorais, publicado em 2002, Chico Santa Rita relata a exposição de ampliações da capa da Exame em cartazes nas bancas. Trata-se de um indício importante da circulação e da visibilidade política daquela edição, embora não descreva a disposição conjunta com a Veja.
5. Publicações críticas à cobertura eleitoral também foram examinadas.
Consultamos referências da imprensa alternativa e de esquerda, incluindo Brasil Agora e a revista Princípios. Encontramos críticas ao comportamento da mídia durante a campanha, mas ainda não uma descrição inequívoca das duas capas colocadas lado a lado.
O que ainda não conseguimos comprovar?
Até o momento, não localizamos uma reportagem contemporânea que descreva explicitamente a justaposição das duas revistas nas bancas e a suposta semelhança entre o hominínio e Lula.
Também não encontramos documentos que demonstrem que as capas tenham sido planejadas conjuntamente pela Editora Abril.
A distinção é importante: a existência das capas está documentada; a disposição que observei é um testemunho pessoal; e a hipótese de uma provocação editorial deliberada continua sem comprovação.
A pesquisa nos jornais da época, particularmente na Folha de S.Paulo, ainda não foi esgotada. Parte dos acervos exige consulta visual às páginas originais, pois nem todas as referências são recuperáveis por pesquisas digitais de palavras-chave.
Um convite aos leitores
É aqui que gostaria de contar com a colaboração de quem acompanha este blog.
Alguém se lembra dessas duas capas expostas nas bancas em setembro de 1994?
Algum leitor recorda comentários de jornalistas, charges, colunas políticas ou reportagens que tenham mencionado essa combinação?
Colecionadores de jornais e revistas, pesquisadores da história da imprensa e pessoas que acompanharam aquela campanha eleitoral talvez possam ajudar a esclarecer o episódio.
Nosso interesse é recuperar um pequeno capítulo da história da comunicação política brasileira, separando aquilo que pode ser demonstrado documentalmente das interpretações e lembranças pessoais.
Se você possui alguma informação, fotografia, recorte de jornal ou referência bibliográfica sobre esse episódio, deixe um comentário nesta postagem.
Mais de trinta anos depois, talvez ainda seja possível descobrir se aquela composição visual foi apenas uma coincidência ou algo mais.
Esta postagem é preliminar e poderá ser atualizada à medida que novos documentos forem encontrados.
Ramon Lamar de Oliveira Junior



Comentários
Postar um comentário
Clique em "Participar deste site" e siga o blog para sempre receber informações sobre atualizações. O seu comentário será publicado após ser lido pelo administrador do blog.