E se os insetos desaparecessem? O planeta sobreviveria?

Abelhas, borboletas, formigas, besouros e até moscas desempenham funções ecológicas fundamentais. O desaparecimento desses pequenos animais provocaria consequências muito maiores do que imaginamos.

Imagine acordar em um mundo sem mosquitos, baratas, formigas, cupins ou qualquer outro inseto. Para muitas pessoas, isso pareceria uma excelente notícia. Não haveria picadas de pernilongos, infestações de baratas e tantos outros incômodos associados a esses animais. Entretanto, essa aparente tranquilidade esconderia um desastre ecológico. Os insetos constituem o grupo mais diversificado de animais conhecido e participam de processos fundamentais para a manutenção dos ecossistemas. Seu desaparecimento comprometeria a reprodução de inúmeras plantas, afetaria profundamente as cadeias alimentares e alteraria a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e até a estrutura dos solos.

As consequências seriam especialmente graves porque os insetos não desempenham uma única função ecológica. Ao longo de centenas de milhões de anos de evolução, estabeleceram relações de alimentação, competição, predação, parasitismo e mutualismo com incontáveis organismos. Algumas dessas relações são tão especializadas que a existência de uma espécie depende diretamente da presença de outra.

Sem insetos, muitas plantas deixariam de se reproduzir

A polinização é provavelmente o serviço ecológico mais conhecido realizado pelos insetos. Ao visitarem flores em busca de néctar ou pólen, abelhas, borboletas, mariposas, moscas e besouros podem transportar grãos de pólen entre flores, permitindo a fecundação e a formação de frutos e sementes. Segundo um relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), aproximadamente 75% dos tipos de culturas agrícolas destinadas à alimentação humana dependem, em algum grau, da polinização realizada por animais, principalmente insetos. Entre os exemplos estão culturas como maçã, café, cacau e maracujá. No Brasil, as mamangavas, grandes abelhas do gênero Xylocopa, destacam-se como polinizadoras naturais do maracujazeiro-amarelo. O cacau, por sua vez, é polinizado principalmente por pequenos dípteros da família Ceratopogonidae, especialmente do gênero Forcipomyia.

Um exemplo ainda mais impressionante dessa especialização ocorre nas figueiras do gênero Ficus. Aquilo que popularmente chamamos de figo não é um fruto simples, mas uma estrutura carnosa denominada sicônio, que abriga numerosas flores minúsculas em seu interior. Em condições naturais, a reprodução sexuada de muitas espécies de figueiras depende de pequenas vespas polinizadoras da família Agaonidae. As fêmeas dessas vespas, transportando pólen de outra figueira, penetram no sicônio através de uma pequena abertura denominada ostíolo. Lá dentro, realizam a polinização e, em muitas espécies, depositam seus ovos em parte das flores. Enquanto algumas flores originam sementes, outras abrigam o desenvolvimento das larvas. Quando as novas vespas completam seu desenvolvimento, as fêmeas deixam o sicônio transportando pólen e procuram outras figueiras receptivas, reiniciando o ciclo.

Trata-se de um dos exemplos mais extraordinários de coevolução e mutualismo obrigatório encontrados na natureza. Muitas espécies de figueiras dependem de uma ou poucas espécies específicas de vespas polinizadoras, enquanto estas dependem das estruturas reprodutivas da planta para completar seu ciclo de vida. O desaparecimento desses insetos poderia comprometer seriamente a reprodução sexuada de suas plantas hospedeiras. Uma ressalva interessante é que diversas variedades cultivadas da figueira-comum (Ficus carica) produzem figos comestíveis por partenocarpia, sem necessidade de polinização. Entretanto, isso não diminui a importância das vespas para a reprodução das figueiras que dependem delas.

Figo e polinização

Sem os insetos polinizadores, a produção de frutos e sementes de inúmeras espécies vegetais seria severamente prejudicada. Isso não significa, porém, que toda a agricultura desapareceria. Culturas como arroz, trigo e milho utilizam predominantemente a polinização pelo vento e continuariam capazes de se reproduzir. Outras plantas realizam autopolinização. O resultado seria uma redução importante na diversidade e na disponibilidade de numerosos produtos agrícolas, e não o desaparecimento imediato de todos os alimentos.

Cadeias alimentares, decomposição e fertilidade dos solos

Os insetos também representam uma importante fonte de alimento para inúmeros vertebrados e outros invertebrados. Aves, anfíbios, répteis, morcegos e diversas espécies de peixes dependem total ou parcialmente desses animais para sua alimentação. Muitas aves que apresentam dietas variadas quando adultas utilizam grandes quantidades de insetos na alimentação dos filhotes, especialmente durante a época reprodutiva. Nos ambientes aquáticos, larvas de efemerópteros, tricópteros, mosquitos e outros insetos integram as cadeias alimentares de rios, lagos e riachos. Se os insetos desaparecessem, numerosas espécies perderiam uma de suas principais fontes de energia. Algumas poderiam utilizar alimentos alternativos, mas outras sofreriam reduções populacionais ou poderiam desaparecer localmente. Como as relações alimentares constituem redes complexas, as consequências se propagariam para outros níveis tróficos.

Uma das atividades ecológicas menos valorizadas dos insetos é sua participação na decomposição de resíduos orgânicos. Larvas de moscas, besouros, cupins e outros insetos participam da fragmentação e do consumo de folhas mortas, madeira, cadáveres e fezes. Os besouros conhecidos como rola-bostas, por exemplo, enterram ou transportam excrementos de vertebrados, contribuindo para sua decomposição e para a incorporação de matéria orgânica ao solo. Essas atividades favorecem a ciclagem de nutrientes, a fertilidade e, em determinadas condições, a estrutura e a infiltração de água no solo. Naturalmente, a decomposição não seria interrompida completamente, pois fungos e bactérias continuariam realizando uma parte fundamental desse processo. Entretanto, a ausência dos insetos alteraria sua velocidade e dinâmica, especialmente em ambientes onde esses animais participam intensamente da fragmentação e do transporte da matéria orgânica.

A própria estrutura física dos solos sofreria modificações. Formigas, cupins e diversas larvas escavam galerias, constroem ninhos e transportam materiais entre diferentes camadas do terreno. Essas atividades, conhecidas como bioturbação, podem modificar a porosidade, a aeração, a infiltração da água e a distribuição de nutrientes. Em muitos ecossistemas tropicais, formigas e cupins representam componentes especialmente importantes da fauna do solo. Algumas espécies de formigas ainda participam da dispersão de sementes, transportando-as para seus ninhos ou outros locais, favorecendo a regeneração da vegetação.

Importância dos insetos

Outra consequência seria a alteração das relações naturais de controle populacional. Nem todos os insetos se alimentam de plantas. Muitos são predadores ou parasitoides de outros animais, inclusive de espécies consideradas pragas agrícolas. Joaninhas consomem pulgões, crisopídeos alimentam-se de pequenos artrópodes e numerosas vespas parasitoides desenvolvem suas larvas utilizando outros insetos como hospedeiros. Essas relações contribuem para o controle biológico natural das populações. Com o desaparecimento dos insetos, também desapareceriam diversas pragas pertencentes a esse grupo. Portanto, não seria correto afirmar que todas as pragas aumentariam. O que certamente ocorreria seria uma profunda reorganização das relações de predação, competição e parasitismo nos ecossistemas.

Os insetos estão realmente desaparecendo?

A preocupação com a redução das populações de insetos possui fundamentos científicos. Estudos realizados em diferentes regiões documentaram declínios expressivos na abundância e na diversidade de determinados grupos. Uma pesquisa publicada na revista Nature, em 2023, examinou dados de centenas de comunidades de insetos terrestres e encontrou perdas associadas especialmente ao declínio de espécies anteriormente abundantes. Entre os fatores relacionados à redução das populações estão a destruição e a fragmentação dos habitats, a intensificação agrícola, o uso inadequado de pesticidas, a poluição e as mudanças climáticas.

Entretanto, é necessário evitar generalizações. Não existem evidências suficientes para afirmar que todas as populações de insetos estejam diminuindo em todas as regiões do planeta. As tendências variam entre espécies, ambientes e regiões, e ainda faltam levantamentos de longo prazo, especialmente nos ecossistemas tropicais. O desaparecimento completo dos insetos é, portanto, uma hipótese extrema utilizada para compreender sua importância ecológica, não uma previsão científica.

A conservação desses animais depende principalmente da proteção de seus habitats. Preservar a vegetação nativa, manter áreas naturais conectadas, reduzir o uso desnecessário de inseticidas, controlar a iluminação artificial excessiva e promover a diversidade de plantas em jardins e espaços urbanos são medidas que podem favorecer muitas espécies. A proteção dos polinizadores é particularmente importante nos ambientes agrícolas, onde a presença de vegetação nativa próxima às lavouras pode proporcionar alimentação e locais de reprodução. Mesmo pequenas áreas verdes urbanas podem funcionar como abrigo e fonte de recursos para diferentes grupos de insetos.

Importância dos insetos.

Um planeta sem insetos não seria um planeta melhor

É verdade que muitas espécies de insetos transmitem doenças, prejudicam lavouras ou provocam desconfortos à população humana. Entretanto, reduzir a importância de um grupo tão diversificado aos danos provocados por algumas de suas espécies representa uma compreensão bastante limitada da Ecologia.

A vida no planeta não desapareceria instantaneamente se todos os insetos fossem extintos. Fungos, bactérias, plantas e numerosos animais continuariam existindo. Entretanto, grande parte dos ecossistemas passaria por profundas transformações, com perdas importantes de biodiversidade e de serviços ecológicos. Algumas associações evolutivas, como aquelas existentes entre figueiras e suas vespas polinizadoras, mostram que o desaparecimento de um organismo aparentemente insignificante pode comprometer também a existência de outros.

Talvez a grande lição seja esta: não podemos avaliar a importância de uma espécie apenas pelo benefício ou prejuízo imediato que ela representa para os seres humanos. A natureza é sustentada por uma complexa rede de interações, muitas das quais dependem justamente de organismos que costumamos ignorar ou desprezar.


P.S. – Comer figos seria proibido para veganos?

Em algumas espécies de figueiras, a vespa polinizadora penetra no figo e pode morrer em seu interior, sendo posteriormente decomposta por enzimas. Isso significaria que veganos não poderiam comer figos? Não necessariamente! Muitas variedades comerciais de figos desenvolvem-se sem polinização, por partenocarpia. Além disso, o veganismo não considera a participação natural de insetos na reprodução das plantas equivalente à exploração animal. Portanto, figos são geralmente considerados alimentos veganos.


Referências bibliográficas

  • IPBES (2016). The Assessment Report on Pollinators, Pollination and Food Production. Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

  • NICHOLS, E. et al. (2008). Ecological functions and ecosystem services provided by Scarabaeinae dung beetles. Biological Conservation, 141(6), 1461–1474.

  • WAGNER, D. L. (2020). Insect Declines in the Anthropocene. Annual Review of Entomology, 65, 457–480.

  • VAN KLINK, R. et al. (2023). Disproportionate declines of formerly abundant species underlie insect loss. Nature.

  • HERRE, E. A. et al. (2008). The evolution of fig trees and their associated mutualistic and antagonistic wasps. Proceedings of the National Academy of Sciences, 105, 11544–11549.

  • ASHTON, L. A. et al. (2025). Causes and consequences of insect decline in tropical forests. Nature Reviews Biodiversity.

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