Dia do Urubu: os injustiçados faxineiros da natureza!

Neste primeiro sábado de setembro é celebrado o Dia Internacional de Conscientização sobre os Urubus e Abutres, uma data criada para chamar a atenção para a importância ecológica e para a conservação dessas aves. Poucos animais carregam uma reputação tão ruim quanto os urubus. Associados à morte, à sujeira e ao lixo, aparecem frequentemente como símbolos de ambientes degradados. Do ponto de vista ecológico, porém, a história é quase o contrário: os urubus estão entre os mais eficientes agentes de limpeza da natureza e prestam um serviço ambiental que dificilmente percebemos enquanto eles estão presentes.

Cândido Urbano UrubuCândido Urbano Urubu
Um livro que eu adoro! Cândido Urbano Urubu, de Carlos Eduardo Novaes. A literatura também pode ajudar a mudar nosso olhar sobre animais que, apesar da má fama, desempenham funções essenciais nos ecossistemas.


A principal característica de sua alimentação é a necrofagia, isto é, o consumo de animais mortos. Quando uma carcaça aparece no ambiente, ela representa uma enorme quantidade de matéria orgânica e nutrientes, mas também pode servir de alimento e substrato para diversos organismos. Os urubus conseguem localizar rapidamente esses cadáveres e consumir grande parte deles, acelerando a retirada da matéria orgânica e sua reintegração aos ciclos naturais. Dessa maneira, participam diretamente da reciclagem de nutrientes nos ecossistemas.
Esse trabalho também possui importância sanitária. Quanto mais tempo uma carcaça permanece exposta, maiores são as oportunidades para que seja explorada por diferentes organismos, inclusive animais que vivem próximos às populações humanas, como cães e ratos. Ao consumir rapidamente cadáveres, os urubus ajudam a reduzir esse recurso disponível e podem diminuir oportunidades de disseminação de determinados agentes patogênicos. É como se prestassem gratuitamente um serviço permanente de limpeza ambiental.
Para realizar um trabalho que parece tão pouco apetitoso aos nossos olhos, essas aves apresentam adaptações extraordinárias. Seu sistema digestório consegue lidar com carne em avançado estado de decomposição e com uma grande quantidade de microrganismos. A elevada acidez do trato digestório, associada a outros mecanismos fisiológicos e à microbiota dessas aves, contribui para destruir muitos dos microrganismos ingeridos. A cabeça e parte do pescoço com poucas penas, característica marcante de muitas espécies, também representam uma vantagem: ao introduzir a cabeça em uma carcaça durante a alimentação, restos de sangue e tecidos aderem menos do que adeririam a uma região densamente coberta por penas.
Outra característica fascinante aparece em algumas espécies do gênero Cathartes. O urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura), por exemplo, possui um olfato excepcionalmente desenvolvido e consegue detectar substâncias liberadas durante a decomposição, utilizando-as para localizar alimento. Já o conhecido urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus), muito comum inclusive nos ambientes urbanos brasileiros, depende principalmente da visão e também pode aproveitar a presença e o comportamento de outros urubus para encontrar alimento.
No Brasil encontramos várias espécies, entre elas o urubu-de-cabeça-preta, o urubu-de-cabeça-vermelha, os urubus-de-cabeça-amarela e o magnífico urubu-rei (Sarcoramphus papa), uma das mais impressionantes aves necrófagas brasileiras. Apesar das diferenças de tamanho, aparência, distribuição geográfica e comportamento, todas fazem parte de uma importante comunidade de organismos responsáveis pelo aproveitamento da matéria orgânica proveniente de animais mortos.
Talvez a demonstração mais dramática da importância dessas aves tenha ocorrido no sul da Ásia. A partir da década de 1990, populações de algumas espécies de abutres sofreram um colapso extraordinário. Descobriu-se posteriormente que um dos principais responsáveis era o diclofenaco utilizado na medicina veterinária. Resíduos do medicamento permaneciam nos tecidos de bovinos tratados e, quando os abutres consumiam suas carcaças, podiam sofrer graves lesões renais e morrer. Algumas populações diminuíram em mais de 90%.
O desaparecimento dos abutres mostrou que retirar um componente de um ecossistema pode provocar consequências em cadeia. Carcaças que anteriormente eram rapidamente consumidas permaneceram disponíveis por mais tempo para outros animais. Populações de cães passaram a explorar parte desse recurso, aumentando também preocupações sanitárias, inclusive relacionadas à raiva. O episódio tornou-se um dos exemplos mais marcantes de como a redução de animais necrófagos pode produzir consequências ecológicas, econômicas e para a saúde pública.
Os urubus brasileiros também enfrentam ameaças. Atropelamentos, colisões, intoxicações, perseguição humana, alterações ambientais e ingestão de materiais inadequados presentes no lixo podem afetá-los. A presença frequente dessas aves em lixões e aterros, aliás, não significa que o lixo seja seu ambiente natural. Ela mostra principalmente a extraordinária capacidade desses animais de aproveitar recursos produzidos pelas atividades humanas.
Existe ainda uma contradição curiosa em nossa relação com essas aves. Reclamamos quando vemos urubus próximos ao lixo, mas raramente pensamos na quantidade de matéria orgânica que eles retiram do ambiente. Sentimos repulsa quando os vemos sobre uma carcaça, justamente no momento em que estão executando uma das funções ecológicas mais importantes que poderiam desempenhar.
Na natureza não existem profissões nobres ou indignas. Existem funções ecológicas. E poucas são tão necessárias quanto transformar a morte novamente em matéria disponível para a vida. Onde enxergamos uma carcaça, o urubu encontra alimento; onde enxergamos sujeira, ele realiza limpeza; e onde enxergamos morte, o ecossistema inicia mais uma etapa da reciclagem da vida.
Neste Dia Internacional de Conscientização sobre os Urubus e Abutres, portanto, talvez seja uma boa oportunidade para olhar essas aves com outros olhos. Elas podem não ter a beleza convencional de um beija-flor nem o prestígio de uma águia, mas desempenham silenciosamente um serviço ambiental indispensável.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Aranhas: Latrodectus geometricus (viúva-marrom)

Prepare-se para o Vestibular Seriado da UFMG: Provas Anteriores da UFMG!