A Independência do Brasil não foi pacífica: a guerra que o 7 de Setembro não conta
Certo dia, eu estava zapeando canais na televisão e fui parar na TV Senado. Estava começando um documentário sobre a Guerra de Independência da Bahia.
Eu pouco sabia sobre o assunto. Não me recordo de esse episódio ter sido abordado com maior profundidade em minhas aulas de História. Fiquei impactado pelo documentário, de verdade.
E hoje, 7 de setembro de 2026, resolvi pesquisar um pouco mais e preparar o texto seguinte (bastante resumido) para compartilhar com vocês uma perspectiva diferente — e ainda pouco conhecida por muitos brasileiros — a respeito da nossa Independência.
Aproveito para registrar aqui meu apreço e minha homenagem ao povo da Bahia, com toda a sua história de lutas, crenças, resistência e conquistas, mas que ainda hoje sofre com desigualdades profundamente ancoradas em uma história que muitos brasileiros desconhecem — ou nem procuram conhecer.
Enquanto o Brasil celebra, em 7 de setembro, a proclamação da Independência às margens do Ipiranga, a narrativa histórica tradicional costuma resumir o processo de emancipação política a um gesto protagonizado por D. Pedro e a uma separação negociada e relativamente pacífica. Essa imagem, porém, é incompleta. A Independência do Brasil envolveu confrontos armados, mobilização militar e participação de diferentes grupos sociais em várias regiões do território. Um de seus episódios mais importantes ocorreu na Bahia.
A Independência da Bahia: a guerra que o 7 de Setembro não conta
Diferentemente do gesto político protagonizado por D. Pedro em São Paulo, o processo de separação na Bahia transformou-se em uma guerra prolongada, que se estendeu de fevereiro de 1822 a julho de 1823. Em um contexto de disputa entre as Cortes portuguesas, as autoridades locais e os grupos favoráveis à separação, a Bahia tornou-se um dos principais focos de resistência ao controle português. As tropas portuguesas comandadas pelo general Ignácio Luís Madeira de Melo concentraram-se em Salvador, enquanto forças favoráveis à Independência se organizaram sobretudo no Recôncavo Baiano.
A reação não partiu apenas das elites agrárias locais. A mobilização envolveu diferentes grupos sociais, entre eles homens livres pobres, negros, pardos, libertos, indígenas, sertanejos e escravizados. Vilas do Recôncavo, com destaque para Cachoeira, Santo Amaro e São Francisco do Conde, organizaram forças políticas e militares que contribuíram para o cerco às tropas portuguesas na capital. O conflito incluiu combates terrestres e navais, entre eles a Batalha de Pirajá, em novembro de 1822.
Em 2 de julho de 1823, as forças portuguesas deixaram Salvador. Cerca de dez meses depois do Grito do Ipiranga, encerrava-se um dos capítulos decisivos das guerras de Independência. Por isso, o 2 de Julho permanece como a principal data cívica da Bahia e lembra que a construção da Independência brasileira não pode ser reduzida ao episódio ocorrido em São Paulo, em setembro de 1822.
Personagens populares e protagonismos frequentemente esquecidos
A resistência baiana também se destaca pela presença de personagens que ampliam a imagem tradicional de uma Independência protagonizada exclusivamente por homens pertencentes às elites.
Maria Quitéria de Jesus tornou-se uma das figuras mais conhecidas do conflito. Para conseguir lutar, apresentou-se inicialmente com roupas masculinas e integrou as forças favoráveis à Independência. Sua atuação militar foi reconhecida ainda durante sua vida, inclusive por D. Pedro.
Joana Angélica, religiosa do Convento da Lapa, em Salvador, morreu em fevereiro de 1822 ao tentar impedir a entrada de soldados portugueses no convento. Sua morte transformou-se em um dos símbolos da resistência baiana.
Maria Felipa de Oliveira, mulher negra associada à Ilha de Itaparica, foi consagrada pela memória popular baiana como uma das lideranças da resistência local. A tradição atribui a ela e a outras mulheres ações contra embarcações portuguesas e contra o abastecimento das tropas. Como parte de sua história foi preservada principalmente pela memória oral e por tradições posteriores, é prudente distinguir seu reconhecimento histórico e simbólico dos detalhes cuja documentação é mais limitada.
Além dessas personagens, milhares de combatentes anônimos participaram da guerra. Homens livres pobres, negros, pardos, indígenas, sertanejos, libertos e escravizados integraram, de diferentes maneiras, as forças que enfrentaram os portugueses. Essa participação ajuda a compreender por que a Independência foi muito mais complexa do que a cena consagrada do príncipe às margens do Ipiranga.
A Independência política não significou liberdade para todos
Há ainda uma contradição que não pode ser esquecida: a independência de um país não significou a liberdade de toda a sua população. O Brasil que se separou de Portugal continuou sendo uma sociedade escravista. Negros livres, libertos e escravizados participaram, de diferentes formas, das lutas pela emancipação política, mas a Independência não significou o fim da escravidão. O regime escravista sobreviveria por mais de seis décadas, até 1888.
Essa contradição revela os limites sociais da Independência. Parte das elites que desejava maior autonomia política e a separação de Portugal não pretendia transformar profundamente a estrutura econômica e social do país. Assim, a criação de um Estado brasileiro independente conviveu com a manutenção da escravidão e com profundas desigualdades.
O mito da “Independência sem lutas”
Relembrar a Independência da Bahia em torno do 7 de Setembro é uma forma de questionar a ideia de uma transição inteiramente pacífica. A construção posterior de uma narrativa nacional centrada no Grito do Ipiranga favoreceu uma imagem de ordem, continuidade e unidade em torno da monarquia. Essa narrativa deixou em segundo plano conflitos regionais e a participação de grupos populares.
A Bahia não foi um caso isolado. Também houve conflitos ligados à Independência no Piauí, onde ocorreu a Batalha do Jenipapo, além do Maranhão, do Pará e da região da Cisplatina. A incorporação das diferentes províncias ao novo Império não aconteceu de maneira automática após 7 de setembro de 1822.
O 2 de Julho lembra, portanto, que o 7 de Setembro, embora fundamental como marco político e simbólico, não encerrou o processo de Independência. Entre a declaração às margens do Ipiranga e a consolidação do novo Estado brasileiro existiram guerras, bloqueios, mortes e disputas políticas. Reconhecer essas lutas significa devolver visibilidade à participação de negros, indígenas, mulheres, sertanejos, libertos, escravizados e tantos outros personagens que foram apagados ou marginalizados pela imagem de uma Independência resolvida por um príncipe montado às margens de um riacho.
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