Sete Lagoas: Os trilhos que retiramos e o futuro que não enxergamos.

A possibilidade de voltar a ter um trem de passageiros ligando Sete Lagoas a Belo Horizonte desperta esperança e provoca uma reflexão sobre as escolhas que fizemos no passado. 



Em reportagem publicada em 30 de outubro de 2026, o jornal Sete Dias apresentou a mobilização pela retomada desse serviço, incluindo a ligação entre as duas cidades entre os corredores defendidos pelo Movimento pela Volta do Trem de Passageiros da Região Metropolitana de Belo Horizonte e Entorno. Ainda são necessárias definições técnicas e institucionais, sem data confirmada para o início das viagens. Mas o debate oferece uma boa oportunidade para pensarmos na ferrovia que tínhamos e na cidade que poderíamos ter construído a partir dela.

Durante muito tempo, os trens fizeram parte da paisagem, da economia e da vida cotidiana de Sete Lagoas. A chegada da Estrada de Ferro Central do Brasil, em 1896, ajudou a organizar o crescimento urbano e trouxe empregos, oficinas, comércio e circulação de pessoas. A estação e suas instalações constituíam um importante núcleo de atividades, com influência sobre os bairros e sobre a própria identidade setelagoana. A ferrovia transportava mercadorias e passageiros, sustentava famílias e estabelecia conexões com outras cidades.

A retirada dos trilhos do centro aconteceu por etapas, sobretudo no início da década de 1990. O material histórico sobre os museus municipais, disponibilizado pelo ipatrimônio e atribuído à Prefeitura, registra o fechamento da estação em 1991 e a retirada inicial dos trilhos em direção ao norte. O acesso ao sul permaneceu por mais tempo, atendendo às oficinas. O portal Estações Ferroviárias do Brasil situa a implantação do contorno ferroviário em 1992 e registra a passagem do último trem de passageiros pela antiga estação em 17 de dezembro daquele ano. As oficinas encerraram suas atividades em 1996.



É preciso reconhecer que a cidade daquele período era diferente da atual. A pressão do trânsito e as preocupações com mobilidade não tinham, na nossa percepção cotidiana, a dimensão que assumiram depois. Para quem precisava atravessar a linha e convivia com a passagem dos cargueiros, retirar os trens do centro podia parecer uma solução evidente. O próprio histórico municipal registra que, nos anos 1980, já havia sido construído um terminal de cargas na entrada sul da cidade, próximo ao início da MG-424, buscando reduzir os conflitos com pedestres e com o trânsito central. Havia, portanto, problemas concretos a resolver.

Mesmo reconhecendo esse contexto, considero que perdemos uma oportunidade. Poderíamos ter transferido o transporte de cargas para o contorno e preservado o corredor urbano para um futuro serviço de passageiros. Talvez não houvesse, naquele momento, demanda ou recursos para implantar um metrô de superfície. Isso precisaria ser demonstrado por estudos. Entretanto, reservar o espaço teria permitido que as gerações seguintes avaliassem essa possibilidade em condições mais favoráveis. Faltou-nos uma visão de longo prazo, capaz de considerar que a cidade continuaria crescendo e que suas necessidades de deslocamento também mudariam.

O valor daquele patrimônio estava, sobretudo, na existência de uma faixa contínua atravessando a cidade e alcançando sua área central. Os trilhos poderiam exigir substituição, assim como pontes, cruzamentos e outras estruturas poderiam precisar de adaptações. Ainda assim, conservar o caminho teria mantido uma base para planejar um transporte coletivo integrado aos bairros e aos ônibus. Hoje, a pergunta que fica é inevitável: quanto valeria dispor desse corredor para estudar uma alternativa aos deslocamentos que fazemos diariamente?

A ideia de aproveitar antigas estruturas ferroviárias para transportar passageiros tem exemplos no Brasil. Em Sobral, no Ceará, o projeto do VLT — veículo leve sobre trilhos — aproveitou parte do antigo ramal de Camocim, conforme registro da própria Prefeitura. Isso não prova que a mesma solução seria adequada a Sete Lagoas, mas mostra que a possibilidade merecia consideração. Em nossa cidade, a proposta chegou a aparecer formalmente na Câmara Municipal: em 2014, o vereador Dr. Euro apresentou o Pedido de Providência nº 701, solicitando a implantação de um metrô de superfície. O pedido registra a defesa da ideia, embora não demonstre sua viabilidade.

Também é necessário distinguir duas discussões que podem se complementar: o transporte dentro de Sete Lagoas e a ligação regional com Belo Horizonte. Um serviço urbano precisa conectar bairros, áreas de trabalho, comércio e outros destinos cotidianos. Já uma ligação regional deve considerar distâncias maiores, tempo de viagem e integração entre municípios. Um trabalho apresentado na Semana de Tecnologia Metroferroviária de 2019, por exemplo, propôs uma ligação entre Sete Lagoas e o Horto Florestal, em Belo Horizonte, passando por Prudente de Morais, Matozinhos, Pedro Leopoldo, Dr. Lund e Vespasiano. A escolha entre VLT, trem regional ou outra configuração precisa decorrer das características do percurso e da demanda.

A retomada desse debate deve ser recebida com interesse e acompanhada com atenção. Segundo a reportagem do Sete Dias, a mobilização atual busca aproveitar as discussões sobre a concessão ferroviária para abrir espaço ao transporte de passageiros. Há articulações e expectativas, mas ainda faltam estudos e acordos para definir como o serviço poderia funcionar. A população precisa participar dessa discussão e cobrar informações claras sobre o trajeto, as estações, a frequência, a integração com ônibus e as condições de acesso.

Olhar para a retirada dos trilhos como uma oportunidade perdida não significa ignorar os problemas que existiam naquele tempo. Significa reconhecer que o planejamento de uma cidade deve alcançar um horizonte maior que o da próxima obra ou do próximo mandato. Uma decisão pode aliviar uma dificuldade imediata e, ao mesmo tempo, eliminar uma possibilidade importante para o futuro. Sete Lagoas não pode recuperar integralmente as condições que tinha, mas pode aprender com essa experiência. Ao decidir o destino dos espaços e das estruturas que ainda possuímos, precisamos considerar também as necessidades de quem viverá aqui daqui a vinte, trinta ou cinquenta anos.

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Vídeo de onde foram extraídos os frames: https://www.youtube.com/watch?v=FwYnie2MmIw (Os trilhos da R.F.F.S.A. foram retirados do centro de Sete Lagoas, MG. O cinegrafista Jorge Concórdia registrou a partida do último trem de passageiros, com destino à capital mineira.)

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