Sete Lagoas: Os trilhos que retiramos e o futuro que não enxergamos.
A possibilidade de voltar a ter um trem de passageiros ligando Sete Lagoas a Belo Horizonte desperta esperança e provoca uma reflexão sobre as escolhas que fizemos no passado.
Durante muito tempo, os trens fizeram parte da paisagem, da economia e da vida cotidiana de Sete Lagoas. A chegada da Estrada de Ferro Central do Brasil, em 1896, ajudou a organizar o crescimento urbano e trouxe empregos, oficinas, comércio e circulação de pessoas. A estação e suas instalações constituíam um importante núcleo de atividades, com influência sobre os bairros e sobre a própria identidade setelagoana. A ferrovia transportava mercadorias e passageiros, sustentava famílias e estabelecia conexões com outras cidades.
A retirada dos trilhos do centro aconteceu por etapas, sobretudo no início da década de 1990. O material histórico sobre os museus municipais, disponibilizado pelo ipatrimônio e atribuído à Prefeitura, registra o fechamento da estação em 1991 e a retirada inicial dos trilhos em direção ao norte. O acesso ao sul permaneceu por mais tempo, atendendo às oficinas. O portal Estações Ferroviárias do Brasil situa a implantação do contorno ferroviário em 1992 e registra a passagem do último trem de passageiros pela antiga estação em 17 de dezembro daquele ano. As oficinas encerraram suas atividades em 1996.


Mesmo reconhecendo esse contexto, considero que perdemos uma oportunidade. Poderíamos ter transferido o transporte de cargas para o contorno e preservado o corredor urbano para um futuro serviço de passageiros. Talvez não houvesse, naquele momento, demanda ou recursos para implantar um metrô de superfície. Isso precisaria ser demonstrado por estudos. Entretanto, reservar o espaço teria permitido que as gerações seguintes avaliassem essa possibilidade em condições mais favoráveis. Faltou-nos uma visão de longo prazo, capaz de considerar que a cidade continuaria crescendo e que suas necessidades de deslocamento também mudariam.
O valor daquele patrimônio estava, sobretudo, na existência de uma faixa contínua atravessando a cidade e alcançando sua área central. Os trilhos poderiam exigir substituição, assim como pontes, cruzamentos e outras estruturas poderiam precisar de adaptações. Ainda assim, conservar o caminho teria mantido uma base para planejar um transporte coletivo integrado aos bairros e aos ônibus. Hoje, a pergunta que fica é inevitável: quanto valeria dispor desse corredor para estudar uma alternativa aos deslocamentos que fazemos diariamente?
A ideia de aproveitar antigas estruturas ferroviárias para transportar passageiros tem exemplos no Brasil. Em Sobral, no Ceará, o projeto do VLT — veículo leve sobre trilhos — aproveitou parte do antigo ramal de Camocim, conforme registro da própria Prefeitura. Isso não prova que a mesma solução seria adequada a Sete Lagoas, mas mostra que a possibilidade merecia consideração. Em nossa cidade, a proposta chegou a aparecer formalmente na Câmara Municipal: em 2014, o vereador Dr. Euro apresentou o Pedido de Providência nº 701, solicitando a implantação de um metrô de superfície. O pedido registra a defesa da ideia, embora não demonstre sua viabilidade.
Também é necessário distinguir duas discussões que podem se complementar: o transporte dentro de Sete Lagoas e a ligação regional com Belo Horizonte. Um serviço urbano precisa conectar bairros, áreas de trabalho, comércio e outros destinos cotidianos. Já uma ligação regional deve considerar distâncias maiores, tempo de viagem e integração entre municípios. Um trabalho apresentado na Semana de Tecnologia Metroferroviária de 2019, por exemplo, propôs uma ligação entre Sete Lagoas e o Horto Florestal, em Belo Horizonte, passando por Prudente de Morais, Matozinhos, Pedro Leopoldo, Dr. Lund e Vespasiano. A escolha entre VLT, trem regional ou outra configuração precisa decorrer das características do percurso e da demanda.
A retomada desse debate deve ser recebida com interesse e acompanhada com atenção. Segundo a reportagem do Sete Dias, a mobilização atual busca aproveitar as discussões sobre a concessão ferroviária para abrir espaço ao transporte de passageiros. Há articulações e expectativas, mas ainda faltam estudos e acordos para definir como o serviço poderia funcionar. A população precisa participar dessa discussão e cobrar informações claras sobre o trajeto, as estações, a frequência, a integração com ônibus e as condições de acesso.
Olhar para a retirada dos trilhos como uma oportunidade perdida não significa ignorar os problemas que existiam naquele tempo. Significa reconhecer que o planejamento de uma cidade deve alcançar um horizonte maior que o da próxima obra ou do próximo mandato. Uma decisão pode aliviar uma dificuldade imediata e, ao mesmo tempo, eliminar uma possibilidade importante para o futuro. Sete Lagoas não pode recuperar integralmente as condições que tinha, mas pode aprender com essa experiência. Ao decidir o destino dos espaços e das estruturas que ainda possuímos, precisamos considerar também as necessidades de quem viverá aqui daqui a vinte, trinta ou cinquenta anos.
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Vídeo de onde foram extraídos os frames: https://www.youtube.com/watch?v=FwYnie2MmIw (Os trilhos da R.F.F.S.A. foram retirados do centro de Sete Lagoas, MG. O cinegrafista Jorge Concórdia registrou a partida do último trem de passageiros, com destino à capital mineira.)


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