ELEIÇÕES 2026: COMO ESCOLHER BEM EM QUEM VOTAR? (Praticamente um livro, mas vale muito a pena ler!)
Pessoal, discuti a questão longamente com 3 Inteligências Artificiais, opinei e esclareci alguns pontos. Portanto não são posições exclusivamente minhas e nem exclusivamente delas, mas fiz as perguntas mais sensíveis que lembrei e concordo com grande parte do que foi gerado. Gostaria que as IAs fossem mais assertivas em alguns pontos, mas entendo suas limitações e bloqueios (afinal elas não votam... eu acho! rsrsrs). Vale a pena, divulguem para quem gosta de ler e sabe ler e interpretar.
Em 2026, o eleitor brasileiro terá diante de si uma das decisões políticas mais completas do nosso sistema eleitoral. Escolheremos presidente da República, governadores, dois senadores por estado e pelo Distrito Federal, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Não se trata, portanto, de escolher apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. Estaremos decidindo também a composição do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas, além dos governos estaduais. Essa distinção é importante porque frequentemente o debate eleitoral se concentra quase exclusivamente na eleição presidencial. Entretanto, um presidente não governa sozinho. Governadores administram áreas fundamentais da vida cotidiana; senadores e deputados aprovam ou rejeitam leis, fiscalizam governos, alteram o orçamento e podem modificar profundamente as propostas encaminhadas pelo Executivo. Por isso, talvez a primeira recomendação para o eleitor seja simples: não escolher todos os candidatos utilizando exatamente os mesmos critérios. Cada cargo exige competências diferentes.
Experiência política é uma qualidade ou um defeito?
Não existe uma resposta automática. A experiência política pode representar conhecimento do funcionamento do Estado, capacidade de negociação, compreensão do processo legislativo, conhecimento do orçamento público e habilidade para formar maiorias. Um presidente, governador ou parlamentar que desconhece completamente o funcionamento das instituições pode ter boas intenções e, ainda assim, encontrar enormes dificuldades para transformar propostas em políticas públicas. Por outro lado, experiência política não é sinônimo de competência, honestidade ou compromisso com o interesse público. Décadas ocupando cargos eletivos não constituem, por si mesmas, um certificado de qualidade. Da mesma forma, apresentar-se como alguém "de fora da política" também não deveria ser considerado automaticamente uma virtude. Um empresário, professor, médico, militar, sindicalista, advogado, trabalhador ou dirigente de organização social pode trazer experiências importantes para a vida pública, mas experiência profissional não garante capacidade administrativa ou política. O mais sensato talvez seja perguntar: o que essa pessoa realizou nas funções que já exerceu? Quem já ocupou cargo público administrou bem? Cumpriu promessas? Respeitou as instituições? Utilizou adequadamente recursos públicos? Quem nunca ocupou cargo eletivo demonstrou competência, equilíbrio e responsabilidade em sua atividade profissional ou comunitária? A biografia importa mais do que o rótulo de "político profissional" ou "novato".
Honestidade: condição necessária, mas suficiente?
A honestidade deve constituir um requisito básico para qualquer candidato. Entretanto, avaliar honestidade exige mais cuidado do que simplesmente aceitar acusações feitas por adversários ou declarações do próprio candidato. Em períodos eleitorais proliferam denúncias, vídeos recortados, informações fora de contexto e notícias falsas. Convém distinguir denúncia, investigação, processo, condenação e condenação definitiva. São situações juridicamente diferentes. Também é importante examinar transparência patrimonial, relações com grupos econômicos, utilização de recursos públicos, histórico administrativo e comportamento diante dos mecanismos de fiscalização. Mas honestidade, embora indispensável, não basta. Um governante pode ser pessoalmente honesto e, ao mesmo tempo, administrar mal. Pode escolher equipes incompetentes, adotar políticas desastrosas ou ser incapaz de negociar democraticamente. Portanto, uma avaliação razoável deveria combinar pelo menos três dimensões: integridade, competência e projeto político.
Presidente: que país o candidato pretende construir?
Na eleição presidencial, talvez seja insuficiente escolher apenas pela simpatia ou antipatia despertada pelo candidato. O presidente influencia a política econômica, as relações internacionais, as políticas sociais, a administração federal e a formulação do orçamento. Também indica ministros de tribunais superiores, dirigentes de órgãos públicos e outras autoridades, algumas das quais dependem da aprovação do Senado. Assim, vale perguntar quais são as propostas concretas para educação, saúde, segurança, infraestrutura, ciência, tecnologia, meio ambiente, emprego, tributação, previdência e redução das desigualdades. Também é importante avaliar como essas propostas serão financiadas. Prometer benefícios sem indicar de onde virão os recursos é tão problemático quanto defender cortes generalizados sem explicar quais serviços serão reduzidos. Governar significa fazer escolhas, e quase toda escolha econômica produz ganhadores e perdedores.
Governador: atenção ao que realmente depende do estado
Na escolha do governador, o eleitor deve observar especialmente aquilo que está sob responsabilidade ou forte participação estadual. Segurança pública, polícias estaduais, sistema prisional, ensino médio público estadual, universidades estaduais onde existem, hospitais e redes estaduais de saúde, rodovias estaduais, infraestrutura e desenvolvimento regional são exemplos importantes. Nesse caso, experiência administrativa pode pesar bastante. Vale observar como o candidato pretende financiar seus programas, como se relacionará com os municípios e com o governo federal e quais resultados apresentou quando ocupou anteriormente funções executivas. O eleitor deve desconfiar tanto do candidato que promete resolver problemas que não são atribuição do governador quanto daquele que utiliza a divisão de competências como desculpa para não apresentar propostas.
Senado: talvez uma das escolhas mais subestimadas
Em 2026, cada eleitor poderá escolher dois candidatos ao Senado. É uma decisão particularmente importante porque o mandato de senador dura oito anos. O Senado não apenas participa da elaboração das leis. Entre suas atribuições exclusivas está aprovar ou rejeitar diversas indicações feitas pelo presidente da República, inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal, além de outras autoridades. Também possui atribuições relevantes em matéria econômica, financeira e institucional e participa dos processos de impeachment previstos pela Constituição. Portanto, ao escolher um senador, o eleitor deveria pensar além das questões locais. Esse candidato compreende questões nacionais? Demonstra independência intelectual? Tem capacidade de analisar leis complexas? Respeita as instituições democráticas? Saberá fiscalizar um governo inclusive quando esse governo for comandado pelo partido que apoiou? Um senador excessivamente subordinado ao presidente pode deixar de cumprir adequadamente sua função fiscalizadora. Mas uma oposição que rejeite sistematicamente qualquer proposta apenas porque veio do governo também pode prejudicar o funcionamento do país. Independência não significa ausência de posição política. Significa capacidade de apoiar aquilo que considera adequado e rejeitar aquilo que considera prejudicial.
Deputado federal: não é apenas um representante da sua cidade
A Câmara dos Deputados participa da elaboração das leis nacionais, da aprovação do orçamento, da fiscalização do Executivo e de mudanças constitucionais. Ao escolher um deputado federal, portanto, é importante observar suas posições sobre questões nacionais. Como votou — ou como afirma que votará — em temas relacionados a direitos trabalhistas, previdência, tributação, saúde, educação, meio ambiente, segurança, investimentos públicos e direitos individuais? No caso dos candidatos à reeleição, existe uma vantagem para o eleitor: há um histórico de votações que pode ser consultado. Isso permite comparar discurso e comportamento. Um parlamentar pode afirmar durante a campanha que defende determinada categoria e votar repetidamente contra seus interesses. Outro pode defender medidas impopulares porque acredita que sejam necessárias. O importante é que o eleitor conheça essas escolhas e decida se concorda com elas.
Deputado estadual: o poder mais próximo do governo estadual
Deputados estaduais elaboram leis dentro das competências dos estados, fiscalizam o governador, participam da definição do orçamento estadual e integram comissões que acompanham diferentes áreas da administração pública. Aqui também é importante verificar se o candidato apresenta propostas compatíveis com o cargo. Promessas sobre política externa, legislação penal federal ou previdência nacional, por exemplo, não pertencem ao campo normal de atuação de um deputado estadual. Conhecer as atribuições do cargo é uma das melhores formas de identificar promessas eleitorais vazias.
Classes dominantes, trabalhadores e distribuição da riqueza
Toda política econômica produz efeitos diferentes sobre diferentes grupos sociais. Uma redução de determinado imposto pode favorecer empresas, consumidores ou ambos. Um aumento de tributos pode financiar políticas sociais, mas também produzir efeitos sobre investimentos e preços. Mudanças nas leis trabalhistas podem aumentar a flexibilidade das empresas, mas também reduzir garantias dos trabalhadores. Programas de transferência de renda podem reduzir pobreza e estimular consumo, mas precisam de financiamento sustentável. Por isso, talvez seja simplista perguntar apenas se determinado candidato é "a favor dos ricos" ou "a favor dos pobres". Uma questão mais esclarecedora seria: Quem ganha e quem perde com as políticas propostas por esse candidato? É legítimo que empresários defendam seus interesses. Também é legítimo que trabalhadores, aposentados, servidores, agricultores, profissionais liberais e outros grupos defendam os seus. A função da política democrática é justamente administrar interesses muitas vezes conflitantes. O eleitor pode avaliar se determinado projeto concentra ou distribui renda, estimula investimentos produtivos, protege excessivamente determinados setores, amplia oportunidades, combate a pobreza e oferece possibilidades reais de ascensão social.
Devo votar pensando no que o candidato fará por mim ou no que fará pela população?
Talvez esta seja uma das perguntas mais importantes de uma eleição. É natural que o eleitor considere sua própria realidade. Quem trabalha deseja emprego, salário e segurança. Quem possui uma empresa preocupa-se com impostos, crédito e ambiente econômico. O aposentado observa a Previdência. Pais preocupam-se com escolas. Quem depende do SUS tem interesse direto na saúde pública. Portanto, considerar os próprios interesses não é necessariamente egoísmo. Mas uma eleição nacional ou estadual possui uma dimensão que ultrapassa o benefício individual. Ao entregar poder a um representante, não estamos contratando alguém exclusivamente para defender nossas conveniências pessoais. Estamos escolhendo alguém que decidirá também sobre a vida de milhões de pessoas que vivem em circunstâncias completamente diferentes das nossas. Talvez seja útil, portanto, acrescentar uma segunda pergunta à primeira: Além do que este candidato poderá fazer por mim, o que as políticas que ele defende poderão fazer pela população brasileira? E existe ainda uma terceira questão particularmente importante: O que acontecerá com aqueles que mais dependem do Estado se essas propostas forem executadas?
Uma pessoa de renda elevada pode substituir determinados serviços públicos por alternativas privadas. Pode contratar plano de saúde, pagar uma escola particular, adquirir previdência complementar ou utilizar transporte próprio. Milhões de brasileiros não possuem essas alternativas. Para essas pessoas, a qualidade da escola pública, do SUS, da Previdência, do transporte, da assistência social e da segurança pública pode determinar concretamente suas possibilidades de vida. Isso não significa que toda política estatal seja boa nem que aumentar gastos públicos seja sempre a solução. Significa reconhecer que o impacto de uma política pública não é igual para todos. Uma redução na qualidade de determinado serviço público pode ser inconveniente para quem possui alternativas e devastadora para quem não as possui. Talvez o voto democrático mais consciente consiga conciliar três perspectivas: meus interesses legítimos, os interesses gerais do país e as necessidades daqueles que possuem menos condições de se proteger individualmente das falhas do Estado.
Políticas sociais: gasto ou investimento?
Saúde pública, educação, habitação, assistência social, previdência e programas de transferência de renda frequentemente aparecem no centro das disputas eleitorais. Há diferentes concepções legítimas sobre a extensão dessas políticas e sobre a participação do Estado na economia. Entretanto, uma análise séria deveria evitar dois extremos. O primeiro é considerar todo gasto social desperdício. Educação, saúde, saneamento e combate à pobreza podem produzir benefícios econômicos e sociais de longo prazo. O segundo é imaginar que qualquer expansão de política social é automaticamente positiva, independentemente de eficiência, focalização, avaliação de resultados ou capacidade financeira do Estado. A pergunta não deveria ser apenas quanto gastar, mas também como gastar, para quem, com quais resultados e com qual fonte de financiamento.
Trabalhadores e aposentados
Direitos trabalhistas e previdenciários merecem atenção especial porque afetam dezenas de milhões de brasileiros. Ao analisar candidatos, é razoável verificar seu posicionamento histórico sobre salário mínimo, aposentadorias, regras previdenciárias, formalização do trabalho, proteção contra acidentes, negociação coletiva e novas formas de contratação. Também é necessário reconhecer um problema real: a Previdência precisa permanecer financeiramente sustentável diante das mudanças demográficas. Defender aposentados sem discutir sustentabilidade pode gerar dificuldades futuras. Defender equilíbrio fiscal ignorando a proteção de idosos e trabalhadores também pode produzir injustiça social. O debate responsável precisa enfrentar simultaneamente as duas questões.
Jornada de trabalho também é uma decisão política
Outro tema diretamente relacionado à escolha de deputados, senadores e presidente é a duração da jornada de trabalho. A Constituição brasileira admite atualmente jornada normal de até 44 horas semanais, respeitadas as demais regras trabalhistas. Em 2026, porém, encontra-se em discussão uma mudança importante. A chamada proposta do fim da escala 6x1 foi aprovada pela Câmara dos Deputados e encaminhada ao Senado. O texto aprovado prevê a redução da jornada máxima semanal para 40 horas e dois dias de descanso, sem redução salarial, dentro de uma transição prevista na proposta. Em agosto de 2026, a PEC continuava em tramitação no Senado.
O tema permite posições diferentes e legítimas. Quem defende a mudança argumenta que jornadas menores podem melhorar qualidade de vida, convivência familiar, saúde física e mental e equilíbrio entre trabalho e descanso. Quem manifesta preocupação com a mudança aponta possíveis impactos sobre custos de empresas, especialmente pequenos negócios e setores que funcionam durante muitos dias da semana, além da necessidade de reorganização das escalas e contratação de trabalhadores. Portanto, a pergunta eleitoral não deveria ser apenas: "Você é a favor ou contra a escala 6x1?" Seria interessante perguntar também: Qual jornada considera adequada? Como ocorrerá a transição? Haverá redução salarial? Como pequenos empregadores serão afetados? Como ficam comércio, saúde, restaurantes, hotéis, transportes e outros serviços contínuos? Qual papel terá a negociação coletiva? A proposta aprovada na Câmara prevê justamente redução da jornada sem redução dos salários e dois dias de descanso, estando agora sujeita à análise do Senado. Esse é um bom exemplo de assunto no qual a escolha dos deputados e senadores pode ter impacto tão concreto sobre a vida do trabalhador quanto a escolha presidencial.
Salário mínimo: apenas corrigir a inflação ou proporcionar ganho real?
Outro critério eleitoral importante é a política para o salário mínimo. Existem pelo menos duas questões diferentes. A primeira é preservar o poder de compra. Se os preços aumentam e o salário permanece igual, o trabalhador fica efetivamente mais pobre, ainda que continue recebendo nominalmente o mesmo valor. A segunda é decidir se o salário mínimo deve ter aumento real, isto é, crescimento acima da inflação. A legislação estabelecida em 2023 criou uma política de valorização que considera a inflação medida pelo INPC e o crescimento real do PIB de dois anos anteriores. Posteriormente, a legislação fiscal estabeleceu limites para o ganho real entre 2025 e 2030. Em 2026, o salário mínimo nacional foi fixado em R$ 1.621.
Novamente, existem argumentos econômicos que precisam ser considerados em conjunto. Um salário mínimo maior aumenta diretamente a renda de milhões de trabalhadores e pode estimular o consumo, especialmente porque famílias de menor renda tendem a gastar grande parte do que recebem. Por outro lado, aumentos precisam ser analisados em relação à produtividade, aos custos das empresas, às contas públicas e ao fato de vários benefícios previdenciários e sociais estarem vinculados ao piso nacional. Por isso, em vez de perguntar simplesmente se determinado candidato "é a favor do aumento do salário mínimo", talvez seja melhor perguntar: Qual política permanente de reajuste ele defende? Apenas reposição da inflação? Inflação mais crescimento econômico? Algum critério relacionado à produtividade? Qual impacto essa política produzirá sobre emprego, renda e contas públicas? Essa discussão permite ao eleitor comparar projetos de longo prazo, em vez de avaliar apenas o valor anunciado em determinado ano.
Aposentadorias: reposição da inflação, ganho real e preservação do poder de compra
A discussão é especialmente importante para aposentados e pensionistas. Parte significativa dos benefícios previdenciários possui valor equivalente ao salário mínimo e, portanto, acompanha a evolução do próprio piso nacional. Entretanto, benefícios superiores ao salário mínimo seguem regras de reajuste diferentes. Isso produz uma questão política relevante: aposentadorias devem apenas preservar seu poder de compra ou também participar de ganhos reais da economia? Não existe resposta puramente técnica para essa pergunta. Trata-se também de uma escolha distributiva. Conceder ganhos acima da inflação melhora a renda dos aposentados, mas aumenta os gastos previdenciários. Limitar o reajuste à inflação ajuda a conter o crescimento dessas despesas, mas significa que aposentados que recebem acima do piso podem não participar do crescimento real da renda nacional na mesma proporção de trabalhadores alcançados por políticas de valorização do mínimo.
Por isso, o eleitor deveria observar o posicionamento dos candidatos sobre: idade e regras de aposentadoria; reajuste dos benefícios; preservação do poder de compra; eventual ganho real; financiamento da Previdência; combate a fraudes; proteção das aposentadorias menores; e sustentabilidade do sistema diante do envelhecimento da população. A questão não deveria ser apresentada como se existissem apenas duas alternativas extremas: abandonar aposentados ou ignorar completamente o equilíbrio das contas previdenciárias. É possível — e necessário — discutir simultaneamente proteção social e sustentabilidade financeira.
Trabalho e aposentadoria também revelam prioridades políticas
Talvez exista uma pergunta particularmente útil para comparar candidatos: Quando existe conflito entre redução de custos e proteção do trabalhador, como esse candidato costuma se posicionar? Isso não significa que a defesa das empresas seja ilegítima. Empresas precisam sobreviver, investir e contratar. Da mesma forma, proteger trabalhadores não significa ignorar produtividade e capacidade econômica. A questão eleitoral está justamente em identificar onde cada candidato procura estabelecer o equilíbrio. Jornada de trabalho, salário mínimo, férias, aposentadorias, previdência, trabalho por aplicativos, terceirização e proteção contra acidentes não são assuntos abstratos. São decisões legislativas que afetam diretamente a maneira como milhões de pessoas trabalham e envelhecem. Por isso, quando o eleitor escolhe deputados e senadores, está escolhendo também quem decidirá sobre essas regras.
Meio ambiente e mudanças climáticas também são questões eleitorais
Durante muito tempo, questões ambientais foram tratadas como assunto secundário ou preocupação restrita a ambientalistas. Hoje é cada vez mais difícil separar meio ambiente de economia, saúde, agricultura, energia, abastecimento de água e qualidade de vida. Mudanças climáticas aumentam a importância de discutir adaptação das cidades, prevenção de desastres, enchentes, secas, ondas de calor, queimadas, disponibilidade hídrica e proteção de populações vulneráveis. O eleitor pode perguntar: O candidato reconhece os problemas ambientais demonstrados pela ciência? Apresenta propostas de prevenção e adaptação? Como pretende conciliar conservação ambiental, produção agrícola, mineração, geração de energia e desenvolvimento econômico? Aqui também é necessário fugir de falsas escolhas. Desenvolvimento econômico e proteção ambiental não precisam ser necessariamente objetivos incompatíveis. Ao mesmo tempo, simplesmente declarar-se defensor do meio ambiente não resolve problemas concretos. É preciso observar políticas, metas, fiscalização, planejamento territorial, saneamento, gestão das águas, combate ao desmatamento ilegal e preparação das cidades para eventos climáticos extremos. O Brasil, por possuir uma das maiores biodiversidades do planeta, grande disponibilidade de recursos naturais e enorme importância na produção de alimentos, possui responsabilidades e oportunidades particulares nessa área.
Ciência e educação: pensar além de quatro anos
Algumas políticas produzem resultados rapidamente. Educação, ciência e tecnologia geralmente exigem décadas. Isso cria uma dificuldade política: governantes podem ser tentados a privilegiar obras e programas cujos resultados aparecem durante seus próprios mandatos. Mas nenhum país consegue sustentar desenvolvimento econômico de longo prazo sem educação básica de qualidade, formação profissional, universidades, pesquisa científica e capacidade tecnológica. Ao avaliar um candidato, vale perguntar qual importância atribui à alfabetização, à educação básica, à formação e valorização dos professores, ao ensino técnico, às universidades, à pesquisa e à inovação. Também é importante observar sua relação com o conhecimento científico. Governantes podem e devem questionar políticas públicas e ouvir diferentes setores da sociedade. Mas decisões sobre vacinas, epidemias, mudanças climáticas, agricultura, energia e inúmeras outras questões não deveriam simplesmente ignorar evidências científicas disponíveis. Investir em ciência também é uma questão de soberania. Um país que não produz conhecimento torna-se progressivamente dependente daqueles que o produzem.
Segurança pública: soluções simples para problemas complexos?
Segurança é uma das preocupações mais legítimas da população brasileira. O eleitor, porém, deveria desconfiar de propostas excessivamente simples para um problema extremamente complexo. Combater criminalidade envolve policiamento, investigação, inteligência, controle das fronteiras, sistema penitenciário, combate às organizações criminosas e lavagem de dinheiro, funcionamento da Justiça e prevenção social. Há divergências legítimas sobre políticas de armas, estratégias policiais, legislação penal e formas de punição. O eleitor pode comparar propostas e resultados. Reduziu-se efetivamente a criminalidade onde determinada política foi aplicada? Houve redução de homicídios? Melhorou a investigação? As organizações criminosas perderam poder? Houve respeito aos direitos dos cidadãos? Uma política de segurança deve ser avaliada não apenas pelo rigor de seu discurso, mas principalmente pelos resultados obtidos.
Segurança pública: quem deve combater facções, milícias e narcotráfico?
Quando se fala em segurança pública, uma das maiores preocupações atuais é o crescimento de organizações criminosas capazes de atuar em vários estados, controlar territórios, movimentar grandes volumes de dinheiro, traficar drogas e armas, infiltrar-se em atividades econômicas legais e, em determinados casos, estabelecer estruturas de poder paralelas. Nesse conjunto estão facções criminosas, organizações do narcotráfico e milícias. É importante compreender que, no modelo constitucional brasileiro atual, não existe um único órgão responsável por combater todo o crime organizado. A Constituição distribui competências entre diferentes instituições. As polícias civis dos estados exercem funções de polícia judiciária e investigam grande parte dos crimes comuns ocorridos dentro dos respectivos territórios. As polícias militares atuam principalmente no policiamento ostensivo e na preservação da ordem pública. Já a Polícia Federal possui competência, entre outras situações, para investigar crimes contra interesses da União e infrações de repercussão interestadual ou internacional que exijam repressão uniforme.
Essa divisão torna-se especialmente relevante diante do crime organizado moderno. Uma organização criminosa pode comandar pontos de venda de drogas em uma cidade, receber armas vindas de outro estado, utilizar rotas internacionais, lavar dinheiro por meio de empresas aparentemente legais e manter integrantes dentro de presídios localizados em diferentes unidades da Federação. Nesse tipo de situação, imaginar o combate exclusivamente como responsabilidade da polícia de um determinado estado pode ser insuficiente. O próprio Sistema Único de Segurança Pública, o SUSP, criado em 2018, procura responder a esse problema por meio da integração das instituições. Sua legislação prevê atuação conjunta, coordenada e sistêmica entre órgãos de segurança da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, incluindo compartilhamento de informações e operações integradas. Portanto, uma pergunta importante ao candidato não deveria ser simplesmente: "Você vai combater o crime?" Provavelmente todos responderão que sim. Perguntas mais úteis seriam: Como pretende integrar as forças policiais? Como pretende enfrentar organizações que atuam em vários estados? Qual será a política de inteligência policial? Como combaterá a lavagem de dinheiro das organizações criminosas? Como pretende impedir que facções comandem atividades criminosas de dentro dos presídios? Como combaterá tráfico de armas e drogas nas fronteiras? Como enfrentará milícias e grupos que controlam territórios e atividades econômicas?
Há ainda um ponto frequentemente esquecido: prender integrantes de organizações criminosas é apenas uma parte do problema. Organizações desse tipo sobrevivem porque possuem dinheiro, armas, comunicação, logística, redes empresariais, corrupção e capacidade de substituir rapidamente integrantes presos. Por isso, combater crime organizado exige também investigação financeira, inteligência, bloqueio de patrimônio, controle das fronteiras, combate à lavagem de dinheiro e cooperação entre diferentes órgãos públicos. A capacidade de identificar e destruir a estrutura financeira de uma organização criminosa pode ser tão importante quanto a realização de prisões.
A segurança pública poderá mudar constitucionalmente?
Sim. E esse é um tema que merece atenção especial do eleitor em 2026. O SUSP já existe por lei desde 2018, mas tramita uma mudança de natureza constitucional: a PEC 18/2025, conhecida como PEC da Segurança Pública. Ela propõe alterações em diferentes artigos da Constituição relacionados às competências da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios em segurança pública. A proposta já passou pela Câmara dos Deputados e foi encaminhada ao Senado; em agosto de 2026, encontrava-se na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado. Entre os temas abrangidos estão a integração das políticas de segurança, definição de competências, inteligência, atuação contra organizações criminosas e milícias, funcionamento do SUSP, fundos de segurança pública e cooperação entre diferentes entes federativos.
Portanto, existe uma diferença importante entre dizer que "segurança pública é responsabilidade dos estados" e concluir que o governo federal não possui responsabilidades nessa área. A estrutura brasileira é compartilhada. Os estados possuem papel central no policiamento cotidiano e na investigação da criminalidade comum, mas a União possui competências próprias, mantém a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal, atua nas fronteiras e em crimes federais e pode participar da formulação e coordenação de políticas nacionais. O eleitor deveria observar, portanto, não apenas qual candidato promete ser "mais duro contra o crime", mas qual modelo institucional propõe para enfrentá-lo. Especialmente quando organizações criminosas ultrapassam fronteiras municipais e estaduais, a integração entre União e estados pode ser decisiva. Isso torna as escolhas para presidente, governador, deputado federal e senador diretamente relacionadas à política de segurança. O Executivo implementa políticas e administra instituições. O Congresso decide sobre mudanças nas leis e na própria Constituição.
Segurança não deve ser medida apenas pelo discurso
Questões de segurança produzem forte impacto emocional. É compreensível. Pessoas submetidas à violência desejam respostas rápidas. Mas justamente por isso o eleitor deveria diferenciar frases de efeito de políticas capazes de produzir resultados. Aumentar penas pode ser adequado para determinados crimes, mas, isoladamente, não substitui investigação eficiente. Prender criminosos é necessário, mas um sistema penitenciário no qual organizações criminosas continuam comandando atividades externas pode transformar a prisão em parte da estrutura da própria organização. Aumentar o número de policiais pode ser necessário, mas policiais sem inteligência, equipamentos, treinamento e investigação adequada podem apresentar resultados limitados. Da mesma maneira, operações policiais podem produzir prisões e apreensões importantes, mas o resultado mais relevante deve continuar sendo a redução sustentada da criminalidade. Por isso, talvez o eleitor devesse perguntar: A política proposta reduz efetivamente homicídios, roubos, extorsões e domínio territorial de organizações criminosas ou produz principalmente imagens de impacto?
Mulheres, violência doméstica e feminicídio: proteger também significa permitir que a vítima consiga sair
A violência contra as mulheres não deveria ser tratada apenas como uma questão de endurecimento das penas. A punição dos agressores é importante, mas o enfrentamento da violência doméstica e do feminicídio começa antes do crime mais grave acontecer. É necessário perguntar se o candidato possui propostas para prevenção, identificação precoce das situações de risco, atendimento às vítimas, cumprimento das medidas protetivas, funcionamento de delegacias e serviços especializados, acolhimento emergencial e responsabilização dos agressores. Também é importante observar se pretende fortalecer a integração entre polícia, Justiça, saúde, assistência social e demais serviços capazes de identificar mulheres ameaçadas. Existe ainda uma dimensão econômica frequentemente esquecida. Para algumas mulheres, romper uma relação violenta significa perder moradia, renda e condições de sustentar os próprios filhos. A dependência financeira pode dificultar a saída de um ambiente abusivo e prolongar a exposição à violência. Portanto, políticas de proteção podem envolver também acolhimento temporário, acesso ao trabalho, qualificação profissional, creches, assistência social e mecanismos que permitam à vítima reconstruir sua autonomia econômica. Isso não significa presumir que toda violência decorra de dependência financeira, mas reconhecer que, quando ela existe, pode tornar muito mais difícil escapar do agressor.
O eleitor pode então perguntar: o candidato apresenta apenas um discurso de punição depois que a violência ocorreu ou possui propostas para impedir que ela chegue ao feminicídio? Pretende melhorar a identificação de situações de alto risco? Como garantir que medidas protetivas sejam efetivamente cumpridas? Existem estruturas adequadas para acolher uma mulher que precisa abandonar imediatamente sua residência? Como permitir que aquela que depende economicamente do agressor tenha condições concretas de romper essa dependência? Combater o feminicídio exige punir quem mata, mas também criar condições para que uma mulher ameaçada consiga permanecer viva antes que seja necessário punir seu assassino.
Pessoas com deficiência: direitos não podem existir apenas no papel
As pessoas com deficiência — PCD — possuem direitos assegurados pela Constituição e por legislação específica, incluindo a Lei Brasileira de Inclusão. Entretanto, a existência formal de direitos não significa necessariamente que eles estejam disponíveis na vida cotidiana. Acessibilidade urbana, transporte, educação inclusiva, acesso ao trabalho, atendimento de saúde, comunicação acessível e combate à discriminação continuam sendo questões que podem diferenciar projetos políticos. Há ainda um problema que merece especial atenção: pessoas com deficiência podem estar expostas a diferentes formas de violência, incluindo violência física, psicológica, sexual, patrimonial, abandono e negligência. Em determinadas situações, a própria dependência de familiares, cuidadores ou instituições pode dificultar a denúncia. Uma pessoa pode depender justamente daquele que a agride para alimentação, higiene, transporte, comunicação ou administração de seus recursos financeiros. Mulheres com deficiência podem enfrentar simultaneamente desigualdades relacionadas ao gênero e à deficiência, aumentando determinadas situações de vulnerabilidade.
Por isso, não basta perguntar se um candidato "defende as pessoas com deficiência". É preciso perguntar como pretende transformar direitos legais em condições reais de autonomia, inclusão e proteção. Como fiscalizar instituições e cuidadores? Existem canais de denúncia realmente acessíveis para pessoas com diferentes tipos de deficiência? Como uma pessoa que depende do agressor poderá denunciá-lo e continuar recebendo os cuidados de que necessita? Há políticas para inclusão no mercado de trabalho e redução da dependência econômica? Escolas, hospitais, repartições públicas, transportes e espaços urbanos estão sendo progressivamente adaptados? Uma sociedade inclusiva não é aquela que apenas protege a pessoa com deficiência. É aquela que procura oferecer as condições necessárias para que ela exerça, na maior extensão possível, autonomia, cidadania e participação social. Ao avaliar candidatos, portanto, talvez a pergunta mais importante seja simples: as propostas tratam a pessoa com deficiência como sujeito de direitos ou apenas como destinatária de assistência?
Violência sexual contra crianças e adolescentes: prevenção, investigação e proteção
Poucos temas produzem repulsa tão imediata quanto a violência sexual contra crianças e adolescentes. Justamente por isso, é um assunto particularmente suscetível a discursos eleitorais baseados exclusivamente em indignação e propostas de punições cada vez mais severas. A indignação é compreensível, e os autores desses crimes devem ser responsabilizados. Mas o eleitor deveria perguntar algo além: o que o candidato propõe para evitar que crianças sejam vítimas e para aumentar a probabilidade de que os crimes sejam descobertos e investigados? O enfrentamento exige uma rede que envolve família, escola, saúde, assistência social, Conselhos Tutelares, Ministério Público, polícias e Justiça. Crianças precisam dispor de meios adequados para comunicar situações de abuso, e profissionais que trabalham com elas precisam saber reconhecer sinais de violência e conhecer os mecanismos de proteção. Também é necessário evitar que a própria investigação submeta repetidamente a criança ao relato traumático da violência, razão pela qual atendimento especializado e procedimentos adequados de escuta são fundamentais.
A internet acrescentou uma dimensão internacional ao problema. Produção, armazenamento e distribuição de material de abuso sexual infantil, aliciamento de menores em ambientes digitais e redes criminosas podem atravessar fronteiras municipais, estaduais e nacionais. Isso exige investigação especializada, capacidade tecnológica, cooperação entre instituições e, em determinados casos, atuação internacional. O combate precisa alcançar não apenas quem produz esse material, mas também as redes responsáveis por sua distribuição e exploração. Também é importante abandonar a ideia de que o principal perigo necessariamente vem de um desconhecido. A prevenção precisa considerar que abusos podem ocorrer dentro de ambientes conhecidos pela criança e envolver pessoas que possuem acesso, proximidade ou autoridade sobre ela. Por isso, políticas públicas devem combinar prevenção, educação adequada à idade, canais seguros de denúncia, investigação especializada, proteção da vítima e responsabilização do agressor.
Ao avaliar propostas eleitorais sobre o tema, portanto, o eleitor pode perguntar: o candidato apresenta somente propostas de aumento das penas ou explica como melhorar a prevenção e a investigação? Defende recursos para delegacias e unidades especializadas? Como pretende enfrentar crimes praticados pela internet? Como proteger a criança depois da denúncia? Como melhorar a articulação entre escola, saúde, assistência social, Conselho Tutelar e sistema de Justiça? Em um assunto tão grave, prometer simplesmente "tolerância zero" é fácil. Mais difícil — e mais importante — é apresentar políticas capazes de reduzir o número de crianças que chegarão a se tornar vítimas.
Soberania nacional: o que significa na prática?
"Soberania" é uma palavra muito utilizada em campanhas, mas seu significado precisa ser concretizado. Soberania pode envolver capacidade de produzir alimentos, energia, medicamentos, equipamentos estratégicos e tecnologia; controle e proteção de recursos naturais; defesa territorial; segurança digital; capacidade científica e independência para estabelecer relações internacionais conforme os interesses nacionais. Entretanto, soberania não significa necessariamente isolamento. Nenhuma grande economia moderna é completamente autossuficiente. A questão passa a ser outra: em quais áreas o Brasil não pode ficar excessivamente dependente de outros países? Medicamentos, fertilizantes, semicondutores, energia, defesa, telecomunicações e tecnologias estratégicas são exemplos que merecem discussão.
Brasil, superpotências e comércio internacional
O Brasil mantém relações econômicas importantes com Estados Unidos, China, União Europeia e diversos outros parceiros. Transformar política externa em uma escolha emocional entre "ser amigo" de uma potência ou de outra provavelmente empobrece o debate. Países não possuem amizades no mesmo sentido que indivíduos. Possuem interesses. Uma política externa pragmática pode procurar manter boas relações comerciais e diplomáticas com diferentes blocos, evitando dependências excessivas. O eleitor pode perguntar se o candidato pretende diversificar mercados, estimular exportações com maior valor agregado, defender empresas brasileiras em condições legítimas de competição e atrair investimentos sem comprometer interesses estratégicos nacionais.
O Brasil deve buscar protagonismo mundial?
O Brasil possui dimensões territorial, populacional, econômica e ambiental que naturalmente lhe conferem importância internacional. Temas como mudanças climáticas, preservação da Amazônia, produção de alimentos, transição energética, combate à fome, regulação da inteligência artificial, conflitos internacionais e reforma das instituições multilaterais oferecem oportunidades para participação brasileira. Mas protagonismo internacional não deveria significar simplesmente aparecer. É preciso perguntar: essa atuação produz benefícios concretos para o Brasil? Há momentos em que assumir liderança internacional pode ampliar influência diplomática e oportunidades econômicas. Em outros, posicionamentos excessivamente ideológicos podem criar conflitos desnecessários. O desafio é combinar princípios, interesses nacionais e capacidade de diálogo.
Dívida pública, déficit e uma pergunta fundamental: afinal, o que o candidato pretende cortar?
Poucos candidatos defenderão abertamente irresponsabilidade fiscal. Quase todos afirmarão que pretendem controlar a dívida pública, reduzir déficits, eliminar desperdícios e melhorar a qualidade dos gastos. O problema começa quando abandonamos as frases genéricas e fazemos uma pergunta muito mais objetiva: Quais despesas, exatamente, o candidato pretende reduzir? Essa pergunta é fundamental porque "cortar gastos" pode significar coisas completamente diferentes. Pode significar reduzir desperdícios, privilégios, estruturas administrativas desnecessárias, fraudes, contratos superfaturados, benefícios fiscais considerados injustificáveis ou despesas públicas de baixa prioridade. Pode significar rever emendas parlamentares destinadas a projetos que não correspondem às necessidades mais urgentes da população. Mas também pode significar reduzir investimentos em saúde e educação, restringir programas sociais, alterar benefícios previdenciários, limitar reajustes de salários ou aposentadorias ou reduzir serviços públicos. Portanto, não basta um candidato declarar que pretende diminuir as despesas públicas. Ele precisa explicar onde pretende fazê-lo.
O tamanho da dívida não deve ser ignorado
A dívida pública brasileira é suficientemente grande para não ser tratada como questão secundária. Uma dívida crescente exige financiamento, e juros elevados aumentam seu custo. Ao mesmo tempo, tentar reduzir rapidamente déficits por meio de cortes indiscriminados pode comprometer investimentos, serviços públicos e atividade econômica. Por isso, responsabilidade fiscal não deveria significar simplesmente "gastar menos". Talvez uma definição mais adequada seja: arrecadar de maneira sustentável, gastar com eficiência, estabelecer prioridades e impedir que a dívida cresça continuamente de maneira incompatível com a capacidade econômica do país. Também é importante lembrar que o equilíbrio fiscal pode ser buscado pelos dois lados da equação. Pode-se reduzir despesas. Mas também se pode aumentar receitas por meio de crescimento econômico, combate à sonegação, revisão de benefícios tributários, mudanças na tributação ou aumento da eficiência arrecadatória. Cada alternativa produz consequências diferentes. Por isso, o eleitor deveria desconfiar tanto daquele que promete ampliar indefinidamente despesas sem explicar como serão financiadas quanto daquele que promete um grande ajuste fiscal sem dizer quem arcará com esse ajuste.
Nem toda despesa possui a mesma importância
Uma família que enfrenta dificuldades financeiras normalmente procura primeiro eliminar aquilo que considera menos necessário antes de reduzir alimentação, medicamentos ou educação dos filhos. Embora o orçamento de um país seja incomparavelmente mais complexo, o conceito de prioridade continua válido. Por isso, quando um candidato propõe redução de despesas, talvez seja razoável perguntar: Começará pelas despesas de menor retorno social ou pelas políticas que atendem diretamente a população? Uma emenda parlamentar que financia uma obra sem prioridade demonstrada não possui necessariamente o mesmo valor social de recursos destinados a um hospital. Uma despesa administrativa evitável não possui o mesmo impacto de uma aposentadoria de um salário mínimo. Um benefício tributário concedido a determinado setor econômico precisa ser avaliado tanto quanto um programa social. E recursos destinados a festas ou shows também podem ser questionados quando são incompatíveis com a realidade financeira e social do município.
Isso não significa considerar cultura, lazer ou eventos públicos desperdício por definição. Cultura também é política pública, gera atividade econômica e pode produzir benefícios sociais. A questão novamente é prioridade, proporcionalidade e interesse público. Imagine-se, por exemplo, um município pequeno que apresenta carência de medicamentos, saneamento inadequado, escolas necessitando de reformas ou dificuldades no atendimento de saúde e que, simultaneamente, recebe recursos públicos para financiar um espetáculo de elevado custo. O problema não está necessariamente na realização do espetáculo. A pergunta é: Diante de recursos limitados, essa era realmente a necessidade prioritária daquela população? E, principalmente: Quem definiu essa prioridade e com base em quais critérios?
Emendas parlamentares também precisam entrar na discussão fiscal
Emendas parlamentares podem ser extremamente úteis. Elas podem financiar ambulâncias, hospitais, escolas, saneamento, equipamentos públicos e projetos importantes que dificilmente receberiam atenção adequada do governo central. Mas justamente porque envolvem dinheiro público, devem estar sujeitas aos mesmos critérios exigidos das demais despesas: necessidade, transparência, eficiência, proporcionalidade e resultado. Não deveria bastar ao parlamentar anunciar: "Consegui tantos milhões para minha cidade." O eleitor deveria perguntar: Para quê? Se um deputado destinou R$ 10 milhões a determinado município, isso não demonstra, isoladamente, que tenha realizado um bom trabalho. É necessário saber o que foi financiado. E existe ainda outra questão: a distribuição de emendas deveria responder às necessidades reais da população ou principalmente à capacidade de determinados parlamentares de direcionar recursos para suas bases eleitorais? Quando recursos públicos são utilizados principalmente para aumentar popularidade política, aproximamo-nos de uma utilização eleitoral do orçamento, mesmo quando a despesa é formalmente legal. O critério de avaliação não deveria ser apenas a legalidade. Deveria incluir também utilidade pública e prioridade social.
E os benefícios fiscais?
Existe outra modalidade de gasto público que raramente recebe do eleitor a mesma atenção dispensada a programas sociais: aquilo que o Estado deixa de arrecadar. Isenções, incentivos e benefícios tributários podem ser justificáveis. Podem estimular investimentos, preservar empregos, incentivar determinadas regiões ou desenvolver setores estratégicos. Mas também podem permanecer durante décadas sem avaliação adequada de seus resultados. Nesse caso, a pergunta deveria ser semelhante àquela aplicada aos programas sociais: Quanto custa? Quem é beneficiado? Que resultado produz? Ainda é necessário? Se exigimos que um programa destinado à população pobre demonstre resultados, é razoável exigir o mesmo de um benefício tributário concedido a uma empresa ou setor econômico. Responsabilidade fiscal deveria aplicar critérios semelhantes a diferentes grupos sociais.
E o déficit da Previdência?
A Previdência representa um desafio ainda mais difícil porque combina matemática, demografia e proteção social. A população brasileira está envelhecendo. Proporcionalmente, teremos mais idosos e uma relação menor entre trabalhadores ativos e aposentados. Ignorar essa transformação seria irresponsável. Por outro lado, tratar aposentadorias exclusivamente como uma despesa contábil também seria inadequado. Para milhões de brasileiros, aposentadoria e pensão constituem a principal — e algumas vezes a única — fonte de renda. Em muitos municípios pequenos, benefícios previdenciários possuem inclusive enorme importância para a economia local. Portanto, quando um candidato afirma que pretende "resolver o déficit previdenciário", novamente precisamos perguntar: Como? Pretende aumentar idade mínima? Alterar tempo de contribuição? Mudar regras de cálculo? Reduzir benefícios? Modificar a política de reajustes? Aumentar contribuições? Combater fraudes e sonegação previdenciária? Estimular formalização do emprego para aumentar o número de contribuintes? Rever regimes especiais? Modificar regras aplicáveis a determinados grupos? Utilizar crescimento econômico e aumento do emprego formal para ampliar a arrecadação? Existem muitas possibilidades, e elas distribuem seus custos de maneira muito diferente pela sociedade. Dizer apenas "vou fazer uma reforma da Previdência" fornece pouca informação ao eleitor.
Quem pagará pelo ajuste?
Talvez esta seja a pergunta central de toda discussão fiscal. Quando um país precisa ajustar suas contas, alguém inevitavelmente será afetado. Pode ser o contribuinte, por meio de maior tributação. Pode ser determinada empresa que perde um benefício fiscal. Pode ser o parlamentar que passa a dispor de menos recursos para emendas. Pode ser o servidor público. Pode ser o trabalhador. Pode ser o aposentado. Pode ser o beneficiário de um programa social. Pode ser a empresa contratada pelo Estado. Pode ser um setor econômico subsidiado. Ou o ajuste pode ser distribuído entre vários desses grupos. Portanto, quando ouvirmos: "Precisamos cortar gastos." Talvez a pergunta mais importante seja: "Quais?" E depois: "Por que esses e não outros?" E finalmente: "Quem perderá renda, serviço ou benefício com essa decisão?" Essas três perguntas transformam uma frase de campanha em uma proposta que pode efetivamente ser analisada.
Cortar desperdício é necessário, mas será suficiente?
Há ainda uma questão que exige honestidade no debate. Praticamente todos os candidatos prometem combater desperdícios. Certamente existem despesas desnecessárias, fraudes, ineficiências e escolhas questionáveis que devem ser enfrentadas. Mas o eleitor também deveria exigir números. Quanto será economizado? Se determinado candidato promete economizar centenas de bilhões de reais apenas eliminando "desperdícios", deveria demonstrar onde esses desperdícios estão e apresentar estimativas verificáveis. Da mesma maneira, exemplos chamativos de mau uso do dinheiro público — embora devam ser combatidos — podem representar valores pequenos diante das grandes despesas estruturais do Estado. Eliminar uma despesa supérflua continua sendo correto mesmo quando ela representa uma pequena parcela do orçamento. Mas não é correto apresentar uma economia relativamente pequena como solução suficiente para um problema fiscal de centenas de bilhões de reais. Responsabilidade fiscal também significa honestidade com os números.
Dívida pública não se resolve apenas cortando
O debate eleitoral deveria incluir ainda o outro lado da equação: crescimento econômico. Uma economia que cresce gera empregos, salários, lucros e consumo e tende a aumentar a arrecadação. Mais trabalhadores formalizados também significam maior arrecadação previdenciária. Investimentos em infraestrutura, educação, ciência e tecnologia podem custar dinheiro no presente e, quando bem planejados, ampliar a capacidade produtiva futura. Portanto, existe uma diferença importante entre despesa improdutiva e investimento público eficiente. Cortar indiscriminadamente ambos pode melhorar uma conta no curto prazo e prejudicar a economia no longo prazo. Da mesma maneira, chamar qualquer despesa de "investimento" não a torna automaticamente eficiente. O eleitor deveria procurar candidatos capazes de fazer essa distinção.
A mesma régua para todos
Talvez exista um princípio particularmente útil nesta discussão: o rigor fiscal deveria valer tanto para políticas destinadas aos pobres quanto para benefícios destinados aos grupos de maior renda e poder econômico ou político. Se um programa social custa bilhões, é legítimo perguntar se funciona. Se uma renúncia tributária custa bilhões, também. Se uma aposentadoria ou benefício precisa ser sustentável, é legítimo discutir seu financiamento. Se determinado setor econômico recebe subsídios ou tratamento tributário especial, também é legítimo perguntar quanto isso custa e qual retorno oferece à sociedade. Se uma emenda parlamentar utiliza recursos públicos, deve justificar sua prioridade. Se existem vantagens remuneratórias ou estruturas públicas pouco justificáveis, também devem entrar na discussão. O equilíbrio das contas públicas não deveria começar automaticamente pelo cidadão com menor capacidade de se defender politicamente. Mas também não deveria declarar qualquer grupo intocável independentemente da situação fiscal. O princípio deveria ser: avaliar necessidade, eficiência, justiça distributiva e resultado.
Uma pergunta para levar à urna sobre as contas públicas
Talvez possamos acrescentar mais algumas perguntas à nossa lista de critérios para 2026: O candidato reconhece a necessidade de controlar a dívida pública? Apresenta uma proposta realista para o déficit previdenciário? Quando fala em cortar despesas, especifica quais serão cortadas? Pretende começar por desperdícios, despesas de baixa prioridade e benefícios injustificados ou pretende reduzir políticas sociais? Qual será sua posição sobre salários e aposentadorias? Como pretende avaliar benefícios fiscais e subsídios concedidos a empresas e setores econômicos? Defende critérios técnicos e transparência para emendas parlamentares? Pretende preservar investimentos capazes de aumentar a produtividade e o crescimento futuro? E, sobretudo, consegue mostrar números que sustentem suas propostas? Porque existe uma enorme diferença entre dizer: "Vou equilibrar as contas públicas." e explicar: "Vou equilibrá-las desta maneira, economizando aqui, arrecadando desta forma, preservando estas prioridades e distribuindo os custos do ajuste desta maneira." A primeira frase cabe em um slogan. A segunda permite ao cidadão decidir se concorda com o projeto. E talvez essa seja uma boa síntese para todo o debate econômico eleitoral: não pergunte apenas se o candidato pretende gastar mais ou gastar menos. Pergunte onde pretende gastar, onde pretende economizar, de quem pretende arrecadar e quem será beneficiado ou prejudicado pelas escolhas que fará. Afinal, orçamento público não é apenas uma planilha contábil. É uma das expressões mais concretas das prioridades de um governo.
Presidente, Congresso e governadores precisam estar alinhados?
Essa é uma questão mais complexa do que parece. Um presidente com apoio suficiente no Congresso possui maior facilidade para aprovar seu programa de governo. Um governador com boa relação com a Assembleia Legislativa também tende a conseguir implementar suas propostas com maior facilidade. Portanto, algum grau de alinhamento pode aumentar a governabilidade. Mas existe o outro lado. Um Legislativo completamente subordinado ao Executivo reduz os mecanismos de controle. Congresso e Assembleias não existem apenas para aprovar projetos do governo. Também devem fiscalizá-lo. Da mesma maneira, eleger deliberadamente um Congresso cuja única finalidade seja impedir qualquer iniciativa presidencial pode produzir paralisia. O ideal democrático talvez esteja entre os extremos: capacidade de cooperação sem submissão e capacidade de oposição sem sabotagem permanente. O eleitor não precisa obrigatoriamente votar para deputado ou senador em candidatos do mesmo campo político escolhido para presidente. Pode fazê-lo se deseja fortalecer determinado programa. Pode também distribuir seus votos entre diferentes correntes se considera importante aumentar os mecanismos de fiscalização e equilíbrio. Ambas são escolhas políticas legítimas.
Bancadas temáticas: quem acaba definindo a pauta do Congresso?
Outro aspecto frequentemente ignorado pelo eleitor é que deputados e senadores não atuam apenas como indivíduos ou integrantes de partidos. Muitos se organizam em frentes parlamentares e grupos informais de interesse, frequentemente chamados de bancadas. É comum ouvirmos expressões como bancada evangélica, bancada do agronegócio ou ruralista, bancada da segurança pública — frequentemente chamada de "bancada da bala" —, além de grupos ligados a trabalhadores, empresários, meio ambiente, educação, saúde, mulheres e inúmeras outras pautas. A existência dessas articulações não é, por si só, antidemocrática. Em uma democracia representativa, diferentes segmentos da sociedade procuram naturalmente eleger representantes e influenciar decisões. A questão importante surge quando determinadas bancadas se tornam numerosas ou organizadas o suficiente para exercer influência muito superior à de outros setores da sociedade. Elas podem determinar quais projetos avançam, quais são bloqueados, quais modificações são feitas em propostas do Executivo e até quais assuntos entram ou não na agenda nacional.
Isso cria uma pergunta importante para quem escolhe um deputado ou senador: Além de votar nessa pessoa, que bancada estou ajudando a fortalecer? Um candidato pode apresentar-se principalmente por sua trajetória individual, mas, uma vez eleito, integrar grupos parlamentares cujas posições terão influência sobre agricultura, meio ambiente, armas, segurança, religião, direitos civis, relações trabalhistas, tributação ou políticas sociais. Não há nada necessariamente errado em um parlamentar defender agricultores, evangélicos, policiais, trabalhadores, empresários, ambientalistas ou qualquer outro segmento legítimo da sociedade. O problema democrático aparece quando interesses setoriais passam a ser apresentados como se fossem automaticamente os interesses de toda a população. Por isso, além de perguntar "quem este candidato representa?", talvez seja necessário perguntar: Quando houver conflito entre o interesse do grupo que o elegeu e o interesse mais amplo da sociedade, como ele se posicionará?
Corrupção: não observar apenas os grandes escândalos
Corrupção não ocorre apenas nos grandes casos que ocupam os noticiários nacionais. Ela também pode aparecer na utilização inadequada de verbas públicas, direcionamento de contratos, favorecimento político, nepotismo, superfaturamento, compra de apoio e diversas outras formas de apropriação ou utilização indevida do Estado. O eleitor deveria observar não apenas se determinado candidato foi acusado de corrupção, mas também sua posição sobre transparência e fiscalização. Defende órgãos de controle quando investigam adversários e os ataca quando investigam aliados? Apoia mecanismos que permitam saber para onde vai o dinheiro público? Transparência deveria ser um princípio aplicado independentemente de quem esteja governando.
Emendas parlamentares: para onde está indo o dinheiro?
Deputados e senadores participam diretamente da destinação de parcelas significativas do orçamento por meio das emendas parlamentares. As emendas podem cumprir uma função importante. Um parlamentar pode conhecer necessidades regionais que dificilmente seriam percebidas pela administração federal. Recursos destinados a hospitais, equipamentos de saúde, escolas, saneamento ou infraestrutura municipal podem produzir benefícios concretos. Mas a existência de emendas também exige fiscalização. O eleitor deveria procurar saber para onde o parlamentar destinou o dinheiro público. O recurso corresponde a uma necessidade real da população? Existem critérios técnicos? Houve transparência? A comunidade foi beneficiada? Ou o recurso foi destinado principalmente para produzir visibilidade política?
Um exemplo que merece reflexão é a destinação direta ou indireta de recursos públicos para eventos e shows de grande valor em municípios pequenos, especialmente quando essas localidades apresentam carências importantes em saúde, saneamento, educação ou infraestrutura. Isso não significa que cultura, lazer ou festas populares não mereçam financiamento público. Cultura também constitui política pública. A questão é a prioridade. Se um município possui graves problemas de atendimento médico, falta de saneamento ou escolas precárias, é legítimo que o cidadão pergunte se determinadas despesas representam a melhor utilização possível de recursos limitados. A mesma análise deve valer para obras pouco utilizadas, equipamentos sem estrutura para funcionamento, projetos escolhidos sem estudos técnicos ou recursos destinados simplesmente porque produzem maior retorno eleitoral. Uma emenda parlamentar não deveria ser avaliada apenas pela pergunta "quanto dinheiro o deputado trouxe para minha cidade?", mas também: Para que trouxe? Era necessário? Foi bem utilizado? E qual benefício concreto produziu?
Partido importa?
Importa, especialmente nas eleições proporcionais. Deputados federais e estaduais não são eleitos simplesmente porque receberam individualmente determinado número de votos. O sistema brasileiro considera também a votação obtida pelos partidos e federações. Isso significa que votar em um candidato também contribui, dentro das regras eleitorais, para o desempenho da legenda ou federação à qual ele pertence. Por isso, conhecer apenas o candidato pode não ser suficiente. Vale conhecer também seu partido. Quais princípios defende? Como seus parlamentares normalmente votam? Quem são seus aliados? Que candidatos aquela legenda apresenta?
E o voto na legenda?
Nas eleições proporcionais — deputado federal, deputado estadual e deputado distrital — existe a possibilidade do voto de legenda. Em vez de digitar o número completo de um candidato, o eleitor pode votar apenas no número do partido. Esse voto é computado para a legenda e participa do cálculo que determina a distribuição das cadeiras segundo as regras do sistema proporcional. Na prática, isso significa que o eleitor pode dizer: "não tenho preferência por um candidato específico, mas quero fortalecer este partido". Entretanto, há uma consequência importante: as cadeiras conquistadas serão ocupadas por candidatos daquele partido ou federação conforme as regras eleitorais e o desempenho individual exigido pela legislação. Portanto, antes de votar apenas na legenda, é recomendável conhecer o conjunto dos candidatos apresentados por aquele partido. O voto proporcional possui, dessa maneira, uma dimensão individual e outra partidária.
Não vote apenas no discurso: procure o histórico
Campanhas eleitorais são exercícios de comunicação. Todos os candidatos procuram apresentar suas melhores características e esconder suas fragilidades. Para candidatos que já exerceram cargos públicos, o passado costuma ser uma fonte mais confiável do que a propaganda eleitoral. Como votou? Que projetos apresentou? Como administrou recursos públicos? Mudou radicalmente de posição? Se mudou, explicou por quê? Cumpriu compromissos? Foi assíduo? Defendeu os mesmos princípios quando seu grupo político estava no governo e quando estava na oposição? Essa última pergunta é particularmente útil. É relativamente fácil defender fiscalização quando o adversário governa e considerá-la perseguição quando o aliado é investigado. Também é fácil defender liberdade de expressão quando ela beneficia o próprio grupo e desejar restrições quando atinge suas posições. Coerência democrática significa aplicar princípios também quando isso é politicamente inconveniente.
Como pesquisar objetivamente um candidato?
Esta talvez seja uma das providências mais simples e eficientes antes de votar. Para candidatos que já exercem ou exerceram mandatos, o eleitor não precisa depender exclusivamente de propaganda eleitoral, redes sociais ou opiniões de comentaristas. É possível consultar fontes institucionais. Nos portais da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, das Assembleias Legislativas e dos órgãos eleitorais podem ser encontradas informações importantes sobre candidatos e parlamentares. O eleitor pode procurar, entre outras coisas: histórico de votações; projetos apresentados; presença nas sessões; partido e mudanças partidárias; utilização de verbas públicas; emendas parlamentares apresentadas e seus destinos; patrimônio declarado à Justiça Eleitoral; doadores e financiamento de campanha, dentro das informações disponibilizadas pela legislação; processos e decisões judiciais relevantes; evolução patrimonial; participação em comissões; posicionamento em questões importantes.
Também é recomendável pesquisar entrevistas antigas. A internet possui memória. Comparar aquilo que um político dizia há quatro ou oito anos com aquilo que afirma atualmente pode revelar coerência, evolução legítima de pensamento ou simples conveniência eleitoral. Mudar de opinião não é necessariamente um defeito. Pessoas podem mudar de posição diante de novas informações. O problema é mudar constantemente de princípios segundo as conveniências do momento e fingir que nunca se defendeu o contrário. Outra providência importante é diversificar as fontes de informação. Quem recebe todas as informações políticas exclusivamente de pessoas que pensam da mesma maneira corre o risco de conhecer uma caricatura dos adversários e uma versão idealizada dos próprios aliados. Ler fontes diferentes não obriga ninguém a abandonar suas convicções. Apenas reduz a possibilidade de sermos manipulados.
Cuidado com as redes sociais
Talvez nunca tenhamos tido tanto acesso à informação. Paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão fácil receber informação manipulada. Um vídeo de quinze segundos pode retirar uma frase de uma entrevista de uma hora. Uma imagem pode ser antiga e apresentada como atual. Uma declaração verdadeira pode ser colocada em contexto completamente diferente. Conteúdos podem ser produzidos ou modificados por inteligência artificial. Antes de compartilhar uma acusação grave contra qualquer candidato — inclusive aquele de quem não gostamos — vale procurar a fonte original. A regra deveria funcionar para todos. Se exigimos provas quando acusam nosso candidato, devemos exigir provas também quando acusam o adversário.
Uma possível lista de critérios
Não existe fórmula matemática para escolher um candidato. Cada eleitor atribui pesos diferentes a diferentes valores. Mas algumas perguntas podem ajudar: É honesto? É competente? Conhece as atribuições do cargo que pretende ocupar? Possui experiência relevante? Seu histórico confirma seu discurso? Respeita as instituições democráticas? Aceita críticas e fiscalização? Apresenta propostas possíveis de executar? Explica como pretende financiá-las? Como suas propostas afetam trabalhadores, empresários, aposentados e os mais pobres? Defende políticas sociais eficientes? Possui preocupação com a sustentabilidade da Previdência? Tem propostas para educação, saúde, ciência e desenvolvimento econômico? Leva em consideração as evidências científicas? Possui propostas concretas para mudanças climáticas e meio ambiente? Apresenta políticas de segurança baseadas apenas em discursos ou também em resultados? Como compreende a soberania nacional? Que relações pretende manter com as grandes potências e com os demais países? Que papel internacional deseja para o Brasil? Seu partido é compatível com aquilo que ele afirma defender? Quem são seus aliados? De quais bancadas parlamentares participa ou pretende participar? Como utiliza ou pretende utilizar as emendas parlamentares? Defende transparência sobre o dinheiro público? Como se comportou quando teve poder? Talvez esta última pergunta mereça destaque especial. É relativamente fácil defender princípios quando não se possui poder. A maneira como alguém utiliza o poder quando o conquista costuma revelar muito mais.
O voto não precisa formar um pacote ideológico
Nada obriga o eleitor a escolher presidente, governador, senadores e deputados pertencentes ao mesmo grupo político. Também não há nada de incoerente em fazê-lo. Depende do objetivo do eleitor. Quem deseja dar maior capacidade de implementação a determinado projeto político pode procurar formar uma bancada parlamentar afinada com o Executivo. Quem considera prioritários os mecanismos de controle pode preferir distribuir seus votos. O importante é que essa escolha seja consciente. Da mesma forma, não é necessário concordar com 100% das posições de um candidato. Provavelmente esse candidato nem existe. Votar é estabelecer prioridades.
O candidato perfeito provavelmente não existe
Em uma democracia com milhões de pessoas e enorme diversidade de interesses, dificilmente encontraremos alguém que pense exatamente como nós em economia, costumes, política externa, meio ambiente, direitos sociais, segurança pública e todas as demais questões. A escolha eleitoral é quase sempre comparativa. Não se trata de perguntar apenas: "Este candidato é bom?" Talvez seja mais útil perguntar: "Entre as alternativas disponíveis para este cargo, qual delas mais se aproxima das prioridades que considero importantes e apresenta menores riscos naquilo que considero fundamental?" Isso exige abandonar uma ideia confortável: a de que eleições são disputas entre pessoas absolutamente boas e absolutamente más. A política democrática é mais complexa.
Antes de confirmar o voto
Talvez o eleitor devesse fazer uma última reflexão diante de cada escolha: Estou votando nesta pessoa porque analisei sua trajetória e suas propostas ou porque alguém me ensinou a odiar o adversário? O voto motivado exclusivamente pelo medo ou pelo ódio facilita a manipulação. É perfeitamente legítimo rejeitar candidatos. Há propostas e comportamentos que podem ser incompatíveis com os valores de determinado eleitor. Mas até a rejeição deveria resultar de informação. Também é legítimo votar segundo interesses econômicos. Um trabalhador pode considerar direitos trabalhistas prioritários. Um empresário pode preocupar-se especialmente com ambiente de negócios. Um aposentado pode colocar a Previdência no centro de sua decisão. Um jovem pode valorizar educação, emprego e habitação. Democracia não exige que as pessoas tenham os mesmos interesses. Exige que interesses diferentes possam disputar legitimamente os rumos do país dentro das regras democráticas.
Mas talvez exista uma reflexão adicional que mereça acompanhar o eleitor até a urna. A democracia não é apenas um instrumento para decidir o que será melhor para mim. É também um mecanismo pelo qual decidimos em que tipo de sociedade queremos viver. Posso não utilizar uma escola pública, mas decidir se considero importante que ela seja boa. Posso possuir plano de saúde, mas decidir qual importância atribuo ao SUS. Posso não depender de programas de transferência de renda, mas avaliar se considero aceitável que pessoas em extrema pobreza fiquem sem proteção. Posso ter previdência privada, mas ainda assim decidir que tipo de proteção considero justa para quem depende exclusivamente da Previdência pública. Posso viver em uma região relativamente segura, mas preocupar-me com brasileiros que vivem sob domínio do crime organizado. Posso ter recursos para enfrentar melhor uma onda de calor, uma enchente ou uma falta temporária de água, enquanto outras famílias talvez percam tudo. Essa talvez seja uma das diferenças entre simplesmente escolher representantes e exercer plenamente a cidadania. Meu voto pode defender meus interesses. Mas ele também ajuda a decidir o que acontecerá com pessoas que jamais conhecerei.
No fim, estaremos escolhendo muito mais do que um presidente
A eleição de 2026 não decidirá apenas quem governará o Brasil. Decidirá quem governará cada estado, quem ocupará as vagas do Senado em disputa neste ciclo eleitoral e quem formará a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas. Portanto, dedicar vinte minutos para pesquisar um candidato a deputado pode ser tão importante quanto acompanhar meses de debates presidenciais. Presidente governa. Governador governa. Mas Congresso e Assembleias legislam, modificam projetos, controlam orçamentos e fiscalizam quem governa. Talvez a melhor orientação eleitoral não seja "vote neste" ou "não vote naquele". Talvez seja algo mais trabalhoso: saiba exatamente para que cargo está votando, conheça o poder que está entregando a essa pessoa, examine o que ela já fez, descubra o que pretende fazer e procure compreender quem será beneficiado — e quem arcará com os custos — das políticas que ela defende.
E talvez seja possível acrescentar mais uma pergunta antes de apertar a tecla verde: Estou escolhendo apenas o Brasil que seria melhor para mim ou também o Brasil que considero mais justo e viável para aqueles que tiveram menos oportunidades do que eu? Não existe uma resposta eleitoral única para essa pergunta. Pessoas razoáveis podem chegar a conclusões políticas diferentes. Mas fazê-la já significa compreender algo fundamental sobre democracia: o voto é individual, mas suas consequências são coletivas. Democracia não termina quando apertamos a tecla CONFIRMA. Na verdade, é ali que começa a nossa responsabilidade de acompanhar aqueles a quem entregamos temporariamente uma parcela do poder.
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