É possível trazer espécies extintas de volta à vida? A ciência por trás da desextinção

Imagine caminhar por uma reserva natural e encontrar um mamute-lanoso. Ou visitar uma ilha no oceano Índico e ver novamente um dodô andando pela floresta. Durante muito tempo, situações como essas pertenceram exclusivamente à ficção científica. Os extraordinários avanços da genética, da clonagem e da edição de DNA, entretanto, fizeram surgir uma pergunta que há poucas décadas pareceria absurda: seria possível trazer espécies extintas de volta à vida? Existe até um nome para essa ideia: desextinção (de-extinction). 

Mamute lanosoPássaro Dodô

Mamute-lanoso e pássaro Dodô.

O termo, porém, pode ser enganoso. A ciência já é capaz de produzir animais que apresentam características de espécies desaparecidas, e provavelmente será capaz de fazer isso de maneira cada vez mais sofisticada. Mas isso não significa necessariamente ressuscitar uma espécie exatamente como ela existia no passado. E uma experiência anunciada em 2025 colocou essa discussão definitivamente no centro das atenções: a suposta “ressurreição” do lobo-terrível.

Afinal, o que significa desextinguir uma espécie?

Quando pensamos em ressuscitar um animal extinto, é tentador imaginar algo semelhante ao que ocorre em Jurassic Park: recupera-se o DNA do organismo desaparecido, reconstrói-se seu genoma e produz-se um indivíduo praticamente idêntico ao original. A realidade é muito mais complicada. Depois da morte, o DNA começa a se degradar. Com o passar dos milhares de anos, as moléculas se fragmentam e sofrem alterações químicas. Em determinadas condições, especialmente no frio, fragmentos podem permanecer preservados por períodos surpreendentemente longos, permitindo que cientistas reconstruam grande parte do genoma de animais desaparecidos. Mas possuir a sequência do DNA não equivale a possuir uma célula viva daquele animal. 

Jurassic Park
Cena clássica de Jurassic Park.

Além disso, um organismo não é apenas a sequência de bases nitrogenadas de seu DNA. Desenvolvimento embrionário, regulação dos genes, modificações epigenéticas, ambiente uterino, microbiota, aprendizagem e comportamento também participam da construção do indivíduo. Por esse motivo, a própria União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) adota uma terminologia mais cuidadosa. Em suas diretrizes sobre o assunto, prefere falar na produção de “proxies” de espécies extintas: organismos substitutos que apresentam determinadas características fenotípicas, comportamentais ou ecológicas da espécie desaparecida. A entidade salienta que as técnicas atuais não conseguem produzir uma réplica completa da espécie original. Isso faz uma enorme diferença.

O caso que incendiou a discussão: o lobo-terrível

O lobo-terrível (Aenocyon dirus) foi um grande canídeo que habitou as Américas durante o Pleistoceno e desapareceu há aproximadamente 10 a 13 mil anos. Tornou-se ainda mais conhecido do público por causa da cultura popular, embora o animal verdadeiro evidentemente não correspondesse exatamente às versões fantásticas apresentadas na ficção. Em abril de 2025, a empresa de biotecnologia Colossal Biosciences anunciou algo espetacular: o lobo-terrível teria voltado da extinção. Foram apresentados três animais: os machos Romulus e Remus, nascidos em 2024, e a fêmea Khaleesi, nascida em 2025. A empresa classificou o resultado como a primeira desextinção de uma espécie animal. A notícia percorreu o mundo. Mas foi exatamente aí que começou a polêmica.

De Game of Thrones ao laboratório

O lobo-terrível já ocupava um lugar privilegiado no imaginário popular muito antes de a Colossal anunciar sua “desextinção”. Isso ocorreu principalmente por causa de Game of Thrones, série televisiva baseada na saga literária A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin. Na história, os direwolves são animais intimamente associados à Casa Stark. Logo no início da narrativa, os filhos de Ned Stark encontram filhotes e cada um passa a criar um deles. Nomes como Ghost, Nymeria, Grey Wind, Summer, Lady e Shaggydog se tornaram familiares a milhões de espectadores. 

Cena do Lobo Terrível em Game of Thrones
Cena do Lobo Terrível em Game of Thrones

Para grande parte do público, portanto, o “dire wolf” parecia quase uma criatura de fantasia. Mas ele realmente existiu. O verdadeiro Aenocyon dirus viveu nas Américas durante o Pleistoceno e desapareceu no final da última Era Glacial. Assim, quando uma empresa anunciou que havia conseguido “trazê-lo de volta”, a conexão com Game of Thrones surgiu imediatamente. E a história ganhou um elemento ainda mais curioso. George R. R. Martin não apenas ajudou a transformar o lobo-terrível em um ícone da cultura popular. Ele também se envolveu diretamente com a empresa responsável pelo projeto. Martin é investidor e consultor cultural da Colossal Biosciences. Mais surpreendente ainda: seu nome aparece entre os autores do artigo científico “On the ancestry and evolution of the extinct dire wolf”, publicado em 2026 na revista Cell Genomics. O trabalho reúne dezenas de pesquisadores envolvidos no estudo de paleogenomas do lobo-terrível, e George R. R. Martin aparece formalmente como um dos coautores. 

É uma situação bastante incomum: o escritor cuja obra ajudou a popularizar os lobos-terríveis na ficção aparece também como coautor de um artigo científico sobre a evolução do animal real. Isso acrescenta uma camada interessante — e também polêmica — à história. A presença de Martin entre os autores não significa, evidentemente, que ele tenha realizado sequenciamento de DNA, reconstrução de genomas ou experimentos de edição genética. Em grandes trabalhos científicos, diferentes autores podem contribuir de maneiras muito distintas. O fato relevante é que o próprio artigo declara sua relação com a empresa como investidor e consultor cultural. Por isso, o episódio mostra como ciência, comunicação, entretenimento e interesses empresariais podem se entrelaçar. 

O anúncio da “volta” do lobo-terrível não tratava apenas de uma descoberta genética. Tratava-se de um animal que já possuía enorme valor simbólico para milhões de fãs de uma das séries mais populares da televisão. Era uma história praticamente pronta para ganhar as manchetes. Isso não invalida os resultados científicos obtidos pela equipe, mas reforça a necessidade de distinguir cuidadosamente o que os experimentos demonstraram da maneira como esses resultados foram apresentados ao público. Em Game of Thrones, os direwolves podem habitar tranquilamente a fronteira entre realidade e fantasia. Na ciência, essa fronteira precisa ser bem mais rigorosa.

Eles são realmente lobos-terríveis?

Para desenvolver os animais, os pesquisadores estudaram DNA antigo obtido de fósseis do lobo-terrível, incluindo um dente com aproximadamente 13 mil anos e material do ouvido interno de um espécime com cerca de 72 mil anos. Essas informações permitiram comparar o genoma reconstruído do lobo-terrível com o de canídeos atuais. Em seguida, porém, os cientistas não reconstruíram integralmente uma célula de lobo-terrível. Partiram de células do lobo-cinzento (Canis lupus) e realizaram 20 edições genéticas distribuídas por 14 genes, buscando produzir características associadas ao animal extinto, como tamanho corporal maior, cabeça mais larga, musculatura e determinadas características da pelagem. Depois, núcleos das células geneticamente modificadas foram utilizados em técnicas de transferência nuclear e os embriões resultantes foram implantados em cadelas utilizadas como mães substitutas. O resultado é tecnologicamente impressionante. Mas chamar esses animais de verdadeiros Aenocyon dirus é outra questão. 

A própria Colossal descreve atualmente sua abordagem como “desextinção funcional”: em vez de reproduzir cada detalhe genético da espécie desaparecida, procura produzir um organismo que se assemelhe a ela e apresente características consideradas fundamentais. Para vários pesquisadores, portanto, Romulus, Remus e Khaleesi são mais adequadamente descritos como lobos-cinzentos geneticamente modificados para apresentar características do lobo-terrível. Artigos científicos publicados após o anúncio questionaram explicitamente se uma aproximação fenotípica pode ser considerada restauração de uma espécie. Essa discussão está longe de ser apenas semântica.

Quantas modificações transformam uma espécie em outra?

Aqui aparece uma questão fascinante da própria Biologia: o que define uma espécie? Se modificarmos alguns genes de um lobo-cinzento e fizermos com que ele apresente cabeça maior, corpo robusto e pelagem semelhante à inferida para o lobo-terrível, ele se transforma em um lobo-terrível? Provavelmente não é tão simples. Mesmo que duas espécies compartilhem enorme porcentagem de seu DNA, milhões de diferenças individuais podem permanecer entre seus genomas. Além disso, características complexas dependem frequentemente da interação entre muitos genes e suas regiões reguladoras. 

Há ainda algo que nenhum laboratório consegue recuperar diretamente de um fóssil: a cultura e o comportamento aprendido de uma espécie extinta. Como os verdadeiros lobos-terríveis organizavam seus grupos? Como ensinavam os filhotes? Quais estratégias utilizavam para caçar? Como se comunicavam? Que presas preferiam? Quanto desses comportamentos era geneticamente determinado e quanto era transmitido socialmente? Não existe um lobo-terrível adulto disponível para ensinar isso aos recém-nascidos. Portanto, mesmo que um dia produzíssemos um animal geneticamente extremamente próximo do original, ainda restaria a pergunta: teríamos recuperado a espécie ou apenas seu corpo?

O dodô pode ser o próximo?

Outro candidato famoso é o dodô (Raphus cucullatus), ave não voadora que habitava a ilha Maurício, no oceano Índico. O dodô desapareceu no século XVII, poucas décadas depois da chegada de seres humanos à ilha. Caça, destruição do habitat e principalmente a introdução de animais como ratos, porcos e outros organismos contribuíram para sua rápida extinção. Ele se tornou um dos maiores símbolos mundiais da extinção causada pelas atividades humanas. Por isso, a ideia de trazê-lo de volta possui enorme força simbólica. Mas aves apresentam um problema técnico particular. A estratégia utilizada em mamíferos — manipular um embrião e implantá-lo no útero de uma fêmea — obviamente não pode ser simplesmente transferida para um animal que se desenvolve dentro de um ovo. Uma das estratégias investigadas envolve as células germinativas primordiais, precursoras das células que posteriormente formarão espermatozoides e óvulos. 

A Colossal anunciou ter conseguido cultivar em laboratório células germinativas primordiais de pombos, um passo considerado importante para futuras manipulações genéticas relacionadas ao projeto do dodô. A empresa afirma atualmente trabalhar com um horizonte de alguns anos para tentar produzir uma ave com características do dodô, embora isso continue sendo uma meta experimental, e não um resultado já alcançado. Mais uma vez, porém, provavelmente não seria literalmente o mesmo dodô que desapareceu de Maurício. O resultado seria um animal construído geneticamente a partir de parentes vivos — especialmente pombos — modificado para recuperar características genéticas e fenotípicas do dodô. Seria um dodô? Ou seria um novo organismo inspirado no dodô? A pergunta que surgiu com o lobo-terrível reaparece.

Mamutes, tilacinos e outros candidatos à ressurreição

O animal que talvez tenha se tornado o maior símbolo da desextinção é o mamute-lanoso (Mammuthus primigenius). Nesse caso existe uma vantagem importante: há restos congelados excepcionalmente preservados e o parente vivo mais próximo, o elefante-asiático, ainda existe. A proposta não consiste simplesmente em clonar um mamute congelado. A estratégia é identificar variantes genéticas relacionadas às adaptações ao frio — pelos longos, depósitos de gordura, características do sangue e outras particularidades — e introduzir alterações no genoma de células de elefantes. O resultado seria, novamente, algo que merece uma definição cuidadosa: provavelmente um elefante geneticamente modificado com características de mamute, e não necessariamente um mamute idêntico aos que caminhavam pelas estepes durante a última Era Glacial. 

A Colossal mantém o mamute entre seus principais projetos e também trabalha com o tilacino ou tigre-da-Tasmânia (Thylacinus cynocephalus), além de projetos envolvendo aves extintas. Outras espécies já propostas ao longo dos debates sobre desextinção incluem o pombo-passageiro, que já formou bandos gigantescos na América do Norte, e diferentes animais desaparecidos em tempos históricos. Quanto mais recente a extinção, entretanto, maior tende a ser uma vantagem fundamental: o ambiente atual pode conservar mais semelhanças com aquele no qual a espécie vivia. E isso nos leva ao problema talvez mais importante de todos.

Thylacinus cynocephalus (Tigre da Tasmânia)
Thylacinus cynocephalus (Tigre da Tasmânia)

Ressuscitar o animal é uma coisa. Ressuscitar seu mundo é outra.

Suponhamos que todas as dificuldades genéticas fossem resolvidas. Temos novamente um mamute. E agora? Onde colocá-lo? A extinção de uma espécie não congela o ecossistema no instante de seu desaparecimento. Durante centenas, milhares ou dezenas de milhares de anos, o ambiente continua mudando. O clima muda. A vegetação muda. Outras espécies desaparecem. Novas espécies chegam. Predadores e competidores modificam suas distribuições. Rios mudam de curso. Florestas dão lugar a cidades e lavouras. Estradas fragmentam habitats. O planeta no qual o animal reaparece não é o planeta que ele deixou. Essa talvez seja uma das maiores limitações ecológicas da desextinção. As próprias diretrizes da IUCN destacam que quanto maior o tempo transcorrido desde a extinção, maior tende a ser a diferença entre as condições ecológicas originais e aquelas encontradas nos possíveis locais de reintrodução. Isso aumenta a incerteza e o risco de consequências indesejáveis. 

Pense novamente no lobo-terrível. O animal viveu em comunidades pleistocênicas que incluíam uma megafauna hoje em grande parte desaparecida. Os grandes herbívoros que poderiam constituir suas presas, os competidores, os demais predadores, a vegetação e até o clima eram diferentes. Em qual ecossistema atual colocaríamos uma população de lobos-terríveis? E quais animais eles caçariam? Poderiam competir com lobos atuais, pumas, ursos e outros predadores? Poderiam atacar animais domésticos? Poderiam transmitir ou adquirir doenças para as quais sua fisiologia não estaria preparada? Mais importante: que função ecológica estaríamos realmente restaurando?

Um animal ressuscitado poderia se transformar em espécie invasora?

Por mais paradoxal que pareça, sim. Uma espécie pode ser nativa de determinada região histórica e, ainda assim, um organismo recriado milhares de anos depois encontrar um ecossistema tão diferente que passe a funcionar praticamente como uma nova introdução biológica. A IUCN menciona explicitamente riscos de invasividade, hibridação com espécies atuais, transmissão de doenças, alterações nas cadeias alimentares e efeitos inesperados sobre os ecossistemas. Imagine introduzir centenas de grandes herbívoros semelhantes a mamutes numa região ártica atual. Eles poderiam derrubar árvores, alterar a vegetação, compactar neve e modificar ciclos de nutrientes. Alguns pesquisadores justamente enxergam nessas alterações uma possível vantagem ecológica. 

Mas prever o comportamento de um ecossistema complexo décadas depois da introdução é muito mais difícil do que demonstrar um efeito em pequena escala. Da mesma maneira, devolver uma grande ave frugívora a uma ilha poderia modificar a dispersão de sementes. Isso poderia ser positivo se restaurasse uma interação ecológica perdida — ou negativo caso as plantas, os competidores e os predadores atuais formassem uma comunidade completamente diferente daquela do passado. Ecossistemas não são museus nos quais basta recolocar uma peça que estava faltando. São sistemas dinâmicos.

E se não houver mais lugar para a espécie?

Existe ainda uma pergunta incômoda. Se uma espécie foi extinta porque destruímos seu habitat, qual é o sentido de recriá-la sem antes recuperar o habitat? Esse problema torna-se particularmente evidente em espécies extintas recentemente. Seria contraditório investir milhões de dólares na reconstrução genética de um animal enquanto as espécies vivas mais próximas dele continuam perdendo habitat. Uma população viável também não pode ser constituída por dois ou três indivíduos espetaculares exibidos ao público. Ela precisa de número suficiente de animais, diversidade genética, capacidade reprodutiva, espaço, alimento e condições para persistir durante muitas gerações. Produzir um indivíduo é uma realização biotecnológica. Restaurar uma população é um problema de conservação. E restaurar sua função na natureza é um problema ecológico ainda maior.

O dinheiro da desextinção poderia salvar espécies que ainda existem?

Essa é uma das críticas mais fortes aos grandes projetos. Existem atualmente milhares de espécies ameaçadas que poderiam ser beneficiadas por proteção de habitats, combate à caça, criação de corredores ecológicos, controle de espécies invasoras e programas de reprodução. Por que gastar enormes quantias tentando recuperar um animal desaparecido? A crítica é legítima, e a IUCN alerta para o chamado custo de oportunidade: recursos destinados à criação de substitutos de espécies extintas não deveriam comprometer esforços necessários para evitar a extinção de espécies que ainda existem. Mas existe um argumento contrário interessante. As tecnologias desenvolvidas para desextinção — edição genética, reprodução assistida, cultivo de células germinativas, bancos genéticos, clonagem e análise de DNA antigo — podem também ser utilizadas na conservação de espécies ameaçadas. Nesse sentido, talvez uma das maiores contribuições da desextinção não seja ressuscitar mamutes ou dodôs, mas desenvolver ferramentas capazes de impedir que outras espécies cheguem ao ponto em que precisemos tentar ressuscitá-las.

Existe também um perigoso efeito psicológico

A desextinção pode transmitir inadvertidamente uma mensagem muito ruim: “Se uma espécie desaparecer, depois nós a reconstruímos.” Não é assim. Uma espécie é resultado de milhões de anos de evolução e de uma história ecológica que não pode simplesmente ser restaurada apertando o botão “desfazer”. Quando uma espécie desaparece, perdemos seus genes, mas também populações, relações ecológicas, comportamentos aprendidos e parte da história evolutiva daquele ecossistema. Nenhuma tecnologia conhecida permite recuperar tudo isso. Por isso, impedir uma extinção continua sendo incomparavelmente mais seguro do que tentar revertê-la posteriormente.

Então a desextinção é uma fraude?

Também seria injusto chegar a essa conclusão. Os experimentos são cientificamente extraordinários. Conseguir recuperar DNA com dezenas de milhares de anos, reconstruir genomas, identificar variantes de genes, editar simultaneamente diversos pontos do DNA, produzir embriões e obter animais vivos demonstra até onde chegaram a genética e a biotecnologia. O caso do lobo-terrível é um excelente exemplo. O problema não está necessariamente na tecnologia. Está em como descrevemos aquilo que ela produziu. Dizer que três lobos-cinzentos geneticamente modificados possuem características reconstruídas a partir do estudo do lobo-terrível é uma afirmação científica fascinante. Dizer simplesmente “ressuscitamos o lobo-terrível” é uma afirmação muito mais difícil de sustentar biologicamente. A diferença entre as duas frases pode parecer pequena para uma campanha publicitária. Para a ciência, é enorme.

Talvez a pergunta esteja errada

Perguntamos: “Conseguiremos trazer espécies extintas de volta?” Talvez devêssemos formular a questão de outra maneira: “Até que ponto conseguimos reconstruir um organismo extinto?” Provavelmente veremos animais cada vez mais semelhantes geneticamente e funcionalmente a espécies desaparecidas. Talvez vejamos algo parecido com um mamute caminhando novamente sobre a neve. Talvez uma ave muito semelhante ao dodô volte a andar pelas ilhas Maurício. Será um feito científico extraordinário. Mas o verdadeiro desafio começará justamente nesse momento. Porque criar o animal talvez seja mais fácil do que responder: O que faremos com ele? 

Um organismo não existe isoladamente. Ele pertence a uma população, que pertence a uma comunidade, que pertence a um ecossistema. Ressuscitar alguns genes não ressuscita automaticamente as presas, os predadores, os parasitas, as plantas, o clima e as inúmeras relações ecológicas existentes quando aquela espécie evoluiu. Talvez, portanto, a maior lição da desextinção seja paradoxal. Quanto mais aprendemos sobre como seria difícil reconstruir uma espécie depois que ela desaparece, mais evidente fica a importância de conservar aquelas que ainda estão conosco. A genética talvez consiga reconstruir parte de um animal perdido. Ainda não aprendemos a ressuscitar o mundo ao qual ele pertencia.

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