Corinthians, 116 anos: o time que nasceu dos trabalhadores e entrou para a história das lutas populares
Neste 1º de setembro de 2026, o Sport Club Corinthians Paulista completa 116 anos. Para milhões de torcedores, a data é motivo suficiente para recordar campeonatos, jogadores inesquecíveis, invasões de estádios, títulos brasileiros, Libertadores e Mundiais. Mas existe outra história do Corinthians que merece ser lembrada. Uma história que começa antes dos troféus e ajuda a explicar por que chamar o clube de “Time do Povo” significa muito mais do que repetir um apelido.
O Corinthians nasceu em 1º de setembro de 1910, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Cinco trabalhadores — Anselmo Corrêa, Antônio Pereira, Carlos Silva, Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone — participaram diretamente daquela fundação, tradicionalmente descrita como ocorrida à luz de um lampião. O nome foi inspirado no Corinthian Football Club, equipe inglesa que excursionara pelo Brasil naquele ano. O novo clube, entretanto, nascia num ambiente social muito diferente daquele dos clubes que dominavam o futebol paulista.
Naqueles primeiros anos do século XX, o futebol ainda guardava fortes marcas de sua introdução entre setores privilegiados da sociedade. Clubes ligados às elites tinham acesso às principais competições, enquanto trabalhadores jogavam principalmente nos campos de várzea que se espalhavam por São Paulo. O Corinthians surgiu exatamente nesse ambiente popular. Não foi fundado por industriais milionários nem por representantes da aristocracia paulistana. Nasceu pelas mãos de gente que trabalhava e queria também ter seu clube e seu futebol.
Isso não significa que aqueles cinco homens tenham se reunido em 1910 para criar um movimento político organizado ou que possamos atribuir a eles todas as ideias sociais que hoje associamos ao Corinthians. Seria anacrônico. O que podemos afirmar é algo historicamente mais interessante: a própria origem social do clube representava uma abertura daquele futebol para setores da população que estavam à margem de seus espaços mais privilegiados.
A ascensão foi rápida. Em 1913, apenas três anos depois da fundação, o Corinthians conseguiu ingressar no Campeonato Paulista. Em 1914 foi campeão invicto, com dez vitórias em dez partidas. O clube dos trabalhadores começava a ocupar definitivamente um espaço no futebol oficial de São Paulo.
Do clube dos trabalhadores ao clube das multidões
Ao longo das décadas seguintes, o Corinthians deixou de ser apenas o clube de um bairro operário e tornou-se uma das maiores manifestações populares do esporte brasileiro. A torcida cresceu enormemente, incorporando brasileiros das mais diferentes origens sociais, raciais e regionais.
É nesse ponto que também precisamos falar da questão racial com algum cuidado histórico. Seria simplificador afirmar que o Corinthians foi fundado em 1910 como um “clube antirracista”, no sentido contemporâneo da expressão. A sociedade brasileira da época estava apenas 22 anos distante da abolição da escravidão e o racismo estruturava profundamente suas relações sociais — inclusive o esporte.
Mas a popularização do futebol e a progressiva participação de jogadores negros e pobres mudaram profundamente o esporte brasileiro. E, ao longo de sua história, o Corinthians teve inúmeros jogadores negros transformados em ídolos de uma torcida gigantesca. Mais recentemente, o próprio clube assumiu publicamente posições explícitas contra o racismo, inclusive utilizando a memória de seus grandes jogadores negros em campanhas contra a discriminação racial.
Há, portanto, uma diferença importante entre afirmar que o Corinthians nasceu formalmente antirracista, o que seria historicamente difícil de sustentar, e reconhecer que sua origem popular e sua história posterior se entrelaçaram com a progressiva democratização social e racial do futebol brasileiro.
E poucos personagens representam tão bem esse encontro entre futebol, participação popular, luta contra o racismo e democracia quanto Wladimir Rodrigues dos Santos, o grande lateral-esquerdo que se tornaria também uma das figuras centrais de um dos episódios mais extraordinários da história do esporte brasileiro.
Quando um time de futebol resolveu discutir democracia
No começo da década de 1980, o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar instalada em 1964. Ao mesmo tempo, a sociedade se mobilizava cada vez mais pela redemocratização. Foi exatamente nesse contexto que surgiu a Democracia Corinthiana.
A partir de 1982, durante a presidência de Waldemar Pires e com Adílson Monteiro Alves na direção de futebol, jogadores como Sócrates, Wladimir, Casagrande, Zenon, Zé Maria e outros integrantes do elenco passaram a participar de decisões que tradicionalmente pertenciam exclusivamente aos dirigentes.
E não eram decisões simbólicas. Discutiam-se concentração, contratações, esquema de jogo e diferentes aspectos do cotidiano da equipe. O princípio era surpreendentemente simples para o futebol profissional daquela época: quem participava do trabalho também deveria participar das decisões.
A experiência ultrapassou rapidamente os muros do Parque São Jorge.
Em 1982, o Corinthians entrou em campo com a inscrição “Dia 15 Vote”, incentivando a participação nas eleições. Dois anos depois, jogadores ligados à Democracia Corinthiana participaram do movimento das Diretas Já, que mobilizou multidões pela retomada das eleições diretas para presidente da República. Sócrates tornou-se uma das figuras públicas daquela mobilização.
Tudo isso aconteceu enquanto o time continuava jogando futebol — e ganhando. O Corinthians foi bicampeão paulista em 1982 e 1983.
Talvez esteja aí uma das características mais fascinantes daquele movimento: os jogadores demonstraram que esporte, cidadania e participação política não precisavam existir em universos separados.
A Democracia Corinthiana acabou em meados da década de 1980, mas sua importância histórica permaneceu. Hoje existem inclusive pesquisas acadêmicas e livros dedicados especificamente a estudar aquela experiência de autonomia dos atletas e suas relações com os movimentos sociais e políticos que acompanhavam a redemocratização brasileira.
Corinthians, mulheres e outras lutas sociais
A história popular de um clube, entretanto, não significa que sua trajetória tenha sido permanentemente progressista.
O futebol brasileiro foi durante muito tempo um ambiente predominantemente masculino e profundamente marcado pelo machismo. As mulheres tiveram de lutar pelo direito de jogar, torcer, ocupar arquibancadas, participar das organizações esportivas e simplesmente serem reconhecidas como integrantes legítimas daquele universo.
Por isso, novamente é preciso evitar uma reconstrução confortável do passado: não seria historicamente correto afirmar que o Corinthians nasceu feminista em 1910.
O que existe é uma história posterior em que mulheres passaram a ocupar espaços cada vez maiores dentro do universo corintiano, seja nas arquibancadas, nos movimentos de torcedores ou dentro de campo. O crescimento e o enorme sucesso recente do futebol feminino corintiano acrescentaram uma nova dimensão à identidade popular do clube.
A mesma cautela vale para outras lutas contemporâneas. O Corinthians não é uma pessoa, não possui uma única ideologia e seus milhões de torcedores obviamente pensam das mais diferentes maneiras. Em 116 anos passaram pelo clube dirigentes, jogadores e grupos com posições políticas completamente distintas.
Entretanto, movimentos surgidos dentro de sua própria torcida passaram a reivindicar conscientemente aquela tradição popular e democrática.
Um exemplo é o Coletivo Democracia Corinthiana, surgido décadas depois do movimento original e inspirado explicitamente naquela experiência. O Museu do Futebol registra inclusive sua ligação simbólica com a Democracia Corinthiana e com manifestações políticas anteriores da torcida, como a histórica faixa “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita”, utilizada pela Gaviões da Fiel em 1979.
Isso ajuda a compreender por que temas como democracia, combate ao racismo, direitos das mulheres, oposição à homofobia e defesa de diferentes grupos sociais aparecem periodicamente entre movimentos formados por corintianos.
Não significa que todo corintiano compartilhe as mesmas posições. Evidentemente não compartilha. Significa apenas que existe dentro da história social do Corinthians uma tradição de participação popular que periodicamente ultrapassa as quatro linhas.
O que significa ser o “Time do Povo”?
Talvez essa seja a questão mais interessante depois de 116 anos. Ser popular não significa apenas possuir milhões de torcedores. Um clube pode ter uma torcida gigantesca e ainda assim sua história não carregar a mesma simbologia. No Corinthians, o “povo” aparece já no ponto de partida: trabalhadores reunidos no Bom Retiro em 1910 tentando construir seu próprio espaço num futebol ainda fortemente associado às camadas privilegiadas.
Depois vieram gerações de operários, imigrantes, negros, brancos, homens, mulheres, moradores das periferias e das áreas centrais, paulistas e migrantes de todo o país. O clube cresceu junto com a própria transformação de São Paulo numa metrópole gigantesca.
Por isso talvez seja impossível compreender completamente o Corinthians olhando apenas para sua coleção de troféus. É preciso olhar também para as arquibancadas. Para a várzea. Para o trabalhador que ajudou a fundá-lo. Para os jogadores negros que se tornaram ídolos. Para as mulheres que conquistaram seu espaço num ambiente durante décadas tratado como território masculino. Para Wladimir, Casagrande e Sócrates discutindo democracia dentro de um clube de futebol quando o próprio país ainda lutava para recuperá-la. Para uma camisa que entrou em campo dizendo ao cidadão simplesmente: vote.
E para jogadores que depois subiram em palanques diante de multidões pedindo eleições diretas para presidente.
Nada disso transforma o Corinthians numa instituição historicamente perfeita. Tampouco autoriza alguém a sequestrar sua história em favor desta ou daquela corrente política contemporânea. Um clube com dezenas de milhões de torcedores necessariamente contém todas as contradições da própria sociedade brasileira.
Talvez seja justamente aí que esteja sua grandeza social.
O Corinthians nasceu de baixo para cima.
Nasceu de trabalhadores que queriam jogar o futebol que encantava São Paulo. Cresceu com a cidade, atravessou transformações sociais profundas e tornou-se uma instituição na qual, em determinados momentos, futebol e cidadania se encontraram de maneira extraordinária.
Hoje, 1º de setembro de 2026, o Corinthians completa 116 anos.
São 116 anos de gols, derrotas, títulos, jejuns, invasões, sofrimento e festas.
Mas são também 116 anos de uma identidade difícil de explicar apenas com estatísticas esportivas.
Porque antes de Libertadores, Brasileiros e Mundiais, antes de Sócrates, Wladimir, Marcelinho, Cássio e tantos outros, havia cinco trabalhadores, um bairro popular e uma ideia.
Criar um clube para jogar futebol.
O resto virou história.
E o povo tomou conta.
Salve o Corinthians!
Para quem escreve estas linhas de Sete Lagoas, Minas Gerais, há ainda uma ligação especial entre a cidade e o Corinthians. Pelo menos três jogadores setelagoanos vestiram a camisa alvinegra em diferentes gerações. Vaguinho (Wagno de Freitas), ponta-direita revelado pelo Democrata de Sete Lagoas, chegou ao Corinthians em 1971 e tornou-se um dos jogadores marcantes do período em que a Fiel esperava pelo fim do longo jejum de títulos. Décadas depois veio o zagueiro João Carlos dos Santos, também revelado pelo Democrata, que fez 91 partidas pelo Corinthians e participou de dois momentos históricos: foi campeão brasileiro em 1999 e integrou a equipe campeã do Mundial de Clubes da FIFA de 2000; João Carlos também vestiu a camisa da Seleção Brasileira e foi campeão da Copa América de 1999. E essa pequena tradição setelagoana continua atualmente com o zagueiro João Pedro Tchoca, nascido em Sete Lagoas em 2003, formado nas categorias de base corintianas e campeão da Copinha de 2024. Depois de uma passagem por empréstimo pelo Ceará, retornou ao Corinthians, marcou seu primeiro gol como profissional em janeiro de 2025 e renovou seu vínculo com o clube até 2030. Para um corintiano de Sete Lagoas, portanto, existe um motivo adicional de orgulho: em diferentes épocas, um pedacinho da nossa cidade também esteve — e continua estando — dentro do Timão.
Ramon Lamar de Oliveira Junior
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