Redação do ENEM 2026: 12 temas que são fortes apostas para a prova

Todo ano, à medida que o ENEM se aproxima, começa a inevitável pergunta: qual será o tema da redação? Evidentemente, ninguém que esteja fora da equipe responsável pela elaboração da prova pode responder a essa pergunta com segurança. Entretanto, isso não significa que seja impossível fazer apostas razoavelmente fundamentadas. O histórico do exame permite identificar algumas características recorrentes: normalmente, a redação aborda um problema relevante da sociedade brasileira, envolve direitos que ainda não são plenamente garantidos, permite identificar grupos sociais afetados e possibilita ao candidato elaborar uma proposta concreta de intervenção.

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Outro cuidado é necessário. O assunto que domina o noticiário não é necessariamente aquele que aparecerá na redação. O ENEM costuma evitar simplesmente reproduzir a pauta jornalística do momento. Muitas vezes escolhe uma questão social que já vinha amadurecendo no debate público e que pode ser analisada por diferentes perspectivas. Em 2023, por exemplo, a prova tratou da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher; em 2024, da valorização da herança africana no Brasil; e, em 2025, das perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira. Portanto, mais importante do que tentar adivinhar uma frase é identificar grandes eixos sociais que merecem atenção.

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Considerando esse histórico e, principalmente, questões que ganharam relevância social, educacional, jurídica e política nos últimos anos, estas são minhas 12 maiores apostas para a redação do ENEM 2026.

Se você ainda não praticou esses temas, está perdendo um tempo precioso!!!

1. Proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital
Esta é, neste momento, minha principal aposta. Uma possível formulação seria “Desafios para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes no ambiente digital brasileiro”. O tema permite abordar exposição excessiva às redes sociais, coleta de dados pessoais, publicidade direcionada, cyberbullying, conteúdos inadequados, violência sexual, jogos eletrônicos, apostas, algoritmos e mecanismos de verificação de idade.
A força dessa aposta aumentou consideravelmente com a aprovação do chamado ECA Digital, Lei nº 15.211/2025, que entrou em vigor em março de 2026 e estabeleceu novas obrigações para plataformas digitais destinadas ou acessíveis a crianças e adolescentes. A legislação trata, entre outras questões, de supervisão parental, aferição de idade, publicidade, jogos eletrônicos e prevenção de riscos. Em agosto de 2026, outra lei ampliou o combate à violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive quando praticada no ambiente digital e mediante utilização de inteligência artificial.
É um tema que reúne praticamente todos os ingredientes apreciados pelo ENEM: juventude, cidadania, direitos humanos, educação, tecnologia, responsabilidade do Estado, participação da família e responsabilidade das empresas.

2. Impactos sociais das apostas on-line e o superendividamento
As chamadas bets deixaram há muito tempo de ser apenas uma questão relacionada ao esporte ou ao entretenimento. Transformaram-se em um problema econômico, social e também de saúde pública. Uma possível proposta seria “Desafios para o enfrentamento dos impactos sociais das apostas on-line na sociedade brasileira”.
O estudante poderia discutir publicidade agressiva, participação de influenciadores digitais, facilidade de acesso pelo celular, ilusão de enriquecimento rápido, endividamento familiar, comportamento compulsivo e necessidade de educação financeira. A própria atuação recente do poder público demonstra a dimensão adquirida pelo problema. Em julho de 2026, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional de prevenção aos danos das apostas on-line, incluindo orientações sobre uso problemático e atendimento pelo SUS. No mesmo período, órgãos do Ministério da Justiça cobraram de grandes lojas de aplicativos esclarecimentos sobre mecanismos para impedir o acesso de crianças e adolescentes a aplicativos de apostas.
Como repertório, além da legislação sobre superendividamento, conceitos relacionados à sociedade de consumo podem ser muito produtivos.

3. Inclusão das pessoas neurodivergentes e das pessoas com deficiência
O crescimento da discussão pública sobre autismo, TDAH, diagnóstico tardio, capacitismo e inclusão coloca este eixo entre os mais interessantes. O ENEM poderia apresentar algo como “Desafios para a inclusão efetiva das pessoas neurodivergentes na sociedade brasileira” ou ampliar a discussão para as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência.
A questão permite discutir educação inclusiva, formação de professores, acessibilidade, mercado de trabalho, preconceito, diagnóstico, atendimento público e autonomia. Um repertório fundamental seria a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência — Lei nº 13.146/2015, além do princípio constitucional da igualdade.
O interessante é perceber que inclusão não significa apenas permitir que determinada pessoa esteja fisicamente em uma escola ou empresa. Significa criar condições para que ela participe efetivamente daquele ambiente.
Observação: muito cuidado com as terminologias usadas!!!

4. Educação midiática e combate à desinformação
Em uma sociedade na qual praticamente qualquer cidadão pode produzir e compartilhar informações instantaneamente, saber ler deixou de significar apenas compreender palavras. É necessário também avaliar fontes, reconhecer manipulações, identificar conteúdos fraudulentos e distinguir informação, opinião, publicidade e desinformação.
Uma formulação bastante plausível seria “A importância da educação midiática para o exercício da cidadania no Brasil”.
O assunto ganhou ainda mais relevância em 2026. A Estratégia Brasileira de Educação Midiática foi atualizada e o governo lançou o Mapa Brasileiro da Educação Midiática, reunindo iniciativas voltadas ao desenvolvimento de competências midiáticas e informacionais.
Fake news, vídeos manipulados, deepfakes, algoritmos e inteligência artificial tornam esse problema ainda mais complexo. A escola passa a ter um papel importante não apenas no ensino do uso das tecnologias, mas principalmente na formação de cidadãos capazes de utilizá-las criticamente.

5. Mudanças climáticas, desigualdade social e justiça ambiental
As mudanças climáticas provavelmente continuarão aparecendo de várias maneiras nas provas do ENEM. Para a redação, entretanto, considero mais provável um recorte social do que simplesmente um tema como “aquecimento global”.
Uma formulação mais compatível com o perfil da prova seria “Desafios para reduzir a vulnerabilidade socioambiental diante dos eventos climáticos extremos no Brasil”.
Enchentes, deslizamentos, ondas de calor, secas e outros eventos não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Populações periféricas, moradores de áreas de risco, comunidades tradicionais e grupos com menor renda frequentemente possuem menos recursos para prevenir danos ou reconstruir suas vidas.
Nesse contexto aparecem conceitos importantes como justiça climática e racismo ambiental. O artigo 225 da Constituição Federal, que estabelece o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, constitui excelente repertório jurídico.
Atenção: muito cuidado para não transformar sua redação numa aula de Ecologia ou de Química Ambiental!!!

6. Direitos dos trabalhadores de aplicativos
Motoristas, entregadores e outros profissionais vinculados a plataformas digitais representam uma transformação profunda nas relações de trabalho. Uma possível proposta seria “Desafios para a garantia de direitos aos trabalhadores de plataformas digitais no Brasil”.
O tema permite discutir autonomia, flexibilidade, jornadas prolongadas, remuneração, proteção previdenciária, acidentes de trabalho, gestão algorítmica e ausência de algumas garantias historicamente associadas ao emprego formal.
O fenômeno está longe de ser marginal. Nota técnica do Ministério do Trabalho atualizada em 2026 estima aproximadamente 4,3 milhões de trabalhadores envolvidos no trabalho plataformizado no Brasil.
O grande dilema seria justamente encontrar formas de preservar vantagens associadas à flexibilidade dessas atividades sem transformar liberdade de trabalho em ausência completa de proteção social.

7. Uso ético da inteligência artificial na educação
Em vez de apostar simplesmente em “Inteligência Artificial”, expressão ampla demais, considero muito mais interessante observar seus impactos em setores específicos. A educação é um deles.
Uma possível proposta seria “Desafios para o uso ético da inteligência artificial na educação brasileira”.
A IA pode personalizar estudos, auxiliar professores, democratizar determinados recursos e facilitar o acesso à informação. Ao mesmo tempo, cria problemas envolvendo dependência tecnológica, produção automática de trabalhos, redução da autonomia intelectual, informações falsas, desigualdade de acesso e proteção de dados.
Em 2026, o Ministério da Educação lançou referenciais e documentos orientadores para a utilização responsável, ética e crítica da inteligência artificial nos processos educacionais. Isso mostra que a discussão já ultrapassou a curiosidade tecnológica e entrou definitivamente no campo das políticas educacionais.

8. Violência contra mulheres no ambiente digital
A violência contra a mulher adquiriu novas formas com as tecnologias digitais. Perseguição virtual, ameaças, divulgação não autorizada de imagens íntimas, ataques coordenados, chantagem e produção de imagens sexualizadas falsas por inteligência artificial são manifestações contemporâneas de um problema social antigo.
Uma proposta poderia abordar “Desafios para o enfrentamento da violência contra mulheres no ambiente digital brasileiro”.
A redação permitiria relacionar desigualdade de gênero, educação, legislação, responsabilidade das plataformas, segurança pública e alfabetização digital. Apesar de o ENEM ter abordado em 2023 a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres, este seria um recorte suficientemente diferente para continuar merecendo atenção.

9. Excesso de telas e impactos sobre o desenvolvimento de crianças e adolescentes
Embora esteja relacionado ao primeiro tema, este possui autonomia suficiente para constituir outra possibilidade de redação. Uma formulação poderia ser “Desafios para promover o uso equilibrado das tecnologias digitais por crianças e adolescentes no Brasil”.
O candidato poderia discutir sedentarismo, sono, concentração, aprendizagem, interação social, saúde mental, dependência tecnológica e substituição de experiências presenciais pelo ambiente virtual.
A vantagem desse tema é permitir uma proposta de intervenção que não caia na simplificação de demonizar a tecnologia. Família, escola, poder público, profissionais de saúde e empresas de tecnologia podem compartilhar responsabilidades na construção de hábitos digitais mais saudáveis.

10. Democratização da leitura e formação de leitores
Este é um daqueles temas que podem não ocupar diariamente as manchetes, mas possuem uma característica muito importante: têm enorme “cara de ENEM”, ou seja, configurariam como um "tema inexperado" que iguala todos os concorrentes.
Uma formulação possível seria “Desafios para a formação de leitores na sociedade brasileira”.
Desigualdade socioeconômica, bibliotecas escolares e comunitárias, preço dos livros, alfabetização, influência familiar, concorrência das mídias digitais e letramento funcional oferecem diferentes caminhos argumentativos.
Um dos melhores repertórios seria Antonio Candido, especialmente sua defesa da literatura como necessidade humana e como instrumento de formação e humanização. A escola poderia aparecer não apenas como lugar onde se obriga o estudante a ler determinados livros, mas como espaço de formação efetiva do hábito e do prazer da leitura.

11. Inclusão e segurança digital da população brasileira
À medida que serviços bancários, documentos, compras, comunicação, serviços públicos e relações profissionais migram para o ambiente digital, uma nova modalidade de desigualdade ganha importância: não basta possuir acesso à internet; é necessário saber utilizá-la de maneira autônoma e segura.
Uma possível formulação seria “Desafios para garantir a inclusão e a segurança digital da população brasileira”.
Idosos, pessoas com menor escolaridade, indivíduos de baixa renda e cidadãos com pouca familiaridade tecnológica podem ficar mais expostos a golpes, engenharia social, roubo de dados e fraudes financeiras. Ao mesmo tempo, excluir-se do universo digital torna-se cada vez mais difícil. Há também a questão da cobertura de internet em algumas áreas do Brasil.
Esse tema permitiria discutir educação digital, inclusão social, responsabilidade das instituições financeiras e plataformas, proteção de dados e políticas públicas de capacitação.

12. Solidão, isolamento social e enfraquecimento dos vínculos comunitários
Minha última aposta é também uma aposta menos óbvia. O ENEM pode surpreender abordando um fenômeno que atravessa diferentes gerações: o enfraquecimento dos vínculos sociais. E ainda pode escorregar para problemas como depressão, ansiedade, pânico...
Uma formulação possível seria “Desafios para o enfrentamento da solidão e do isolamento social na sociedade brasileira”.
Apesar de vivermos permanentemente conectados, conexão digital não significa necessariamente vínculo social. Idosos que vivem sozinhos, jovens com relações predominantemente virtuais, enfraquecimento das relações comunitárias e familiares e transformações no modo de vida urbano permitem uma discussão bastante rica.
Esse tema possibilitaria mobilizar conceitos como a modernidade líquida de Zygmunt Bauman, além de discutir políticas de convivência, espaços públicos, cultura, esporte, escola, assistência social e fortalecimento comunitário. E seria uma maneira bastante típica de o ENEM abordar um problema contemporâneo sem simplesmente escolher o assunto mais evidente das manchetes.

Afinal, dá para prever o tema da redação?
Não. E qualquer pessoa que garanta saber antecipadamente qual será o tema provavelmente está vendendo uma segurança que não existe. Entretanto, existe uma diferença enorme entre tentar “adivinhar” a redação e preparar-se estrategicamente para os grandes eixos temáticos que podem originá-la.
Por isso, eu não recomendaria aos estudantes decorar doze redações prontas. Seria muito mais produtivo conhecer os problemas, construir repertórios e perceber as relações existentes entre eles. Crianças no ambiente digital, excesso de telas, inteligência artificial e educação midiática, por exemplo, compartilham vários argumentos e repertórios. Mudanças climáticas podem ser relacionadas à desigualdade social. Trabalho por aplicativos dialoga com tecnologia e precarização das relações trabalhistas. Apostas on-line envolvem simultaneamente educação financeira, saúde, publicidade, juventude e responsabilidade das plataformas.

Se fosse necessário reduzir ainda mais esta lista, minhas cinco apostas principais para o ENEM 2026, neste momento, seriam:

1º — Proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital;
2º — Impactos sociais das apostas on-line e superendividamento;
3º — Inclusão das pessoas neurodivergentes e das pessoas com deficiência;
4º — Educação midiática e combate à desinformação;
5º — Mudanças climáticas, desigualdade e justiça ambiental.

Naturalmente, o ENEM pode surpreender — e frequentemente surpreende. Mas estudar esses doze temas não seria tempo perdido mesmo que nenhum deles aparecesse literalmente na prova. Eles permitem construir um verdadeiro banco de argumentos sobre cidadania, direitos humanos, desigualdade, tecnologia, educação, trabalho, saúde e meio ambiente.
E talvez essa seja a melhor maneira de “prever” a redação: não tentar descobrir antecipadamente uma frase guardada em algum cofre, mas chegar à prova preparado para compreender e discutir criticamente os principais problemas da sociedade brasileira contemporânea.

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